A Administração Biden como espelho da diversidade dos Estados Unidos

Conheça alguns dos principais nomes já escolhidos pelo próximo Presidente dos Estados Unidos, cerca de um mês antes da sua tomada de posse, a 20 de janeiro.

Executive Digest

Eleito Presidente dos Estados Unidos no passado dia 3 de novembro, apesar de todas as tentativas de Donald Trump para o desacreditar e referir acusações de resultados falseados sem apresentar provas, Joe Biden afirmou que a sua Administração seria um reflexo da diversidade do país. Para lá de Kamala Harris, primeira mulher e primeira afroamericana como vice-presidente, aqui ficam os já nomeados por Biden para o seu Gabinete.

 



Antony Blinken – Secretário de Estado 

Blinken é o homem de confiança máxima de Biden e a visão que tem sobre a Europa é que deve ser encarada como parceiro preferencial dos Estados Unidos. Foi seu assessor pessoal entre 2002 e 2008, numa altura em que Biden liderava, no Senado, a Comissão de Negócios Estrangeiros. Mais tarde,  envolveu-se diretamente na campanha para as presidenciais de 2008 e, quando Biden se tornou vice-presidente de Obama, Blinken, que já desempenhara funções na Administração Clinton a partir de 1993 – trabalhou no gabinete de Política Europeia do Departamento de Estado e seguiu para o Conselho de Segurança Nacional (temáticas de política europeia e canadiana), além de ser um dos autores dos discursos do Presidente dedicados à política externa –, voltou à Casa Branca para ser conselheiro de Segurança Nacional de Biden, antes de passar para o Departamento de Estado, onde foi vice de John Kerry.

Já na campanha para as eleições de 3 de novembro, Blinken foi conselheiro para a área de política internacional do então candidato. Defensor do multilateralismo, aos 58 anos é identificado pelo New York Times como “criador de alianças globais”, até por ter experiência de vida no estrangeiro: dos 9 aos 18 anos, a sua morada foi na Europa, mais precisamente em Paris.

 

Janet Yellen – Secretária do Tesouro

Anunciada para o cargo a 23 de novembro, Yellen será a primeira mulher nestas funções e ainda a primeira pessoa a liderar as três forças económicas estatais: Tesouro, Reserva Federal (2014-2018) e o Conselho Económico da Casa Branca (1993-2001). Janet Yellen, de 74 anos, era uma das conselheiras presidenciais da candidatura de Biden.

Entre as funções da futura Secretária do Tesouro vai estar a negociação da política económica dos Estados Unidos com o senador Mitch McConnell, republicano eleito pelo Kentucky, e que vai continuar a ser o líder da maioria republicana no Senado.

O atual presidente da Fundação Obama e antigo vice-conselheiro de Segurança Nacional, Wally Adeyemo, será seu vice. 

 

Lloyd Austin – Secretário da Defesa

General de quatro estrelas na reserva desde 2016, Austin, de 67 anos, foi militar durante 41 e chegou a ser o comandante das tropas norte-americanas no Iraque, retirando-se em 2016. De acordo com as regras definidas para este género de nomeações, a sua indicação, tal como sucedeu com a de Jim Mattis, vai necessitar de uma autorização do Congresso, uma vez que Lloyd Austin está fora de funções há menos de 10 anos. O New York Times e o Politico referem que Austin foi considerado “a escolha ideal para cumprir os objetivos da Administração Biden para a Defesa”, tendo superado nomes como Michèle Flournoy e Jeh Johnson.

 

Deb Haaland – Secretária do Interior

Haaland, forte crítica do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, é vice-presidente da comissão dos Recursos Naturais da Câmara dos Representantes. Antes dirigiu o Partido Democrata no Novo México, foi administradora tribal e de uma organização que trabalhava com adultos com problemas de desenvolvimento. Aos 60 anos integra o Laguna Pueblo e, como gosta de dizer, é a residente no Novo México de uma 35.ª geração.

O cargo de secretária do Interior vai colocá-la a dirigir um Departamento que exerce uma influência forte sobre as 574 tribos reconhecidas em termos federais e muitas das terras públicas, cursos de água, vida selvagem, parques nacionais e riquezas minerais dos EUA.

A sua escolha quebra um registo de 245 anos de dirigentes não-nativos, homens na sua maioria, na direção dos assuntos dos índios americanos. O governo federal trabalhou com frequência para lhes retirar terras e, até há pouco, para os integrar na cultura dos brancos.

Filha de ex-militares, Haaland descreve-se como uma mãe solteira, que chegou a depender de senhas de alimentação. Também já disse que ainda está a pagar dívidas que contraiu para estudar e fazer o curso de Direito, no seu caso, e estudos pré-universitários, no da sua filha.

O Departamento do Interior tem um vasto raio de ação, pois a sua autoridade engloba a gestão das relações federais com as tribos, a administração de dezenas de milhões de hectares e direitos minerais detidos por conta dos nativos americanos e do Alasca, a gestão dos parques nacionais e decisões que afetam milhões de quilómetros quadrados dos EUA, incluindo as licenças das indústrias do petróleo, gás e mineração.

Gerindo um quinto do território dos EUA, o Departamento do Interior vai ter um papel fundamental no cumprimento da promessa de Biden de lutar contra as alterações climáticas, uma das suas prioridades.

 

Tom Vilsack – Secretário da Agricultura

Tom Vilsack completou 70 anos no dia 13. Fora Secretário da Agricultura durante os dois mandatos de Barack Obama como Presidente e repete as funções, agora sob a liderança de Joe Biden, de quem é próximo há décadas.

Tendo crescido em Pittsburgh, Tom Vilsack era nos anos 80 do século passado um mero advogado sem aspirações à vida pública que se mudara com a mulher para a cidade desta no Iowa. Entrou na política depois de uma tragédia (o assassínio do ‘mayor’ de Mount Pleasant, no Estado do Iowa, durante uma reunião camarária em 1986), seria eleito ‘mayor’, seguindo-se dois mandatos no Senado e a proeza de ser o primeiro elemento do Partido Democrata em 30 anos a tornar-se governador do Estado do Iowa.

 

Xavier BecerraSecretário de Saúde e Serviços Humanos

A 7 de dezembro, Biden nomeou o então procurador-geral da Califórnia, Xavier Becerra, de 62 anos. Becerra terá a tarefa de remodelar o departamento por entre a pandemia e na sequência das lutas internas no ano passado entre os nomeados de Trump e funcionários de saúde pública.

Com mais de três décadas de experiência política, Xavier Becerra esteve na primeira linha dos cerca de 100 processos que o Estado californiano levou a cabo para travar iniciativas de Donald Trump, de assuntos relativos aos imigrantes ao ambiente e saúde, além de impedir que o ocupante da Casa Branca concretizasse a eliminação do Obamacare em todos os Estados sob liderança democrata.

O agora nomeado passou quase 25 anos na Câmara dos Representantes do Congresso, acabando por substituir Kamala Harris na procuradoria-geral da Califórnia em 2017, depois de a agora vice-presidente ser eleita para o Senado. Naquela experiência longa, Becerra integrou um dos subcomités para a área da Saúde, pelo que o seu conhecimento específico sobre o campo em que vai movimentar-se, embora não seja vasto em termos de saúde pública, tem elementos que o recomendam.

De acordo com os relatos da imprensa dos Estados Unidos, a nomeação de Becerra surgiu depois de terem sido descartados nomes como os de Vivek Murthy (vai entrar na equipa da Saúde, mas com outro papel), Michelle Lujan Grisham (governadora do Novo México) ou Gina Raimondo (governadora de Rhode Island).

 

Marcia Fudge – Secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano

Fudge, de 68 anos, tem mais de três décadas de experiência política ao serviço do Estado do Ohio, desenvolvendo atividades participativas em áreas como direitos civis, trabalho, saúde, entre outros. De acordo com o New York Times, Marcia Fudge tem sido, ao longo da sua carreira política, uma voz pela defesa de maior acesso a habitação digna, educação de nível superior, cuidados médicos generalizados, Segurança Social e alimentação infantil.

Com formação superior nas áreas da Gestão e do Direito, não se trata da primeira vez que faz História, pois Fudge foi não só a primeira mulher, mas também a primeira afroamericana a conquistar o cargo de ‘mayor’ na localidade de Warrensville, no Estado do Ohio.

Em 2008 foi eleita para o Congresso. Ficou conhecida, durante a campanha de Biden, pelo seu apelo para que houvesse um “secretário negro na agricultura, assim como mais negros na política americana”, conforme lembrou a CNN.

 

Pete Buttigieg – Secretário dos Transportes

É o primeiro secretário de Estado LGBTQ+ do país. Aos 38 anos, o antigo autarca de South Bend, no Indiana, é o segundo adversário de Biden nas eleições primárias presidenciais do Partido Democrata a ser convidado para a administração, depois de Kamala Harris.

Buttigieg integra o ‘executivo histórico’ de Biden – que também é o que tem o maior número de mulheres -, uma vez que é o primeiro governante assumidamente homossexual na Casa Branca.

Biden, de 78 anos, chegou a comparar Buttigieg ao filho Beau Biden, que morreu em 2015. “Para mim é o maior elogio que posso dar a um homem ou mulher. E, tal como o Beau [Pete Buttigieg], tem a espinha dorsal como uma vareta”, disse Biden, em março, durante um evento no qual o futuro Secretário dos Transportes também participou.

“Prometo-vos que, durante a vossa vida, vão ver muito mais do Pete do que vão ver de mim”, acrescentou, na altura, o agora Presidente eleito.

Pete Buttigieg foi autarca da quarta maior cidade do Indiana entre 2012 e 2020. O democrata também foi oficial de inteligência no Afeganistão durante sete meses. A candidatura presidencial de Buttigieg foi a primeira cuja figura central era assumidamente homossexual: Pete é casado com Chasten Buttigieg desde 2018.

Várias organizações que batalham pelos direitos LGBTQ+ demonstraram imediatamente apreço pela escolha de Biden. “A nomeação de Pete é um marco histórico em várias décadas de esforços para garantir que as pessoas LGBTQ+ são representadas pelo Governo, e o seu impacto vai muito além do departamento que irá liderar”, disse a presidente do Instituto Vitória LGBTQ+, Annise Parker.

A entrada de Buttigieg no executivo “distancia” o país de “um legado problemático que barrava pessoas LGBTQ+ de cargos governamentais”, aproximando a nação “da visão do Presidente eleito de um Governo que reflete os Estados Unidos”. Entre as valências do Departamento dos Transportes está a supervisão da rede rodoviária, ferroviária e de aviação do país.

 

Jennifer Granholm – Secretária da Energia

Aos 61 anos, a antiga governadora do Estado do Michigan foi escolhida no âmbito da política verde de Biden e vai ser um apoio fulcral para a missão de John Kerry como enviado especial do Presidente para os assuntos do clima. Granholm tem sido uma voz forte na defesa de energias alternativas como caminho a seguir pelos Estados Unidos e a sua nomeação foi acolhida com satisfação pelos analistas.

 

Denis McDonough – Secretário de Assuntos dos Veteranos

Talvez esta seja uma das nomeações mais incómodas de Joe Biden. McDonough, de 51 anos, tem formação em História e Espanhol, foi professor no Belize e, mais tarde, desempenhou a sua atividade no Comité de Assuntos Externos do Senado (especialidade América Latina). Trabalhou em seguida com os senadores Tom Daschle e Ken Salazar) até que, em 2007, substituiu Mark Lippert como secretário de Barack Obama. Foi chefe de gabinete de Obama (2013-2017) e tem sido criticado porque, segundo várias associações, nunca foi veterano de guerra,  como noticiou o site intelligencer.

 

Alejandro Mayorkas – Secretário da Segurança Interna

Já desempenhou a função de secretário adjunto nesta pasta entre 2013 e 2016, na Administração Obama. De origem cubana (nasceu em Havana há 61 anos e os seus pais fugiram da revolução para Miami, sendo a mãe uma cidadã romena que escapou ao Holocausto), ganha relevo como primeiro latino a desempenhar este cargo.

Com formação em Artes e Direito, o seu percurso na política dos EUA é longo, pois começou ainda na Administração Clinton quando foi procurador adjunto na Califórnia entre 1989 e 1998. Neste último ano tornou-se o mais jovem procurador dos EUA, ganhando enorme experiência em casos complicados e controversos.

Mais tarde, com Obama como Presidente, foi diretor dos serviços de imigração entre 2009 e 2013 e, a partir deste último ano, passou a agir como secretário-adjunto de Segurança Interna, assim se mantendo até 2016. Foi fulcral o seu contributo para a política de desanuviamento com Cuba, algo que Trump alterou.

“Quando era muito novo, os EUA deram a mim e à minha família um local de refúgio. Agora, como Secretário de Segurança Interna, vou supervisionar a proteção de todos os norte-americanos e daqueles que fogem da perseguição à procura de uma vida melhor para si e para os seus”, escreveu na rede social Twitter.

 

Biden ainda não nomeou o procurador-geral (que vai dirigir a Justiça), nem os secretários para as pastas de Comércio, Trabalho e Educação.

Outros nomes que vão trabalhar com o Presidente dos EUA:

Ron Klain (Chefe de Gabinete)

O atual braço direito de Biden, e principal responsável por este período de transição na Casa Branca, foi coordenador do programa de resposta ao ébola, durante a Administração Obama, entre 2014 e 2015. Mas já fora chefe de gabinete de Al Gore na Administração Clinton, trabalhou com a procuradora-geral, Janet Reno, sendo mais tarde chefe de gabinete do próprio Biden na Administração Obama.

“A sua experiência profunda e variada, bem como a capacidade de trabalhar com pessoas de todo o espetro político, são exatamente aquilo de que preciso num chefe da equipa da Casa Branca quando enfrentamos este momento de crise e precisamos de unir o nosso país de novo”, escreveu Biden no comunicado em que anunciou o nome de Klain. Este começara por trabalhar no Supremo Tribunal (tem formação em Direito na Universidade de Harvard) e, depois, no Senado. Daqui transitou para conselheiro de Bill Clinton, seguindo-se a chefia do gabinete de Janet Reno em 1994 e o de Gore, em 1995.

 

Michael Regan (Diretor da Agência de Proteção Ambiental)

Depois do trabalho intenso desenvolvido na área do ambiente para as Administrações de Bill Clinton e George W. Bush, Regan tornou-se regulador ambiental da Carolina do Norte. Chegou à secretaria de Qualidade Ambiental deste Estado em 2017, aplicando medidas que diminuem os índices de poluição industrial, além de proporcionar planos de apoio às comunidades mais desfavorecidas e às minorias mais afetadas pela poluição. O governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, responsável pela sua nomeação, disse à agência Associated Press que Regan é “um construtor de consensos e um feroz protetor do meio ambiente”.

 

Neera Tanden (Diretora do Gabinete de Gestão e Orçamento) 

Com 50 anos e filha de imigrantes indianos, Tanden será a primeira mulher nestas funções. Formada em Direito por Yale, é um dos rostos dos conselheiros de Barack Obama para o programa de saúde genericamente conhecido como “Obamacare” que Trump procurou, em vão, desmantelar durante a sua passagem pela Casa Branca. E lidera o “think tank” Center for American Progress há 10 anos.

Mas o percurso de Neera Tanden com os Democratas é longo (tem afirmado que fez essa escolha porque foram as políticas do Partido Democrata que permitiram à mãe dispor de condições para financiar a sua educação e a do irmão, depois do divórcio do pai): era ainda estudante quando apoiou a candidatura de Michael Dukakis à presidência em 1988, seguindo-se participações nas candidaturas de Bill Clinton em 1992, Obama em 2008 e Hillary em 2016 (antes já estivera com Hillary até esta ser derrotada por Obama nas primárias).

 

Katherine Tai (Representante do Comércio)

Advogada com formação em Harvard e Yale, especializada em assuntos de comércio livre e China, Katherine Tai é, sobretudo, a chave de Biden para normalizar relações comerciais com as autoridades chinesas. Norte-americana de origem asiática, Tai é fluente em mandarim e, entre 2007 e 2014, foi um fator preponderante na defesa dos interesses dos EUA em divergências com o Império do Meio na Organização Mundial do Comércio, no contexto do United States Trade Representative (USTR). O site Politico escreveu que Tai “tem conhecimentos especializados que podem ajudar os Estados Unidos a confrontar Pequim em questões como o trabalho forçado e os direitos de propriedade intelectual, preservando simultaneamente uma relação comercial eficaz entre as duas maiores economias mundiais”.

 

Avril Haines (Diretora de Inteligência Nacional)

Pela primeira vez, a área das secretas, com perto de 20 agências, terá uma mulher na direção. Aos 51 anos e após dez a trabalhar perto de Joe Biden, a ex-número 2 da CIA, que foi também vice-conselheira da Comissão de Negócios Estrangeiros do Senado em 2007 e 2008, fase em que trabalhou com Antony Blinken, chega ao topo num campo minado. Na presidência de Obama, foi assistente do Presidente e principal adjunta do conselheiro de Segurança Nacional (rendeu Blinken, que fora para o Departamento de Estado).

Nascida em Nova Iorque, Avril Haines foi estudante de Física em Chicago e de Direito em Georgetown. Mas nem só de aptidões “normais” se faz a carteira de conhecimentos de Haines, pois também sabe pilotar aviões, geriu uma livraria e meteu mãos à obra numa oficina de automóveis.

O cargo de diretor de Inteligência Nacional surgiu na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, tendo por objetivo tornar mais eficiente a coordenação das secretas nos Estados Unidos. Os analistas consideram que Biden, ao revelar primeiro o nome da diretora da Inteligência Nacional antes da opção que fará para diretor da CIA, revela como o cargo terá importância decisiva na sua Administração.

 

Jake Sullivan (Conselheiro de Segurança Nacional)

Entre argumentos de que dispõe, há dois que tornam Jake Sullivan um discreto protagonista dos bastidores: é apontado como um dos principais negociadores nas conversações para o acordo nuclear com o Irão e terá interpretado papel de evidência nas negociações mediadas pelos EUA que levaram ao cessar-fogo de 2012 em Gaza, tendo ainda sido determinante para a nova estratégia na Ásia-Pacífico.

“O presidente eleito Biden ensinou-me o que é preciso para salvaguardar a nossa segurança nacional nos escalões mais altos do nosso governo. Agora, pediu-me para servir como seu conselheiro de Segurança Nacional. Farei tudo ao meu alcance para manter o nosso país seguro”, escreveu Sullivan na rede social Twitter assim que foi conhecida a sua nomeação.

 

Linda Thomas-Greenfield (Embaixadora nas Nações Unidas) 

“A América está de volta, a diplomacia está de volta, o multilateralismo está de volta”: foi o que afirmou Linda Thomas-Greenfield depois de ser nomeada por Biden. Tal como Blinken, representa um sinal do regresso dos Estados Unidos a uma política externa mais apaziguadora e não conflituosa como foi a abordagem da Administração Trump. Mais: ter uma afroamericana com este papel, ainda por cima uma afroamericana despedida por instruções de Trump, é uma firme afirmação de inversão do rumo isolacionista seguido nos últimos anos. Com Thomas-Greenfield, o afastamento da Organização Mundial de Saúde, a retirada do Conselho dos Direitos Humanos e os cortes de verbas impostos às Nações Unidas serão revertidos.

A CNN lembra as suas afirmações sobre a infância e juventude no Estado de Louisiana, durante a década de 60, “quando o Ku Klux Klan surgia ao fim de semana a incendiar cruzes no quintal de alguém na cidade segregada” em que vivia, mas também as dificuldades que encontrou com o racismo ao chegar à Universidade no começo dos anos 70. A sua vontade indómita impôs-se e desbravou-lhe um longo percurso no Departamento de Estado, iniciado em 1982, no qual foi diretora-geral e, mais tarde, embaixadora na Libéria. Além disso, passou por missões em países como Suíça, Paquistão, Quénia, Gâmbia, Nigéria e Jamaica, tendo ainda liderado o Departamento de Assuntos Africanos.

Saiu em 2017, depois de ter sido afastada pelo então secretário de Estado na Administração Trump, Rex Tillerson, optando por trabalhar no Grupo Albright Stonebridge como vice-presidente e responsável pelos assuntos africanos. “Os desafios que enfrentamos – uma pandemia global, a economia global, a crise global do clima, a migração em massa, a pobreza extrema e justiça social – são implacáveis e estão interligados. Mas não são insolúveis sob liderança da América”, defende.

 

Cecilia Rouse (Líder do Conselho de Consultores Económicos)

Nome muito respeitado na área da Economia, Rouse será, aos 57 anos, a primeira afroamericana a desempenhar este cargo e é a segunda reitora há mais tempo na School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton.

Doutorada em Economia pela Universidade de Harvard, Cecilia Rouse integrou, durante dois anos, o Conselho de Consultores Económicos na Administração Obama, contribuindo para que o país saísse da crise económica que assolou o mundo nessa fase. Ao recordar esses tempos numa newsletter de Princeton, contou quais tinham sido as suas prioridades: “Desenvolver políticas em várias frentes que permitissem encontrar meios para tornar mais atraente para os empregadores a contratação de trabalhadores e no sentido de que estes pudessem investir em si próprios. Para quê? Para aumentar a sua produtividade”, explicou.

Mas já muito antes, em 1998, trabalhara na área económica para a Administração Clinton.

Cecilia Rouse é casada com Ford Morrison, filho de Toni Morrison, Prémio Nobel da Literatura em 1993 e falecida no verão do ano passado.

 

John Kerry (Enviado Especial para o Clima)

John Kerry, senador eleito pelo Estado do Massachusetts e antigo candidato presidencial, vai chefiar o combate às alterações climáticas. “Vai convencer líderes globais céticos, afetados pela hostilidade do governo Trump em relação à ciência do clima, de que os Estados Unidos estão preparados para retomar o seu papel de liderança”: foram estas as palavras que Biden usou ao anunciar Kerry para o cargo de enviado especial do Presidente para os assuntos climáticos.

O ex-secretário de Estado de Obama foi o responsável pela assinatura do Acordo Climático de Paris do lado norte-americano, acordo do qual Trump anunciou a saída em 1 de junho de 2017. A sua nomeação passa uma mensagem clara de Biden quanto ao que pensa sobre o negacionismo do seu antecessor.

 

Anthony Fauci (Conselheiro Médico Principal para a covid-19)

Fauci, atual diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas, será o conselheiro médico principal de Biden contra a covid-19. Nos últimos meses foi pessoalmente atacado por Donald Trump que, no passado mês de outubro, chegou mesmo a classificar Fauci como um “desastre”, depois de este ter afirmado que “não compreendia como o Presidente tinha contraído a infeção por covid-19”.

Fauci será auxiliado por Jeff Zients. Nomeado coordenador do programa de resposta à pandemia covid-19, Zients liderou anteriormente os programas HealthCare.gov em 2013 e supervisionou o programa de eficiência de combustível “Cash for Clunkers”.

Jeff Zients terá como braço direito Natalie Quillian, uma ex-assessora de Joe Biden, experiente nos corredores da Casa Branca e do Pentágono, que esteve presente de forma discreta durante toda a Administração Obama. Outro nome a ter em conta é o de Rochelle Walensky, nomeada diretora do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

 

Susan Rice (Conselheira para a Política Interna)

A afroamericana Susan Rice, de 56 anos, “é uma das autoridades governamentais mais experientes no nosso país”, escreveu a equipa de transição de Joe Biden. Rice foi embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas e conselheira de Obama, tendo surgido rumores de que poderia ser secretária de Estado ou até mesmo vice-presidente. O próprio Biden sublinhou que se trata de um dos elementos “mais experientes” da sua Administração, mas o nome de Rice está ligado a diversas polémicas, entre as quais a da intervenção norte-americana na Líbia.

 

*Na comunicação, o próximo Presidente dos Estados Unidos só terá elementos do sexo feminino: Kate Bedingfield, Jen Psaki, Elizabeth Alexander, Ashley Etienne, Karine Jean-Pierre, Symone Sanders e Pili Tobar.

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