Risco de morrer aumentou em Portugal e não é só pelo envelhecimento: morreram mais 6100 pessoas do que era esperado em 2022

Mais de 6.100 óbitos em excesso foram identificados em 2022 pelo Instituto Ricardo Jorge, que registou quatro picos de excesso de mortalidade, coincidentes com duas ondas de covid-19 e períodos de temperaturas elevadas ou frio extremo.

Executive Digest com Lusa

Mais de 6.100 óbitos em excesso foram identificados em 2022 pelo Instituto Ricardo Jorge, que registou quatro picos de excesso de mortalidade, coincidentes com duas ondas de covid-19 e períodos de temperaturas elevadas ou frio extremo.

O relatório de Monitorização da Mortalidade de 2022, elaborado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e hoje divulgado, abrangeu o período entre 03 de janeiro de 2022 e 01 de janeiro deste ano e registou um total de 124.602 óbitos em Portugal. Pelo terceiro ano consecutivo foi ultrapassada a barreira das 124.000 mortes.



O estudo o INSA aponta para 6.135 óbitos em excesso, com quatro períodos de excesso de mortalidade, sendo que aquele que maior numero de mortes em excesso registou (2.401) coincidiu com períodos de calor extremo, identificados pelo sistema de vigilância ÍCARO.

Os períodos de óbitos em excesso identificados pelo INSA ocorreram entre 17 de janeiro e 06 de fevereiro; de 23 de maio a 19 de junho; de 04 de julho a 07 de agosto e entre 28 de novembro e 18 de dezembro.

No primeiro caso (17 janeiro a de 06 fevereiro), o INSA aponta para 891 óbitos em excesso (+12% em relação ao esperado), temporalmente coincidentes com uma onda de covid-19 e um período de temperaturas baixas, identificado pelo sistema de vigilância FRIESA como “período de frio extremo com efeito provável na mortalidade”.

O segundo período de excesso de mortalidade foi identificado entre 23 de maio e 19 de junho, com mais 1.744 mortes do que era esperado (+21%) e temporalmente é coincidente com uma vaga de covid-19 e um período de temperaturas “anormalmente elevadas para a época do ano”.

Entre 04 de julho e 07 de agosto foi registado o maior dos picos de excesso de mortalidade do ano passado, com mais 2.401 óbitos do que era esperado (25% de excesso). Neste caso, o INSA refere que coincidiu com períodos de calor extremo identificados pelo sistema de vigilância ÍCARO.

O último dos quatro períodos de excesso de mortalidade foi identificado entre 28 de novembro e 18 de dezembro, com 1.099 óbitos a mais do que seria esperado para esta época do ano (15 % de excesso) e coincidiu com o período epidémico da gripe, que no outono-inverno de 2022/23 “ocorreu mais precocemente do que nos anos anteriores”, refere o documento.

Os especialistas do INSA sublinham ainda que os impactos devido à gripe e covid-19 “terão sido inferiores ao observado noutros invernos”, embora os impactos observados no verão tenham sido superiores aos observados em anos anteriores – “ainda que dentro do esperado para a magnitude e duração dos períodos de calor registados”.

O INSA refere que foram observados períodos de excesso de mortalidade em todas as regiões, embora com diferente duração e magnitude.

A região Norte foi aquela em que se identificou um maior número de semanas de excesso de mortalidade (18), distribuídas por quatro períodos.

Tendo em conta a coincidência temporal, o INSA conclui que a maioria dos períodos de excesso de mortalidade identificados quer a nível nacional, quer a nível regional, terão estado potencialmente associados a fenómenos conhecidos por poderem ter impactos na mortalidade, designadamente as epidemias de gripe e covid-19 e os períodos de calor e frio extremos.

Risco de morrer é maior do que antes da pandemia e não é só pelo envelhecimento, alerta INSA
Um estudo do Instituto Ricardo Jorge conclui que em Portugal o risco de morrer é maior agora do que antes da pandemia, o que não é apenas explicado pelo envelhecimento da população.

No Relatório de Monitorização da Mortalidade de 2022, hoje divulgado, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) diz que o aumento do risco de morrer relativamente aos anos pré-pandemia “não parece explicado pelo envelhecimento populacional, que até 2019 parecia ser o principal fator associado ao aumento da taxa bruta de mortalidade”.

Os peritos do INSA referem que, com os dados disponíveis, não é possível saber se o aumento do risco de morte é totalmente explicado por eventos como os picos de gripe, covid-19 e períodos de calor e frio extremos ou se “outros fatores associados à pandemia” poderão ter contribuído indiretamente para o aumento da mortalidade ou para potenciar o efeito dos restantes fatores.

Para responder a estas questões, o INSA diz que é necessário conhecer as causas de morte específicas durante o período da pandemia, “identificando potenciais diferenças em relação ao período pré-pandemia”, de modo a que seja possível “identificar os fatores determinantes associados às potenciais variações encontradas nas principais causas de morte”.

Os autores do relatório dizem ainda que, ao contrário do que se observava antes da pandemia, “a taxa de mortalidade padronizada aumentou a partir de 2020 e ainda não regressou aos valores pré-pandemia”.

O documento diz que foram observados períodos de excesso de mortalidade por todas as causas, “de duração e magnitude variável”, em todas as regiões de saúde, sendo que os períodos ocorridos no verão foram os que atingiram um maior número de regiões.

A região Norte foi aquela na qual se observou um maior número de semanas com excesso de mortalidade, distribuídas por quatro períodos ao longo do ano 2022.

O Alentejo, Algarve e Açores foram as regiões nas quais se observou um menor número de semanas com excesso de mortalidade, refere o INSA, que salienta que as regiões autónomas apresentam geralmente um menor número de períodos de excesso de mortalidade relativamente às regiões de Portugal Continental, “provavelmente pelo menor efeito dos fenómenos climáticos extremos”, pelo que – sublinha – “o padrão de mortalidade deste ano é distinto do habitualmente observado nas Regiões Autónomas”.

Em todas as regiões de saúde, comparando a mortalidade por todas as causas e a mortalidade por todas as causas excluindo os óbitos por covid-19, verifica-se que na primeira metade do ano vários dos períodos de excesso de mortalidade “não teriam sido identificados ao excluir a mortalidade por covid-19”, o que indica que a covid-19 terá sido um dos principais fatores a contribuir para o excesso de mortalidade até julho.

No entanto, no segundo semestre de 2022, o relatório indica que os excessos de mortalidade se mantêm, mesmo excluindo os óbitos por covid-19. Esta situação – refere o INSA – “sugere a existência de outros fatores responsáveis pelos excessos de mortalidade observados” na segunda metade do ano.

O relatório de monitorização da mortalidade, que analisou o período 03 de janeiro de 2022 e 01 de janeiro deste ano, aponta para 124.602 óbitos em Portugal (124.909, considerando o ano civil de 2022) e um excesso de 6.135 mortes.

Do total de óbitos, 42.790 foram registados na região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e 55.368 no grupo etário com 85 e mais anos de idade.

A semana do ano em que menos se morreu (1.919 óbitos) foi entre 26 de setembro e 02 de outubro. Ao contrário, aquela com valor máximo de mortos foi a de 12 a 18 de dezembro (2.919).

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