Os negócios devem lutar pela democracia?

É um facto que as empresas estão inseridas na sociedade e nas instituições sociais. Cada empresa e cada stakeholder – seja de clientes, fornecedores e funcionários a comunidades, reguladores e financiadores – tem uma perspectiva ética, uma visão política e um interesse profissional.

Executive Digest

É um facto que as empresas estão inseridas na sociedade e nas instituições sociais. Cada empresa e cada stakeholder – seja de clientes, fornecedores e funcionários a comunidades, reguladores e financiadores – tem uma perspectiva ética, uma visão política e um interesse profissional.

Os indivíduos de cada grupo de stakeholders têm ideias sobre a forma como querem que as suas vidas sejam importantes no mundo. Essas ligações com o mundo fora dos negócios são geralmente fortes motivadores para a tomada de decisões.



Porque influenciam não só como e onde as empresas criam oportunidades para os colaboradores, como se formam parcerias, de que forma são e devem ser tratados os fornecedores, até onde as empresas cumprem as obrigações contratuais e em que organizações se opta por investir.

Essas decisões são frequentemente descritas como tendo sido determinadas principalmente por motivos financeiros. Mas a verdade é que os seres humanos – e os seus negócios – são bem mais complexos que isso. Existe um profundo desalinhamento entre as ideias que temos sobre as nossas ligações e muita da nossa melhor lógica sobre liderar um negócio de sucesso.

Costumamos falar sobre o papel dos mercados, da concorrência e da economia como se eles pudessem ser simplesmente independentes da sociedade. E a verdade é que tanto os media como os educadores têm dado sempre muita credibilidade às análises económicas que reconhecem apenas perifericamente o papel de outras instituições da sociedade nos negócios – sem falar já nas preferências das pessoas ou na capacidade dos stakeholders para verem além de seus próprios objectivos, algo que tende a criar um valor mais generalizado.

A compreensão destas ligações é crucial no debate actual sobre a viabilidade futura do capitalismo. Especificamente, muitos académicos argumentam que as instituições democráticas e da sociedade civil e os ideais democráticos estão a ser atacados nos EUA e em comunidades globais por movimentos políticos populistas ou etnocêntricos, governos totalitários, políticas de imigração restritivas e políticas comerciais e diplomáticas proteccionistas. Acreditamos que é um problema urgente que as empresas precisam de resolver.

Com as suas afiliações e inf luência no mundo exterior, as empresas têm a capacidade – e, argumentamos, a responsabilidade – de ajudar a manter os princípios democráticos. O ADÁGIO “ERA O QUE ESTAVA CERTO” No nosso trabalho no Instituto de Negócios na Sociedade da Darden School of Business, vemos líderes que citam sistematicamente princípios éticos básicos e razoavelmente habituais para as decisões que tomam. “Era a coisa certa a fazer” é um adágio comum.

O líder de uma empresa de media justificou uma decisão financeira específica afirmando: “Bem, o nosso negócio é liberdade de expressão, por isso não foi difícil.” Outros dizem: “Sabemos com o que nos importamos”. Poucos, muito poucos, se concentram apenas nos lucros. Um novo documentário, previsto para o Outono e produzido pela Darden e pelo Instituto de Negócios na Sociedade, destaca algumas empresas inspiradoras e como elas agem no interesse de uma ampla gama de stakeholders.

O “Fishing With Dynamite” destaca as estratégias de empresas para preservar a liberdade económica perante a diminuição da popularidade pública dos líderes empresariais e da erosão da confiança nas instituições comerciais e governamentais. O nome do filme refere-se à prática de usar explosivos para pescar – uma prática que retira peixes da água, mas dizima o habitat no processo. As empresas do filme suportaram um longo período de crescimento financeiro ao mesmo tempo que alcançavam uma série de objectivos sociais.

Ninguém parece considerar misterioso o processo de manter vários objectivos. O crescimento é resultado da maneira como elas se envolvem com seus stakeholders. Um executivo, por exemplo, descreveu um relacionamento de longo prazo com um fornecedor que teve origem num aperto de mão e que continua livre de restrições legais.

A longa ligação das empresas, as normas da comunidade e os relacionamentos pessoais envolvidos mantêm o vínculo intacto. As histórias sobre a origem dessas empresas tornaram-se, de certa forma, os seus princípios operacionais: empresas fundadas não só para fornecer produtos necessários no mercado, mas também para fazer a diferença nas suas comunidades e também nos seus funcionários.

O CAPITALISMO DEPENDE DE TODAS AS LIBERDADES

As empresas da “Fishing With Dynamite” e outras semelhantes demonstram o poder de serem activas nos ambientes dos stakeholders, tanto para proteger os seus negócios como para proteger os seus valores. Será que é tudo política? Acreditamos que sim. Algumas pessoas sugerem que a liberdade económica está positivamente relacionada com o crescimento económico e que, por exemplo, os regimes autoritários têm um desempenho relativamente baixo. É uma análise incompleta.

A necessidade de todos os tipos de liberdade democrática fornece a base para o capitalismo e para o crescimento económico sustentado. Ao resguardarem os direitos individuais – à crença ou religião, à privacidade, à participação na força de trabalho, ao movimento em busca de oportunidades económicas, à liberdade de imprensa –, as instituições democráticas garantem a base para o desenvolvimento do capitalismo e de um sistema de negócios saudável. As instituições democráticas consagram os ideais das comunidades.

A democracia não se trata apenas de votar. Trata-se de criar instituições que nos permitem comunicar e colaborar livremente e, assim, f lorescer juntos. E a metáfora mais importante, produtiva e eficaz para essa colaboração gratuita até agora tem sido os negócios e o empreendedorismo. As empresas precisam de agir para conservar essas instituições e sistemas democráticos que garantem a liberdade democrática. Devem tornar-se activas no processo político, e não apenas ao fazerem pressão.

Estão posicionadas para se tornarem essencialmente criadoras de comunidades em torno de questões, pontos de vista e ideias políticas, em vez de se limitarem a serem “cidadãs que cumprem a lei”. AS EMPRESAS COMO ELEMENTOS ACTIVISTAS As empresas tendem a agir politicamente apenas segundo os seus próprios interesses e apenas quando sentem que estão a ser atacadas. Escrevem artigos de opinião, fazem pressão e cultivam relacionamentos com políticos e membros do governo.

Para a geração que ensinamos, isto parece desadequado na melhor das hipóteses e corrupto na pior. Se uma empresa tem um modelo operacional que inclui a criação de laços extensos e estáveis com as comunidades em que trabalha, e se uma empresa agiu em nome dos interesses dos stakeholders no passado, pode ser vista por esta geração como plausível, como arceiro legítimo na melhoria da oportunidade e dos direitos individuais. Com acesso a dados demográficos e de compras dos consumidores, as empresas estão posicionadas de maneira única para reconhecer, interpretar e aproveitar as interdependências entre os seus stakeholders, além de alavancarem e preservarem o valor que é criado para elas pelas instituições sociais, incluindo políticas públicas e governamentais. Vejamos, por exemplo, a política de imigração dos EUA e os centros de detenção na fronteira mexicana.

Muitos recursos de dados de empresas e as experiências de colaboradores demonstram que as comunidades querem que as leis de imigração sejam reformadas e não consideram os centros de detenção uma resposta adequada.

As organizações precisam de desenvolver processos enraizados para demonstrar atitudes e soluções, e depois organizar o apoio a políticas mais humanas e de afirmação da liberdade. Da mesma forma, quando o direito à privacidade está sob ataque no Arkansas ou na Geórgia, as empresas que operam nessas áreas podem fazer mais do que boicotar ou retirar a produção desses estados, já que nenhuma dessas acções confirma a liberdade democrática de outras pessoas. Elas devem ter legitimidade para organizar as comunidades de forma a exprimirem oposição. A maior parte do que estamos a falar não é tido em conta no ensino actual das business schools.

O programa na maioria das business schools simplesmente ignora quase todas as ideias que não estejam relacionadas com mercados, concorrência e finanças, e os alunos aprendem que as considerações financeiras são a única motivação legítima dos negócios. Contudo, segundo a nossa experiência, muitos estudantes desejam uma forma de pensar mais ampla. Na Darden, um curso de “Derradeiras Questões” – o que realmente importa para uma pessoa e o que forma a base das suas escolhas – está normalmente esgotado.

O que motiva os indivíduos geralmente manifesta-se na sua participação política, comportamento de voto e activismo e, à medida que os estudantes se preparam para se tornarem líderes de negócios, rejeitam ter as suas paixões sublimadas ou tratadas como periféricas em relação aos seus objectivos empresariais. Os negócios estão inseridos na sociedade.

Está na hora de os empresários se preocuparem tanto com a democracia e a liberdade democrática tanto quanto se preocupam com as suas próprias organizações. Uma sociedade saudável depende disso.

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