O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos tem usado uma ‘arma’ para a deteção da Covid-19: as águas residuais. Durante mais de um ano, Alexandria Boehm, professora de engenharia civil da Universidade de Stanford, e a sua equipa de 45 pessoas da ‘Sewer Coronavirus Alert Network (SCAN), recolhem e testam amostras diárias de lodo de plantas de processamento de águas residuais no norte da Califórnia à procura de fragmentos do novo coronavírus.
A epidemiologia baseada em águas residuais provou ser tão confiável em dezenas de projetos-piloto nos EUA que o Governo investiu milhões para criar o Sistema Nacional de Vigilância de Águas Residuais (NWSS), uma rede de 400 locais de teste espalhados por 19 estados que é coordenado pelo CDC, que se prepara para publicar dados sobre a presença do coronavírus nas águas residuais dos Estados Unidos – os testes realizados demonstram que houve uma diminuição na quantidade do vírus em dois terços dos 400 locais.
O material genético do SARS-CoV-2 é expelido pelo corpo humano para o fluxo de águas residuais, onde pode ser medido pelos mesmos testes usados em laboratórios para detetar o vírus em zaragatoas nasais – testes de reação em cadeia da polimerase em tempo real, ou PCR, um teste altamente sensível. Pode detetar a presença do vírus quando apenas uma pessoa em cada 100 mil, numa determinada área ou esgoto, está infetada.
Como o teste de águas residuais não depende das pessoas perceberem que estão doentes, acaba por ser o primeiro aviso que uma comunidade tem de que uma onda de infeções pela Covid-19 está a caminho. O CDC estimou que demora entre 5 e 7 dias após a descarga para obter os dados de águas residuais no seu ‘Covid Tracker’ – as amostras tornam-se positivas numa área entre 4 e 6 dias antes de os casos clínicos surgirem.
“Enquanto as pessoas estiverem a usar instalações sanitárias ligadas a um esgoto, podemos obter informações sobre os casos naquela comunidade”, explicou Amy Kirby, microbiologista do CDC responsável pelo projeto NWSS. O investimento do Governo tornou um ramo pouco conhecido da saúde pública para o ‘mainstream’. “Fazemos monitorização de águas residuais para outros patógenos antes, como o poliovírus, mas na verdade a quantidade de pessoas envolvidas em tudo aumentou exponencialmente”, garantiu Colleen Naughton, engenheira civil da Universidade da Califórnia.
A velocidade é essencial para tornar os testes de águas residuais úteis. A SCAN – uma parceria entre Stanford, Emory University e University of Michigan – trabalhou longas horas para mudar o sistema de monitorização para um novo teste. O processo alavancou e o que começou como um fio de amostras positivas rapidamente tornou-se um fluxo constante. A 16 de dezembro último, por exemplo, o Departamento de Saúde do Condado de Santa Clara, nos Estados Unidos, organizou uma conferência de imprensa para alertar o público com base, em grande parte, no que estavam a ver nos dados de águas residuais. “Era um dilúvio de Ómicron, um dos momentos mais desafiadores que tivemos na pandemia”, reconheceu Sara Cody, diretora de saúde pública no condado.
Até ao final do ano, o CDC planeia expandir o número de patógenos rastreados no painel para incluir influenza, uma superbactéria fúngica chamada ‘Candida auris’ e ameaças de origem alimentar como ‘E. coli’ e ‘salmonela’.



