A cidade turística brasileira de Atafona passou de um destino de férias para uma paisagem apocalítica devido ao aumento do nível do mar. Nesta pequena vila ao norte do Rio de Janeiro, o oceano estende-se em média seis metros por ano, o que deixou as habitações da aldeia vulneráveis à erosão extrema, agravada pelas mudanças climáticas. Mais de 500 casas já foram inundadas pelo mar, o que transformou a outrora bela costa num cemitério subaquático de prédios em ruínas.
A aldeia de Atafona, que chegou a ter 6 mil habitantes, é há muito atormentada por uma severa erosão – 4% das costas do mundo perdem cinco ou mais metros a cada ano e o caso de Atafona não é exceção. De acordo com Eduardo Bulhões, geólogo da Universidade Federal Fluminense, o problema está a ser agravado pela subida do nível do mar, pelas correntes e padrões climáticos mais intensos causados pelo aquecimento global. Mas não só.
“O uso que foi feito pelo homem ao longo dos últimos 40 anos no rio Paraíba do Sul [um dos principais do sudeste do Brasil] reduziu drasticamente o volume das suas águas e a capacidade da água de transportar areias para a foz do rio” em Atafona, explicou Bulhões.
A mineração, a agricultura e outras atividades que drenam o rio Paraíba do Sul a montante, que tem a sua foz em Atafona, fez o rio encolher. Segundo o especialista, o volume do rio foi drasticamente reduzido nos últimos 40 anos, o que significou menos areia transportada para Atafona. Ou seja, as praias da cidade deixaram de se renovar naturalmente por causa da falta de areia e quem ganhou com isso foi o mar. A destruição das dunas e da vegetação, as defesas naturais das praias, só agravou o problema.
A construção de barragens no rio Paraíba do Sul, assim como a devastação das matas ciliares ao longo do seu curso, também ajudam a explicar o fenómeno – o caudal diminui e o leito fica assoreado, fazendo com que o rio não consiga vencer o mar, que avança com cada vez mais força sobre a foz.
De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, 295 mil novos deslocamentos provocados por causas ambientais foram registados no Brasil em 2019. No mundo, o número supera o de deslocamentos por conflitos internos. Só em Atafona crê-se já terem sido obrigadas a deslocar-se 2 mil pessoas.



