Os epidemiologistas tiveram o seu momento de glória com a pandemia da Covid-19. Com a guerra na Ucrânia, o ‘palco’ agora é dos geoestrategistas. Com as ameaças de Vladimir Putin a nível nuclear, importa ‘chamar’ filósofos, psicólogos e matemáticos especialistas em teoria dos jogos, que tiveram um papel importante durante a Guerra Fria.
Estará Putin a fazer ‘bluff’ quando ameaça com armas nucleares?
A teoria dos jogos permite estudar diferentes cenários conforme os incentivos, da negociação e da posição de cada um no conflito. Até ao momento, não há provas tangíveis de que a Rússia esteja a mover o seu arsenal nuclear. De acordo com o Pentágono, os benefícios militares para Putin com o uso de armas táticas seriam poucos e o custo político muito elevado. Mas podendo ser irracional, não quer dizer que esteja fora de questão. Há 2 mil armas nucleares táticas que o Kremlin controla e com as quais ameaça o Ocidente.
Há três argumentos, no entanto, que permitem algum alívio. O que Putin faz não pode ser controlado mas a resposta do Ocidente pode. Segundo o ‘New York Times’, um dos cenários de resposta do uso de armas nucleares na Ucrânia, e o menos destrutivo, seria condenar a Rússia ao ostracismo internacional como resposta – desligar a Rússia da economia mundial. Um ataque com armas nucleares dificilmente teria a aprovação da China, de modo que o isolamento russo poderia ser ainda mais expressivo do que o se verifica atualmente.
Qualquer sugestão pública de que não haveria uma resposta nuclear se a Rússia planeasse tal ataque seria contraproducente. Não é conveniente transmitir a países como o Paquistão ou Coreia do Norte que o uso de armas nucleares ficaria impune.
Outro argumento racional que inclina a balança para descartar que a Rússia seja compensada pelo uso de armas nucleares é algo tão mundano quanto o vento. E mesmo um autocrata como Putin sabe que não pode controlar os ventos – atacar uma base militar ucraniana ou uma cidade simbólica com uma arma nuclear tática não apenas causaria milhares de mortes em território ucraniano mas também o tornaria inabitável. A radiação libertada não compreenderia fronteiras, podendo atingir a Rússia, como aconteceu com o acidente de Chernobyl.
Um terceiro cenário que os especialistas apresentam para acreditar que Putin está a agitar o sabre nuclear como ‘bluff’ é que não é original. Nina Tannenwald, especialista em armas nucleares da Brown University, nos Estados Unidos, lembrou à revista ‘Scientific American’ que Putin já levantou a ameaça nuclear durante a invasão da Crimeia em 2014 e para ameaçar a Dinamarca em 2015, dissuadindo-a de ingressar na NATO. Ou seja, Putin usa a ameaça nuclear não para proteger a Rússia mas para se lembrar de que ainda é uma grande potência, mesmo que a demonstração de força na frente ucraniana esteja cada vez mais a colocar em causa.
Portanto, o uso de armas nucleares não é benéfico para a Rússia mas a ameaça de usá-las sim. O que funciona desde que Putin seja confiável, claro. Quanto mais o presidente russo insiste que não está a fazer ‘bluff’, mais diminui a eficácia da sua ameaça. A prestação na linha da frente na Ucrânia das tropas russas, mais desesperada pode ser a sua reação. E isso é o mais perigoso. Putin pode usar uma arma nuclear tática por desespero.
Num cenário racional, o ‘uso’ de armas nucleares não vai além da intimidação potencial mas a teoria dos jogos também alerta para uma situação ruinosa em que todos os ‘jogadores’ perdem.








