No segmento de luxo, o anúncio do lançamento do novo Cybertruck, da Tesla, galvanizou um mercado que, nos Estados Unidos, compra dois milhões de veículos a cada ano. Aquilo que ao princípio parecia o protótipo de um protótipo transformou-se num design totalmente disruptivo que combina uma aparência única com custos de fabrico mais baixos do que seria de esperar. Com mais de meio milhão de encomendas registadas, a Tesla já colocou a prioridade do Cybertruck acima da produção do Roadster.
A razão para esta inversão de papéis? O Roadster apela a um mercado relativamente marginal, e do ponto de vista da audiência, não contribui assim tanto para aquelas áreas em que o Cybertruck, se for bem sucedido, poderá abocanhar uma fatia icónica do mercado. Isto é fundamental para conquistar a popularidade entre as massas num país como os Estados Unidos.
No segmento económico, a Volkswagen já anunciou que planeia lançar uma gama de veículos elétricos com preços abaixo dos 22.000 dólares, dirigida ao trânsito citadino e originalmente criada para mercados que não o dos Estados Unidos, onde esta gama poderá ser lançada com a chancela da Seat. A mobilidade acessível começa a ser vista como um segmento importante que pode vender muitas unidades.
A mobilidade elétrica proporciona aos designers muito mais liberdade criativa, com menos restrições do que as impostas pelos veículos tradicionais, para os quais tudo já foi inventado. Esta maior propensão a novos conceitos poderá levar à criação de veículos verdadeiramente revolucionários, muito diferentes de tudo o que vimos até agora.
Muitos analistas acreditam que este shift progressivo para a eletricidade é, na verdade, uma fase de transição para um modelo de mobilidade de carros autónomos e táxis robôs – o caminho parece ser este desde que a Intel comprou a Moovit, após ter adquirido a Mobileye em 2017, e do anúncio da Volvo de que vai começar a comercializar veículos autónomos a partir de 2022. A ideia de apresentar a mobilidade elétrica e autónoma como um serviço parece cada vez mais interessante do que o atual modelo de ter um carro. E, se a atual pandemia está a criar muitos problemas, serviu pelo menos para expor de forma exuberante o potencial dos veículos elétricos e autónomos.
Substituir o intenso trânsito nas cidades por um cenário exatamente igual, mas composto de carros elétricos não parece ser a melhor solução para ninguém, e o surto de Covid-19, com as suas restrições de mobilidade, deixou claro que há muita coisa para repensar no que diz respeito à vida nas cidades. Do mesmo modo, abriu os olhos a muita gente para os efeitos nocivos reais que os motores de combustão estão a ter na atmosfera e para a evidência de que a poluição do ar nos torna mais vulneráveis à doença.
No entanto, a menos que se tenha uma garagem para recarregar a bateria, ter um veículo elétrico não é uma proposta muito atrativa, o que assenta bem no plano de termos cada vez mais um conceito de serviço e não de posse dos veículos, libertando espaço nas cidades do futuro e questionando a apropriação do espaço público para o estacionamento de veículos privados. Não há dúvidas de que a vida seria muito melhor se em vez de ruas repletas de trânsito tivéssemos passeios maiores e mais ciclovias e mais corredores exclusivos para transportes públicos e cargas e descargas. É para esse futuro que a transição para a mobilidade elétrica nos pode estar a transportar.













