Negacionistas de tudo

A opinião de Maria João Guedes, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, co-coordenadora do Women on Boards – Portugal e do XLAB-Behavioural Research Lab

Executive Digest

Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, co-coordenadora do Women on Boards – Portugal e do XLAB-Behavioural Research Lab

Com o aparecimento inesperado da Covid 19, a comunidade científica uniu-se e trabalhou como nunca para encontrar uma vacina que nos permitisse encarar a vida com mais normalidade. Bateram-se recordes de parcerias, de colaborações e diversas vacinas chegaram até nós em tempo record. Mas ao menos tempo, a par da evolução da ciência, inúmeras teorias de conspiração apareceram, duvidando da eficácia das vacinas ou mesmo que a doença existe. A ciência lá foi vencendo e mostrando a evidência da eficácia da vacina e como as coisas poderiam ter sido ainda muito piores.



Muitas outras teorias existem, das mais fantasiosas às que nos fazem pensar duas vezes e nos fazem ir procurar factos que as desmistifiquem (ou comprovem). Mas o que eu não esperava ter que ouvir e lidar era com os negacionistas da desigualdade de género. Há poucos dias, no rescaldo do 8 de Março, dia internacional da mulher, assisti ao seguinte comentário “Todos falam que as mulheres ganham menos mas eu não conheço uma única mulher nessa condição. Alguém conhece?”. Pronto, conheço oficialmente o primeiro negacionista da desigualdade de género!

Bem, em primeiro lugar, que sorte ter um círculo de pessoas que compõem as suas relações que não experienciam esta desigualdade. Essa deveria ser a norma, o que todos desejamos. Mas, a realidade é bem diferente!

As desigualdades não podem ser negadas. Existem tantos modos como poderia abordar esta desigualdade, tantos índices, rankings e outra evidência que poderia mostrar. Mas decidi deixar aqui evidência pela positiva e da evolução favorável que alguns países têm registado. Em particular, Portugal!

Sem dúvida que nos últimos anos temos assistido a progressos positivos. E são desses que vou falar. Há poucos dias, foi publicado o “The Economist’s glass-ceiling index”, que faz o retrato do papel e influencia das mulheres no mundo de trabalho, olhando para as chances de terem um tratamento (des)igual no local de trabalho, em matérias não só os salários auferidos (“a tal que não existe”), mas também outras valências como a educação a nível superior, os direitos parentais ou a representação em cargos de topo nas empresas. Este índice cobre os países da OCDE , essencialmente os países mais ricos do mundo. Apesar de deixar de fora muitos países (talvez onde as assimetrias são ainda maiores), deixa-nos o retrato atual e a evolução dos números nestas matérias tão importantes. Em 2022, Portugal ocupa a 5º posição no ranking e situa-se acima da média de todos os países. Tem registado uma evolução positiva, pois em 2016 estava na 12º posição enquanto a média dos países restantes países da OECD tem-se mantido estável.  À frente de Portugal estão países como a Suécia, Islândia, Finlândia e Noruega. No fundo da tabela, aparece a Suíça, Turquia, Japão e Coreia do Sul.

Olhando para a evolução deste índice, parece-me importante destacar o papel que a Lei nº 62/2017 (vulgo Lei das quotas, mas que não é bem isso, mas deixo isso para outra ocasião). Esta Lei veio estabelecer o regime de representação equilibrada entre mulheres e homens nos órgãos de administração e de fiscalização das entidades do setor público empresarial e das empresas cotadas em bolsa. Entrou em vigor em 2018 e desde então a representação nestas empresas está, de facto, mais equilibrada.  Por exemplo, nas empresas cotadas em Bolsa, em 2003 a representação de mulheres na gestão de topo era de 3.5%, enquanto em 2021 era de 28.1%. O salto maior foi precisamente verificado no ano a seguir à entrada em vigor da Lei, onde se verificou uma subida de 5.4 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Ter deixado a correção das desigualdades à sociedade não teria tido um efeito positivo visível tão rápido.

Podemos gostar mais ou menos destes índices, mas sem dúvida que nos apraz constatar (com evidências, não com “parece que…”) que estamos num caminho de encurtar distâncias e combater estas desigualdades. E estes números dão-nos esperança de ver estas desigualdades desaparecerem. Mas as desigualdades persistem, em muitos níveis e não as podemos negar.  Negar significa que não as vamos combater. E ninguém ganha com isso e queremos que todos e todas ganhemos com isso.

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