Alguns afegãos atingiram um ponto de desespero que colocam o próprio rim à venda para poder colocar comida na mesa, de acordo com um artigo da revista ‘Insider’. Através das redes sociais ou whatsapp, são dezenas as partilhas de fotos que dizem “rins à venda”, que podem valer cerca de 47 dólares – o suficiente para alimentar uma família durante três semanas. A alternativa passa, por vezes, em doar sangue a uma taxa muito acima da que é considerada saudável ou segura.
Em diversas ruas de cidades do Afeganistão, televisores, frigoríficos e tapetes, entre outros utensílios domésticos, encontram-se à venda. “A vida tornou-se neste desafio diário”, apontou Jahish Sahar Samir, um dos autores de um dos anúncios de rins, que revelou que tendo sido cada vez mais difícil encontrar dinheiro para alimentar a sua família. “Os custos continuam a acumular-se. Comida, renda e encontrar maneiras de manter aquecimento durante o inverno… é demais.” Um pouco por todo o país, os afegãos temem a fome.
Com a chegada do inverno, a ONU garantiu que quase 9 milhões de pessoas correm o risco de passar fome e até um milhão de crianças podem morrer de frio e fome. Em dezembro último, o Programa Alimentar Mundial informou que 98% dos afegãos não têm o suficiente para comer.
Com a chegada dos taliban ao poder, a questão número um da mente da maioria dos afegãos era a economia – meio milhão perdeu os seus empregos da noite para o dia, de acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho, enquanto a assistência internacional desapareceu.
Os bancos estão a limitar levantamentos a 400 dólares por semana devido à falta de papel-moeda, que é impresso na Europa, e os afegãos não podem recorrer a familiares ou vizinhos para empréstimos. Para os afegãos no exterior, as regras pouco claras sobre remessas e mudanças de políticas de serviços na Western Union ou MoneyGram tornaram o envio de dinheiro para casa um desafio.
“Vou todos os dias à Western Union apenas para ser recusado porque eles não podem enviar dinheiro para o Afeganistão”, confessou um jovem afegão-americano. O valor da moeda afegão caiu pelo menos 20% e os preços dos produtos básicos continua a subir. As lojas lutam para se manterem abertas e conseguirem ter os funcionários nas suas folhas de pagamentos. As Nações Unidas recentemente fizeram um pedido de 4,4 mil milhões de dólares para a situação humanitária no Afeganistão.
Embora tenha havido um comércio de órgãos no Afeganistão por uma década ou mais, geralmente era uma opção para as pessoas mais pobres e desesperadas que era em grande parte escondida da vista do público – discutida apenas em voz baixa. Agora, os afegãos que tinham algum grau de estabilidade económica até há menos de um ano também estão a pensar em tornar-se doadores.
Em 2020, pelo menos 47% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Mas a crise atual atingiu toda a população, mesmo aqueles que já tiveram empregos estáveis e renda confiável.
Há uma aldeia, Se Shanba Bazar, que ficou conhecida localmente como “a aldeia de um rim” porque muitas pessoas ali tornaram-se doadoras. Para os homens que não conseguiam encontrar trabalho na cidade vizinha de Herat – no oeste do Afeganistão – ou do outro lado da fronteira no Irão, vender um rim tornou-se uma última e desesperada opção para os homens sustentarem as suas famílias, ganhando mais de 3 mil dólares. Desde 2016, pelo menos 200 rins foram vendidos ilegalmente todos os anos na província de Herat.
Até o ano passado, a principal causa para as pessoas venderem os seus rins era a pobreza causada pela guerra de 20 anos. Hoje, a principal causa tem sido as crises ‘gémeas’ de desemprego e acesso ao dinheiro que surgiram desde a tomada dos taliban. Uma diferença? As mulheres estão a apresentar-se também como doadoras.




