As acusações do Kremlin de que os “Estados Unidas da América faziam uso cínico do território ucraniano para pesquisas perigosas”, segundo revelou o embaixador da Rússia na ONU, Vasily Nebenzya, são ‘fake news’ – a Rússia transformou uma colaboração científica entre a Ucrânia e a Alemanha numa conspiração que envolvia enviar pássaros, morcegos e répteis doentes através da fronteira e infetar a população russa.
Durante a pandemia da Covid-19, investigadores alemães começaram a colaborar com colegas ucranianos para estudar parasitas em morcegos. O objetivo era descobrir que tipos de bactérias esses mamíferos voadores abrigavam, num primeiro passo para identificar qualquer potencial ameaça à saúde humana – numa fase em que o morcego era o principal ‘suspeito’ de ter desencadeado a Covid-19. Cientistas do Istituto Kharkiv de Medicina Veterinária Experimental e Clínica, na Ucrânia, recolheram 140 pulgas, carrapatos e moscas de diferentes morcegos no leste da Ucrânia, que foram embebidos em etanol e enviados para análise para o Instituto Friedrich Loeffler (FLI), na Alemanha.
O ADN destas amostras revelou a existência de patógenos como a rickettsia, uma bactéria comum que pode causar doenças como o tifo. Os resultados foram apresentados numa conferência da Sociedade Veterinária Alemã em 2021. “Foi uma pesquisa epidemiológica muito básica”, explicou à revista ‘Science’ a parasitologista veterinária da FLI, Cornelia Silaghi, responsável pelo projeto.
Foi então com grande surpresa quando, há uma semana, um funcionário do Ministério da Defesa russo afirmou que o estudo fazia parte de um esquema secreto de armas biológicas financiado pelo Ocidente – a informação, divulgada por toda a imprensa russa, afirmou tratar-se de um ‘complot’ ucraniano, apoiado pelos Estados Unidos, para enviar aves, morcegos e répteis doentes através da fronteira e assim infetar a população russa. O próprio presidente de Rússia, Vladimir Putin, declarou que “dezenas de laboratórios na Ucrânia” estavam a fazer experiências com o coronavírus, antraz e cólera “sob a direção e apoio financeiro do Pentágono”.
A 11 de março, na reunião do Conselho de Segurança da ONU convocada por representantes russos, Vasily Nebenzya afirmou: “Os morcegos foram considerados portadores de possíveis agentes de armas biológicas” e ofereceu como prova o documento que certificou a transferência de amostras entre o laboratório de Silaghi e o Instituto Veterinário de Kharkiv. “Não sabemos nada sobre o destino desses biomateriais perigosos e as consequências que podem ter. O risco de serem roubados para fins terroristas ou vendidos no mercado negro é alto.”
“Sei qual foi o seu destino: estão no meu congelador”, explicou Silaghi à ‘Science’, sem conseguir perceber como o documento pode estar na posse dos russos (embora suspeite que um email da equipa tenha sido hackeado). Além do mais, não há patógenos que possam espalhar-se pois o etanol usado para matar e preservar os parasitas também destrói os patógenos, deixando apenas intacto o material genético para sequenciamento. Por último, o projeto não recebeu qualquer financiamento dos Estados Unidos. “Sim, trabalhamos com ectoparasitas e recebemos amostras”, frisou Silaghi. “Mas esta história sobre armas biológicas é completamente louca.”
Os responsáveis pelas ‘fake news’ encontraram uma ‘mina de ouro’ no facto de o Instituto Veterinário de Kharkiv fazer parte de uma rede maior de instituições de pesquisa que receberam fundos do Departamento de Defesa dos EUA através do Programa de Redução de Ameaças Biológicas, um projeto de décadas e que visou controlar os restos das armas biológicas, químicas e nucleares da era soviética. O programa incluiu laboratórios russos até 2014 e mais tarde transformou-se num esforço de controlo de doenças e saúde pública em toda a antiga União Soviética, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos – a leitura russa é a de que este projeto é toda uma rede de laboratórios financiada pelos EUA na fronteira russa.
Houve também informações sobre uma pesquisa sobre o microbioma intestinal de víboras realizada pela Universidade Nacional VN Karazin Kharkiv ser afinal um estudo de “armas biológicas”, apesar de nenhum dos microrganismos no intestino de uma víbora ser especialmente perigoso – aliás, todas as conclusões podem ser consultadas pois são do domínio público.
Alguns dos investigadores já foram ameaçados e confessaram ter medo. A própria Silaghi já recebeu emails anónimos “perturbadores”, no qual era acusada de agir como uma “cientista nazi”. “É muito estranho que seja culpada por algo quase absurdo. Os russos precisam de saber que isso é uma mentira”, finalizou.










