Microsoft: Oportunidades da transformação digital

Depois da aceleração, a transformação digital continua a fazer o seu caminho rumo à consolidação.

Executive Digest

Em matéria de Transformação Digital, a Microsoft tem sempre uma palavra a dizer. Há muito que a tecnológica americana investe em investigação nesta área, mas também no apoio às empresas no desenvolvimento e digitalização dos seus processos e metodologias. Tiago Monteiro, Entreprise Commercial Lead da Microsoft Portugal, falou com a Executive Digest sobre o estado em que Portugal se encontra na sua Transformação Digital.

Como está a evoluir o processo de Transformação Digital de empresas em Portugal?



Se em 2020 constatámos a aceleração e a transformação digitais como elementos cruciais para garantir a continuidade da economia, antevemos que em 2021 será mantida esta tendência, destacando-se a tecnologia como elemento fulcral na evolução das organizações.

Vamos continuar a assistir à adopção progressiva de soluções cloud; de tudo o que são tecnologias que permitam o “Remote everything”, no trabalho, no ensino, no customer service ou no e-commerce; a optimização e agilização dos processos através do low code; a reinvenção dos modelos de negócios através do poder dos dados; e finalmente a segurança, pela sofisticação dos ataques cibernéticos e incremento, dispersão da intensidade tecnológica (devices, sensores, transacções). Portugal não é excepção.

Na perspectiva da Microsoft, gostaria de realçar a presença e compromisso da companhia com a economia nacional e com a sociedade portuguesa, desde os anos 80. A título de exemplo, Portugal é a terceira maior operação na nossa região WE em números de colaboradores, contando com uma equipa de 1200 colaboradores e estando prevista a contratação de mais 300 pessoas até 2022, cobrindo não somente a operação local, mas sobretudo as equipas de Engenharia de Suporte Cloud de apoio global. Há muito, com particular intensidade desde 2020, assumimos a responsabilidade de capacitação das organizações e escolas, disponibilizando formações, webinars, vídeos tutoriais em português, tanto para utilizador final como para o especialista tecnológico.

A pandemia acelerou esta transformação?

Em dois meses, assistimos a um avanço tecnológico que seria expectável, em circunstâncias normais, em dois anos. O aumento exponencial no consumo de meios digitais foi explosivo, permitindo, por inerência, alcance global, eficiência nas organizações, reforços da capacidade de continuidade de negócio e, em alguns casos, a criação de novos serviços.

A primeira fase foi marcada pela reacção à emergência, de forma a respondermos rapidamente às necessidades dos clientes, aceleração de deployments, ambientes virtuais e incremento de capacidade.

Numa fase posterior, para além da utilização massiva das plataformas de produtividade e colaboração, como alternativa viável para manter o nível de desempenho operacional necessário, constatámos o surgimento de outras necessidades e prioridades associadas à segurança, agilidade e resiliência de operações, automatização de actividade e reforço das capacidade de engagement (e fullfillment) com os clientes finais, levando, neste último caso à adaptação e actualização (capacidade de tráfego/processamento, UX, catálogo, funcionalidades, meios de pagamento) das plataformas de e-commerce.

Quais as questões mais prioritárias em Portugal, hoje, em matéria de Transformação Digital?

Os maiores desafios que vemos neste momento para a digitalização das empresas são, sobretudo, a ausência de sentido de urgência na adopção de tecnologias (formação, intensidade tecnológica) e falta de investimento na capacitação digital dos colaboradores. É perfeitamente natural que ainda exista este tipo de lacunas, uma vez não eram temas prioritários para muitas organizações, mas que passaram a ser pelas razões óbvias.

Nesta fase de transformação, as organizações devem construir a sua própria resiliência e recursos digitais através da tecnologia, de forma a garantir uma recuperação célere e com outras bases de sustentabilidade. Este último ponto é particularmente importante, sendo crucial aproveitar o momento actual para avaliarem, repensarem e reimaginarem as suas estratégias de negócio, até os próprios produtos e serviços, considerando o peso da globalização, do digital, dos activos intangíveis na economia e nos mercados (patentes).

Como têm vindo a apoiar a Administração Pública (AP) desde o início da pandemia?

Para além da disponibilidade e acesso massivo às nossas plataformas de colaboração, numa fase inicial da pandemia utilizámos dados (AI, Big data) para ajudar as autoridades de saúde pública a tomar decisões informadas e eficazes, bem como serviços remotos para operações de telesaúde, respondendo de forma imediata e segura aos desafios que se impunham.

A pandemia veio trazer inúmeros desafios na relação entre a AP, os cidadãos e as empresas, ao seu funcionamento interno, ao usufruto de serviços públicos e à criação de valor acrescentado, exigindo por essa via uma AP mais ágil, próxima e eficiente como plataforma de recuperação, e em vários domínios: qualidade; abrangência e resiliência na prestação de serviços; redução da carga administrativa para as empresas e investidores; optimização da gestão eficiente dos recursos e libertação de recursos para a promoção do investimento; e prossecução das transições, tanto climática como digital.

Nesse âmbito, em Novembro de 2020, estabelecemos com o Governo Português um Memorando de Entendimento intitulado “Parceria Estratégica para o Sector Digital” e emanado num espírito de compromisso com o futuro, onde nos vinculamos ao objectivo de acelerar a recuperação económica. Este compromisso passa por reforçar a colaboração e apoio na sua transformação digital, nas mais variadas áreas, desde o reforço das competências dos trabalhadores da AP à melhoria do serviço público que é prestado ao cidadão.

O que falta para massificar a cloud em Portugal?

Claramente que a cloud não está massificada em Portugal, não somente em termos absolutos, mas também relativos, quando comparamos com outros mercados europeus. Segundo a IDC, o mercado total endereçável em Portugal em tecnologias de Informação é aproximadamente de 2,5 mil milhões de euros, dos quais 15% corresponderam a serviços cloud nas suas distintas vertentes (IaaS/PaaS/SaaS), destancado-se o peso significativo das soluções de produtividade, em modelo Software as a Service.

Na parte relativa às infra-estruturas e plataformas em cloud, o mercado é ainda pouco expressivo de forma transversal aos diferentes sectores/segmentos de empresas e AP, muito embora com muito potencial considerando o desempenho de crescimento recente, de duplo dígito e acima do crescimento do spend de IT em Portugal (>15%).

Nas grandes empresas, a penetração destes serviços está acima dos 70%, com particular destaque para o sector Financeiro e Energia, destacando-se uma evolução muito positiva no Retalho/Grande Distribuição no último ano.

Contundo, falta chegar ainda às PMEs, em concreto no segmento Industrial, Saúde, Educação e Administração Pública.

Numa altura em que se regista uma explosão do e-commerce e do acesso remoto a todo o tipo de plataformas, inclusive estatais, estamos a assistir também a uma aceleração da inteligência artificial (IA) para dar resposta a todo o tipo de necessidades inerentes a estes serviços?

De facto, as áreas de maior aplicação funcional de soluções de IA têm sido as Vendas, Marketing, Customer Service e Supply Chain, funções muito relevantes para o negócio e operação de empresas de Retalho e plataformas e-commerce.

Neste sector confluem diversas tendências e desafios que nos obrigam a reflectir o potencial de capacidades cognitivas potenciadas por IA nesse processo: (1) crescimento exponencial do e-commerce a nível global próximo dos 100%, consoante a região; (2) duplicação das taxas de retorno de merchandise em plataformas de e-commerce versus a loja física; (3) potencial de $330B em gastos de publicidade digital.

Do lado do consumidor, se no passado as expectativas passavam pelo custo, opções de escolha e conveniência, com o efeito da gratificação instantânea garantida pelas plataformas (e-commerce ou social media), ocorre mais necessidade de controlo ao longo da jornada de aquisição e de experiências mais personalizadas, através de recomendações orientadas, curadoria de catálogo, engagement contínuo e em tempo real. Do lado dos retalhistas, o objectivo central consiste em cumprir com as novas expectativas de compra, reinventando por completo a experiência através da captação imersiva, novos productos, mais insights sobre comportamentos e necessidades dos clientes, além da informação transaccional inhouse, existente na sincronização dos canais, on off/off on.

A Microsoft está envolvida também em processos de transformação profunda de sectores da indústria, como a automóvel, por exemplo. Como estamos em termos de mobilidade autónoma?

A Microsoft está comprometida em apoiar, e não competir, com os diferentes players do sector (marcas, OEM), players de mobilidade (transportadores) e infra-estruturas, no desenvolvimento de plataformas e arquitecturas que permitam desenvolver soluções/ experiências conectadas e de mobilidade para obtenção de ganhos de eficiência, sustentabilidade, segurança e de inclusão.

A mobilidade deve ser entendida como um ecossistema, e no caso da mobilidade autónoma, para além da plataforma de software dos veículos, é importante considerar a relevância das capacidades de IoT de contexto, que permitem, de forma segura, transmitir dados em ambientes complexos entre vários edge devices, como veículos, telefones e sinalizações de trânsito (suportados por cloud e 5G).

A saúde é outra indústria que conta com um envolvimento muito próximo da Microsoft. De que forma estão a inovar neste sector?

Recentemente, lançámos comercialmente a Microsoft Cloud for Healthcare, que inclui soluções específicas para o sector com funcionalidades baseadas em cloud para casos de uso de saúde virtual e de coordenação/integração entre diferentes players do sector (hospitais, seguradoras, parceiros tecnológicos), para responder às disrupções e oportunidades de transformação do sector, salvaguardando a protecção crítica das informações dados dos pacientes.

Dentro desta lógica de aposta no sector, enquadra-se a recente aquisição da empresa Nuance, uma empresa líder de software de IA com soluções certificadas em cloud, reconhecida pela sua experiência acumulada de décadas no sector da saúde, entre outros.

Que projectos a Microsoft tem desenvolvido na sustentabilidade e transição energética?

Pretendemos ser uma empresa carbono negativa, até 2030, e retirar do ambiente todo o carbono que emitimos, até 2050; além disso, queremos ajudar os nossos clientes neste percurso, através das nossas soluções e da nossa comunidade de parceiros.

Ao nível interno, temos percorrido uma jornada de sustentabilidade a diferentes níveis, não somente recorrendo à tecnologia, que corporiza essa intenção e como potencial guia para outras empresas, concretamente através de algumas iniciativas relevantes: (1) migração dos nossos workloads internos para a cloud pelo impacto nas redução das emissões e poupança energética; (2) introdução de um mecanismo de “imposto interno” sobre consumo de carbono das unidades de negócio para alinhar comportamentos e continuar financiar iniciativas, como o fornecimento eléctrico “100% Verde” das nossas operações; (3) remodelação dos nossos edifícios com novos materiais e tecnologia para reduzir o consumo eléctrico até 20%; e (4) criação de condições, em grande parte despoletadas pela pandemia, de trabalho remoto.

Externamente, destacaria duas outras áreas, nas quais os nossos parceiros têm desenvolvido soluções concretas e com resultados promissores: (1) optimização do impacto ao nível dos locais de trabalho (edifícios, espaços comuns), com recurso a soluções baseadas em IA para optimizar níveis de refrigeração e ar condicionado (Honeywell); (2) potenciando tecnologia IoT e open API para conexão de equipamentos como iluminação, climatização e manutenção preventiva, em espaços industriais e ou operações logísticas (ABB, ToolsGroup, Sight Machine).

Quais as oportunidades que o 5G vai trazer num futuro próximo?

O surgimento do 5G possibilitará experiências mais imersivas e em tempo real que exigem níveis de latências de comunicação muito reduzidos, de elevada conectividade (10x) e de densidade, podendo suportar quase um milhão de dispositivos móveis por quilómetro quadrado. O 5G é crucial para conjugar o potencial dos serviços cloud e edge computing que serão pilares ao desenvolvimento de redes móveis inteligentes, cada vez mais essenciais para o dia-a-dia dos cidadãos e das empresas.

Recentemente anunciámos a nossa intenção em habilitar estes avanços tecnológicos para os nossos clientes (operadores de telecomunicações) e comunidades de parceiros e developers, com o lançamento do Azure Edges Zones e Azure Private Edge Zones, que possibilitarão potenciar casos de uso do 5G muito concretos: (1) desenvolvimento aplicacional distribuído entre cloud, on prem e edge usando as mesmas API e ferramentas de segurança; (2) aceleração de IoT, IA e analítica em tempo real através da optimização e inovação em soluções de robótica, automação e realidade mista; (3) extensão de novas fronteiras para o desenvolvimento de software, por exemplo na área do gaming, através do grafismos de elevada densidade e operação em real time.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Executive IT”, publicado na edição de Maio (n.º 182) da Executive Digest.

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