Conta anónima no Twitter traduz propaganda chinesa sobre a guerra na Ucrânia e desencadeia uma tempestade internacional

O ‘The Great Translation Movement’ tem também atraído um tipo diferente de atenção – como as críticas ao establishment chinês. Os medias estatais têm considerado os tweets como uma “campanha difamatória” contra os chineses

Francisco Laranjeira

A internet ‘contra-ataca’: nas redes sociais chineses há milhares de posts e comentários que encontram um grande público recetivo na ciberesfera altamente regulamentada na China mas incompreensíveis para os utilizadores ocidentais que não falam o idioma e não podem entrar nos serviços de internet chineses. Assim, diversos utilizadores do Twitter oferecem uma solução: um movimento, conhecido como o ‘The Great Translation Movement’, tem vindo a traduzir posts das redes sociais chinesas para inglês, japonês, coreano, francês e árabe. Há três semanas que arrancou o projeto e conta já com cerca de 300 posts e mais de 60 mil seguidores.

O ‘The Great Translation Movement’ tem também atraído um tipo diferente de atenção – como as críticas ao establishment chinês. Os medias estatais têm considerado os tweets como uma “campanha difamatória” contra os chineses já que a maioria dos posts destaca informações imprecisas ou simpatias russas pela China. “Que tipo de pessoas está por trás do o ‘The Great Translation Movement’? Por que eles veem apenas ódio e mensagens negativas da internet chinesa nos seus olhos?”, perguntou o jornal estatal chinês ‘Global Times’ na última semana.

Em resposta, os proprietários anónimos da conta disseram que escolheram publicar os posts ou os comentários mais populares ou virais para “transmitir os pensamentos das massas chinesas com a maior precisão possível”. A rápida ascensão do The ‘Great Translation Movement’ é um indicativo do apetite ocidental para entender os preconceitos da China através da lente acessível dos posts nas redes sociais – especialistas alertaram, no entanto, contra a confiança excessiva no sentimento online para indicar o que uma população de 1,4 mil milhões de pessoas pensam. “Temos uma lacuna de informações entre a China e o Ocidente, e poucos utilizadores ocidentais são capazes de mergulhar no Weibo e entender os sentimentos expressões online chinesas”, apontou Maria Repnikova, professora assistente da Georgia State University.

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Os operadores por trás do ‘The Great Translation Movement’ recusaram-se a fornecer as suas identidades. “Estamos a operar de uma forma completamente anónima, onde ninguém pede informações pessoais uns aos outros. O nosso melhor palpite é de que a maioria de nós é etnicamente chinesa”, apontaram, ao jornal ‘Insider’, que garantiram que são um “denunciante para o resto do mundo” sobre as intenções da China.

Através do contributo de seguidores, os voluntários recolhem capturas de tela ou links para posts populares em mandarim nas principais plataformas da Internet, como Weibo, Douyin (a versão chinesa do TikTok), o serviço de mensagens WeChat e Bilibili, garantiram.

A China evitou consistentemente condenar publicamente a Rússia pela sua invasão. “A maioria das pessoas na China, ao contrário do mundo livre, tem acesso muito limitado à informação devido ao ‘Grande Firewall’ e à censura pesada”, que então transforma todo o país numa câmara de eco”, disseram os moderadores do ‘The Great Translation Movement’.

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