A invasão da Ucrânia pela Rússia fez potenciar o risco de um conflito nuclear, o suficiente para colocar o mundo em sobressalto com a possibilidade. Mas, como seria uma explosão de uma bomba nuclear? Tanto para aqueles que estão no solo como para as consequências posteriores?
A resposta depende de quantas armas seriam lançadas. A Rússia e os Estados Unidos têm 90% das armas nucleares do mundo, segundo a Federation of American Scientists – do lado russo, são 1.588 armas implantadas em mísseis intercontinentais, que têm um alcance de pelo menos 5.500 quilómetros, e bases de bombardeiros pesados, que hospedam aviões capazes de transportar e lançar cargas nucleares; os EUA têm 1.644 armas posicionadas da mesma maneira. Os dois países têm também quase 5 mil bombas ativas que são funcionais ou que simplesmente aguardam lançadores.
De forma clara, um guerra nuclear em grande escala pode facilmente representar um evento de extinção para a humanidade, não apenas pelas mortes iniciais mas também pelo chamado ‘inverno nuclear’ que se seguiria.
De acordo com alguns especialistas, um conflito nuclear nesta fase seria numa escala limitada com as chamadas armas atómicas táticas. Segundo o James Martin Center for Nonproliferation Studies, organização americana não governamental, entre 30 e 40% dos arsenais dos dois países rivais são compostas por essas bombas menores, que têm um alcance de 500 km por terra e menos de 600 km por mar – essas armas teriam impactos devastadores perto da zona de explosão mas não seriam responsáveis pelo pior apocalipse nuclear global.
This photo was made by ACME photographer Harry Leder from a B-29 flying at 1980 m from a distance of about 27 km, was made within five seconds from the time the July 1st atomic bomb with a yield of 23 kilotons exploded over the target fleet at Bikini. 1946. pic.twitter.com/Wl03S9FD4c
— NUKES (@atomicarchive) December 28, 2021
E como funcionam? Existem diversos tipos e tamanhos de armas nucleares mas as modernas começam por desencadear uma reação de fissão – a fissão é a divisão dos núcleos de átomos pesados em outros mais leves, um processo que liberta nêutrons. Esses nêutrons podem atingir os núcleos de átomos próximos, dividindo-os e desencadeando uma reação em cadeia fora de controlo.
A explosão de fissão resultante é devastadora: foram as bombas de fissão, conhecidas como bombas atómicas ou bombas A, que destruíram Hiroshima e Nagasaki, no Japão, com a força entre 15 e 20 quilotons de TNT. No entanto, muitas das armas modernas têm o potencial de causar danos ainda maiores. Bombas termonucleares, ou de hidrogénio, usam o poder da reação da fissão inicial para fundir átomos de hidrogénio dentro da arma – essa reação provoca ainda mais nêutrons, que criam mais fissão, depois mais fusão e por aí em diante. O resultado é uma bola de fogo com temperaturas que combinam com o calor do centro do Sol. As bombas termonucleares já foram testadas mas nunca usadas em combate.
Escusado será dizer que estar no ponto de impacto de tal explosão significa morte instantânea. Por exemplo, uma arma nuclear de 10 quilotons mataria imediatamente cerca de 50% das pessoas num raio de 3,2 km, causadas por incêndios, exposição intensa à radiação e outros ferimentos fatais. A grande maioria dos edifícios num raio de 800 metros da detonação seria derrubada ou fortemente danificada. O Governo americano aconselhou que qualquer pessoa que tenha aviso prévio – seja por comunicações oficiais ou por verem um flash de uma detonação próxima – deve rapidamente procurar uma cave ou ir para o centro de um grande edifício e permaneça lá por menos 24 horas.
A ajuda para os sobreviventes seria um desafio logístico sem memória, também devido aos altos níveis de radiação após uma detonação. Os sobreviventes estariam carregados de poeiras radioativas e precisariam de ser descontaminados. A maioria sofreria queimaduras térmicas com a explosão inicial. A morte também pode chegar através de tempestades de fogo, dependendo do terreno da zona da explosão, que pode criar incêndios que podem mesmo combinar e criar o seu próprio vento autoalimentado – um fenómenos visto em Hiroshima, numa área de 11,4 km quadrados.
Após a detonação, segue-se a precipitação radioativa. A radiação é a consequência secundária e muito mais insidiosa de uma explosão nuclear. As bombas de fissão lançadas no Japão criaram precipitação local – as armas termonucleares modernas explodem material radioativo na estratosfera, o que criaria uma precipitação global. O nível de precipitação depende se a bomba é detonada acima do solo, o que pioraria a precipitação global, ou no solo, que limita o impacto global mas é devastador para a área imediata.
O risco de precipitação é mais grave nas 48 horas após a explosão – uma área exposta a 1.000 roentgens (unidade de radiação ionizante) por hora vai experimentar cerca de 10 roentgens por hora de radiação – cerca de metade das pessoas que experimentarem uma dose total de radiação de cerca de 350 roentgens durante alguns dias provavelmente irão morrer de envenenamento por radiação aguda. Os sobreviventes expostos à precipitação estão em alto risco de cancro durante o resto das suas vidas. No Japão, os hospitais de Hiroshima e Nagasaki trataram mais de 10 mil sobreviventes oficialmente reconhecidos das explosões de 1945, com a maioria das mortes atribuídas ao cancro. As taxas de leucemia em vítimas expostas à radiação foram entre quatro e cinco vezes os níveis típicos nos primeiros 10 e 15 anos após a explosão.
A radioatividade e a precipitação teriam sérios efeitos ambientais e de saúde. Dependendo do tamanho de um conflito nuclear, as explosões podem até afetar o clima. Na Ucrânia, que produz 10% do trigo do mundo, a precipitação pode cair em terras agrícolas. Se for absorvida, pode causar problemas de longo prazo, sobretudo com o iodo radioativo.
As cinzas injetadas na atmosfera durante uma guerra nuclear podem ter um sério efeito no arrefecimento climático se forem lançadas bombas suficientes. Embora uma ou duas explosões nucleares não tenham efeitos globais, a detonação de apenas 100 armas iguais à lançada em Hiroshima reduziria as temperaturas globais para abaixo daquelas registadas entre 1300 e 1850, considerada uma ‘Pequena Idade do Gelo’. O impacto hoje seria uma mudança climática repentina e selvagem: as temperaturas nesse período caíram até 2 graus Celsius. Um frio repentino como esse hoje pode afetar a agricultura e o abastecimento de alimentos – convém recordar que nesse período houve períodos de fome numa época em que a população global era menos de um sétimo da atual.







