Conflito Rússia/Ucrânia: Como começam as guerras e quando é que é demasiado tarde para impedi-las

A história mostra que, ao longo dos séculos, todos os tipos de pretextos têm sido utilizados para desencadear conflitos

Executive Digest

“Começar uma guerra é um trabalho de muito prestígio com uma longa e gloriosa tradição”. A frase é de uma personagem de ficção – foi proferida por Vizzini, o implacável espião siciliano do clássico de Rob Reiner The Princess Bride – mas, como se lê na curiosa análise publicada no El País, bem que podia ser verdade. Afinal, sublinha-se, aplica-se na perfeição ao risco real de um ataque a um país soberano, como é o caso da Ucrânia, por uma potência militar, diga-se Rússia.

Das várias lições que se podem retirar da história, marcada pelas mais diversas guerras ao longo dos tempos, a que mais sobressai é exatamente que já todo o tipo de pretextos serviram para começar uma guerra. E também que as consequências de um conflito são sempre impossíveis de controlar.

Veja-se o que aconteceu em Tróia, como conta Margaret MacMillan, professora e historiadora canadiana, que dedica um capítulo do seu último livro (“War”) às razões utilizadas ao longo da história para justificar guerras e invasões. Ali, sublinha, tudo começou porque “um homem roubou a mulher de outro homem”. Mas, por exemplo, o ataque dos EUA a Espanha, no final do século XIX, começou alegadamente devido ao afundamento do navio americano Maine, na baía de Havana.

Neste último caso, a explicação mais aceite hoje aponta para um acidente, provavelmente um incêndio nos depósitos de carvão ou munições. No entanto, a versão que ganhou popularidade na altura, e que foi amplamente difundida na imprensa americana, foi que houve “causas externas” – provavelmente uma bomba, atirada por outros, claro, servindo assim pretensões antigas dos EUA sobre Espanha.

E assim, como assinala MacMillan, se explica que nenhuma guerra começa do nada. Mesmo que as causas pareçam “absurdas ou incoerentes”, o que observamos, insiste, é que “escondidas, muitas vezes existem outras disputas e pretensões mais profundas”. Basta depois, como tão bem sabemos, “uma faísca para incendiar uma enorme pilha de madeira”.

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Quando é que é demasiado tarde?
Agora, a pergunta que se impõe é “quando é que é demasiado tarde para impedir o início de uma guerra?”. Num outro artigo sobre a crise que agora se vive na Ucrânia, a revista britânica The Economist recorda ainda a opinião de outro historiador – A.J.P Taylor – sobre o momento determinante que desencadou a I Guerra Mundial. “Tornou-se inevitável quando as ordens de mobilização foram emitidas em Berlim”, disse Taylor, depois de recordar que “a complexidade dos horários ferroviários” na época, e dos quais dependiam então os movimentos das tropas, “tornava praticamente impossível qualquer alteração”.

É um pouco por tudo isto, assinala ainda o El País, que poucos acreditam que haja algum retrocesso na intenção russa de tentar tomar o poder na vizinha Ucrânia, sobretudo dada a crescente desinformação nos media locais e, claro, as ambiciosas exigências de Putin ao Ocidente. Para explicar isto um pouco melhor, o diário espanhol faz ainda o exercício de nos levar de novo a outro momento marcante. Foi em 2003 que, a reboque da administração de George W. Bush, a a América convenceu boa parte do mundo ocidental de uma série de dados que acabariam por se verificar serem mentira – e assim justificar uma invasão do Iraque.

Era um conjunto crescente de “provas”, apregoou-se, que justificavam plenamente uma invasão do Iraque, então liderada por um antigo aliado americano – Saddam Hussein – contra quem se começou a preparar o processo de acusação poucos dias depois dos ataques de 11 de Setembro. Havia no Iraque, assegurou Bush aos parceiros europeus, um gigante arsenal escondido de armas nucleares.
Estas nunca foram encontradas. Mas para a história ficou uma guerra que se prolongou entre 2003 e 2011 – e a foto dos aliados que alinharam na justificação oficial: o presidente americano Bush, ao lado do primeiro-ministro britânico Tony Blair, do espanhol José Maria Aznar e do português Durão Barroso.

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