“É ofensiva a atitude de menosprezar a nossa capacidade”. Farmacêuticos querem ser incluídos na administração de vacinas contra a Covid-19

Em entrevista à Multinews, Franklim Marques, presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos, falou sobre esta questão, aliada também ao papel cada vez mais importante desta classe trabalhadora, na luta contra a pandemia.

Simone Silva

Os farmacêuticos consideram que deveriam ser incluídos no processo de administração de vacinas contra a COVID-19, ajudando os outros profissionais de saúde que estão nos centros de vacinação.

Em entrevista à Multinews, Franklim Marques, presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos, falou sobre esta questão, aliada também ao papel cada vez mais importante desta classe trabalhadora, na luta contra a pandemia de COVID-19.

“Claramente o que ainda falta e que se refere desde o início da pandemia é a participação das Farmácias na vacinação”, refere o responsável que é também Professor Associado no Departamento de Bioquímica da FFUP e Diretor do Laboratório de Análises Clínicas da mesma Faculdade.

Para o especialista, “talvez as “task forces” tivessem a vida facilitada se contassem com mais 2000 postos de vacinação distribuídos pelo país inteiro, deixando de ser necessário, muitas vezes, organizar o transporte das pessoas para se irem vacinar à sede do Concelho, com todos os constrangimentos e custos que isso representa”.

“É ofensiva a atitude que se mantém de menosprezar a capacidade dos farmacêuticos para a administração (das vacinas). As provas estão dadas em muitas situações, desde a vacinação sazonal contra a gripe, como pela administração de outras vacinas fora do Plano Nacional de Vacinação (PNV)”, sublinha.

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Trabalho não é valorizado

Franklim Marques destaca o papel “muito relevante” dos farmacêuticos no âmbito da Pandemia. “Começou por disponibilizar medicamentos, informações e aconselhamentos em múltiplas patologias numa altura em que todos os serviços de saúde fecharam para se dedicar em exclusivo à COVID-19”, sublinha.

“Nas Farmácias Comunitárias, com riscos de infeção muito significativos para os seus profissionais, pelos múltiplos contactos inerentes à atividade, nunca se colocou a hipótese de “teletrabalho”. Todas as Farmácias se mantiveram abertas em apoio dos doentes, COVID-19 e não COVID-19, apenas com algum tempo (pouco) com atendimentos pelo postigo”, refere.

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Já quanto à testagem, “são as farmácias que respondem melhor às situações de emergência para testes, sejam elas necessidades reais de testagem, sejam necessidades subjetivas decorrentes do medo da COVID-19 instalado na comunidade”, aponta.

No entanto, o trabalho desenvolvido não é devidamente valorizado. “Para responder à testagem terão de ser retirados profissionais dos outros serviços da Farmácia ou haver uma compensação em termos de horas extraordinárias”, explica.

“O tempo ocupado para fazer a testagem, que inclui a realização propriamente dita do teste, a sua notificação ao SINAVE e o reporte dos resultados ao utente é tal que a remuneração de 15 euros por teste não compensa. As Farmácias que o estão a fazer estão, uma vez mais, a produzir um serviço para o qual não são devidamente remuneradas”, critica.

Farmácias “obrigadas” a vender medicamentos sem receita  

O especialista falou ainda sobre a pressão que se faz sentir nas urgências hospitalares e que influencia também as farmácias. “Na falta dos serviços de saúde funcionais, os doentes recorrem à Farmácia para apoio nas mais diversas situações, que vão desde a COVID-19 a outras patologias”, indica.

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“Na falta de resposta do SNS, é às farmácias e aos farmacêuticos que as pessoas recorrem para receber informação relevante e tomar as suas decisões”, refere sublinhando que “as patologias não COVID-19 são deixadas para trás” e “os medicamentos de uso crónico têm de ser dispensados sem receita médica, ao arrepio das regras oficiais, sob pena de os doentes interromperem essas terapêuticas”.

Para o responsável, “é altura de os poderes públicos assumirem a capacidade dos Farmacêuticos para renovar as terapêuticas continuadas, aliviando a pressão sobre os serviços de saúde e melhorando o acesso dos doentes aos medicamentos que precisam”, defende.

“Farmacêuticos são a definição inequívoca de resiliência”

Como solução para que as pessoas não sobrecarreguem os hospitais, com casos que para os serviços de saúde não são tão urgentes, Franklim Marques sugere a viabilização do Acompanhamento Farmacoterapêutico nas Farmácias Comunitárias. “O Farmacêutico aborda globalmente o doente e saberá conversar para, em conjunto, adotarem as medidas e práticas mais adequadas à situação”, refere.

“Deixa de ser necessário recorrer a outros profissionais de saúde na grande maioria das vezes em que situações designadas de falsas urgências ocorram. É necessário e urgente que o Acompanhamento Farmacoterapêutico seja reconhecido pelos poderes públicos como uma mais-valia para a Saúde e Bem Estar dos cidadãos e que seja devidamente remunerado pelo Estado”, considera.

Para o responsável, “a melhor forma de lidar com as falsas urgências passa também pelo aumento da literacia em saúde da população”, afirma adiantando que “também aqui os farmacêuticos podem ter um papel muito relevante, se para isso forem reconhecidos e devidamente remunerados”.

Assim, pede-se que “passem a tirar partido das Farmácias que têm profissionais de saúde técnica e cientificamente muito bem preparados” e “que estão distribuídas por todo o país e não fecham quando se anuncia uma nova variante e, por conseguinte, uma nova onda de COVID-19”, defende. “Pensando bem, os farmacêuticos são a definição inequívoca de resiliência”, conclui.

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