A conjuntura inflacionista que se vive está a levantar sérios riscos à estabilidade financeira mundial. A crise energética decorrente da infame guerra, conjugada com uma recuperação retardada da pandemia, está destinada a testar a resiliência dos mercados financeiros e representa uma ameaça ao crescimento económico.
Já é evidente que a gravidade das perturbações nos mercados das ‘commodities’ e nas cadeias de abastecimento está a criar riscos de deterioração ao pesar negativamente na estabilidade macrofinanceira, na inflação e na economia global. Desde o início do ano, as condições financeiras apertaram-se significativamente em quase todo o mundo. E condições financeiras mais restritivas ajudam a abrandar a procura, bem como a evitar um desanuviamento das expectativas de inflação (ou seja, onde a antecipação de aumentos contínuos de preços no futuro torna-se a norma) e a trazer a inflação de volta ao objetivo (abaixo dos 2%).
Deste modo, os bancos centrais vão ter de ir mais longe (e mais depressa) no ajustamento das taxas diretoras para conter a inflação, colocando as taxas dos instrumentos de política monetária acima dos níveis neutros (i.e. aqueles em que a política monetária não é acomodatícia nem restritiva e é consistente com a economia manter o pleno emprego e uma inflação estável). Consequentemente, tal mudança de política de ação – note-se que desde 2016 a taxa de juro de cedência de liquidez através de operações de ‘open market’ do BCE está em 0% – suscetível de conduzir a condições financeiras globais ainda mais restritivas e criado um cenário de estagflação.
O risco da ‘criptorização’
A resiliência do sistema financeiro global será testada através de vários canais potenciais de amplificação. Estes incluem uma maior iliquidez do mercado e tensões de financiamento com o aumento do risco sistémico, a exposição das instituições financeiras a ativos russos e ucranianos e … a aceleração da ‘criptorização’, nomeadamente dos mercados mais frágeis, com os residentes a optarem por utilizar criptomoedas em vez da moeda local.
Quanto maior forem as fragilidades dos sistemas financeiros, maior será a propensão para adotar as criptomoedas nessas geografias. Em particular a Bitcoin que é deflacionista – o seu protocolo impõe que a oferta seja limitada e a emissão não depende de política monetárias, mas sim da capacidade de ‘mineração’ dos nós da rede de blocos – e outras ‘stablecoins’ (moedas indexadas a moedas referência, como o dólar e o euro).
Por exemplo, no Vietname, os entraves às remessas dos emigrantes, devido ao controlo de capitais, tem intensificado o uso da Bitcoin. Tal como na Venezuela procuram a Bitcoin para contornarem a inflação e a forte desvalorização da sua moeda.
Mas esta eventual ‘criptorização’ mais generalizada é claramente uma ameaça à capacidade dos bancos centrais em implementar eficazmente as suas políticas monetárias, criando riscos de estabilidade financeira, por exemplo, através do financiamento e riscos de solvência decorrentes de desajustamentos monetários.
As ameaças à política fiscal poderiam também intensificar-se, dado o potencial dos ativos criptográficos para facilitar a evasão fiscal, enquanto o aumento da procura de ativos criptográficos pode também facilitar as saídas de capitais com impacto no mercado de divisas. Acresce ainda um possível impacto negativo na senhoriagem pública de moeda, ou seja, os lucros resultantes do direito de emitir moeda.
Paulo Alcarva
Professor do departamento de Economia e Gestão
Universidade Portucalense






