Começaram por negar qualquer envolvimento, agora estarão a tentar encontrar um responsável, um bode-expiatório, a quem apontar o dedo. Agora querem provas de envolvimento. Os responsáveis do Qatar, envolvido no escândalo de corrupção conhecido como ‘Qatargate’, em que há suspeitas de o país ter pagado subornos a figuras e ex-membros do Parlamento Europeu, para que influenciassem a tomada de decisões nas instituições da UE que afetassem o país árabe, negam que haja evidências de um esquema de corrupção.
Um porta-voz do emir do Qatar, Mohammed bin Thani, começa por explicar que, se qualquer envolvimento de um cidadão do Qatar surgir na investigação belga ao caso, relativo a subornos a eurodeputados, para melhorar a imagem internacional do país, o governo de Doha tomaria medidas de punição: “Aí sim, certamente tomaremos medidas. Como tomámos recentemente, não hesitámos em prender o ministro das Finanças. Não temos problemas, somos muito claros. Mas eles [os investigadores] têm de nos dar pelo menos uma prova, têm de a apresentar em tribunal. E não vemos qualquer prova”, diz o responsável ao Republicca.
Para já está descartada qualquer colaboração com as autoridades da Bélgica na investigação ao caso.
O oficial recusa que as autoridades Qataris temam efeitos retaliativos com base nas suspeitas, como eventual corte das importações de gás qatari por parte de países da UE, ou medidas sancionatórias relacionadas, tomadas pelo Parlamento Europeu.
“No que respeita ao gás. O nosso mercado é principalmente a Ásia, nos contratos de longo-termo: 27 anos com a China, 15 com a Índia e Japão, por exemplo. Não temos intenção de parar nenhum fornecimento. Nem fizemos isso com os Emirados Árabes Unidos, apesar do bloqueio que encetaram, porque respeitamos os nossos contratos”, garante a mesma fonte diplomática.
As autoridades qataris acreditam que a UE estaria à espera de que o gás do Qatar fosse uma solução temporária para resolver os problemas de dependência energética da Rússia, pelo menos enquanto durar a guerra com a Ucrânia. “O problema é que a Europa quer contratos curtos, de um ou dois anos. E teríamos de abandonar clientes na Ásia, e, nestas condições, não há essa possibilidade”, explica o porta-voz do Emir do Qatar, que também recusa que se tema ‘travões’ da UE aos preços do gás: “Temos uma enorme lista de espera. Temos contrato com o Reino Unido desde 2010. Com a Itália também? Sem problema”.
Fontes internas dizem que as autoridades qataris já lançaram uma investigação própria para apurar se os custos de construção de infraestruturas, de mais de 200 mil milhões de euros, não registaram episódios de subornos, lavagem de dinheiro ou fraude.
“Não sabemos nada disso [do Qatargate], mas na eventualidade de sabermos, não daríamos nenhum desconto a ninguém”, garante o porta-voz.
Nos bastidores, comenta-se que o governo do Qatar se preparar para tornar o ministro do Trabalho, setor que foi alvo de muitas críticas na imprensa internacional, devido à alegada exploração de trabalhadores migrantes e morte de milhares de pessoas nas construções dos estádios, como bode-expiatório.
Ainda, as autoridades qataris insistem que o caso é influenciado e orquestrado pelos Emirados Árabes Unidos. Desde 2017 que o Qatar diz que é alvo de uma campanha mediática difamatória criada por Abu Dhabi, com documentos e notícias falsas, com o objetivo de estreitar relações com a Europa e afastar o Qatar, país com interesses rivais, de estreitamento de parcerias com a UE.







