Placa tectónica a desfazer-se pode explicar grandes tremores de terra sentidos em Portugal, apontam cientistas

Cientistas descobriram, na costa portuguesa, uma placa tectónica a desfazer-se, o que poderá criar uma nova “zona de subducção” que um dia pode tornar-se foco de terramotos e vulcõe

Francisco Laranjeira
Abril 3, 2023
17:36

Na costa portuguesas, nas profundezas de uma zona geologicamente monótona do fundo do mar, os cientistas descobriram uma placa tectónica a desfazer-se, o que poderá criar uma nova “zona de subducção” que um dia pode tornar-se foco de terramotos e vulcões, explicou esta segunda-feira a publicação americana ‘NBC’.

A descoberta, apresentada numa conferência científica em Viena, em abril, pode representar o primeiro contacto dos cientistas com o nascimento de uma zona de subducção e ajudar a explicar diversos terramotos misteriosos que atingiram o país – em particular, o de 1755, que devastou Lisboa, e um, um pouco menos, que atingiu a mesma área em 1969: de magnitude entre 8,5 e 8,7 no primeiro caso e 7,8 no segundo.



“Está longe de qualquer falha tectónica conhecida e é uma área plana do fundo do mar, então isso sempre foi um enigma”, explicou João Duarte, geólogo marinho da Universidade de Lisboa e líder da pesquisa que revelou a atividade no subsolo.

A crosta terrestre é composta por uma dúzia de grandes placas tectónicas, lajes rochosas de formato irregular que se movem lenta mas continuamente – os terramotos e erupções vulcânicas tendem a agrupar-se em zonas de subducção, que ocorrem ao longo dos limites entre as placas.

Instrumentos colocados no fundo do mar, para recolher dados sísmicos entre 2007 e 2008, permitiram à equipa de João Duarte detetar uma região estranhamente densa a cerca de 150 milhas (cerca de 240 quilómetros) abaixo do epicentro do terramoto de 1969.

Os dados sugerem que esta região é uma evidência de que a água do mar está a infiltrar-se lentamente na placa tectónica através de uma série de fendas, o que tem enfraquecido a sua estrutura geral e faz com que o fundo da placa se desprenda, um processo que, segundo o cientista, começou há cerca de 10 milhões de anos.

“Às vezes penso nisso como uma zona de subducção embrionária”, explicou João Duarte. “Ainda não está totalmente maduro mas as condições estão todas lá.”

Chris Goldfinger, geólogo da Oregon State University, nos Estados Unidos, e que não esteve envolvido na investigação, considerou a hipóteses de “muito plausível”. “Ainda continua a ser a única viável”, apontou. “Normalmente, há várias hipóteses que podem jogar umas com as outras, mas realmente não há uma alternativa neste momento”, referiu, sublinhando serem necessárias mais pesquisas para confirmar uma zona de subducção recém-fornada. “Esta ainda é uma hipótese que é apoiada principalmente por um modelo de computador”, revelou. “Tudo isso está a acontecer tão fundo na Terra que não é possível vê-lo, pelo menos com a tecnologia atual.”

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