Há um tempo para tudo…

A opinião de Manuel Lopes da Costa, Empresário.

Executive Digest

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

“Providência cautelar interposta pela Ordem dos Enfermeiros suspende provisoriamente contratação de profissionais formados no estrangeiro” (in 24.sapo.pt 17/02/21).



Vejamos se consigo entender: Portugal está a braços com, provavelmente, a maior crise sanitária dos últimos 50 anos e, a Ordem dos Enfermeiros, neste momento difícil para o país, está mais interessada em dificultar o acesso dos portugueses a melhores cuidados de saúde na defesa dos seus direitos corporativos?  Se esta providência cautelar fosse relativa às credenciais dos enfermeiros formados no estrangeiro a contratar, ou relativa à qualidade dos serviços que, por eles, poderiam ser prestados, ainda se entenderia. Mas, assim não! Isto é relativo a TODOS, oriundos seja de onde forem, portugueses ou não. Ou seja, a Ordem dos Enfermeiros põe em causa todos os sistemas de ensino de enfermagem exceto o nacional. Provavelmente, e no entender da Ordem, a anatomia de um humano alemão ou sueco é completamente diferente da do lusitano. Assim, esta mesma Ordem aceita que é preferível ter um enfermeiro estrangeiro – ainda que se exprima mal em português – desde que tenha tirado o curso em Portugal, do que ter um enfermeiro português que tenha tirado o curso de enfermagem num qualquer país da EU. Sinceramente, não se entende e não se compreende, tanto mais que,  a Alemanha, a França e o Luxemburgo enviaram para Portugal profissionais de saúde para ajudar:  “Alemanha envia 26 profissionais de Saúde para auxílio a Portugal” (in Publico 1/02/21); “Portugal recebe médicos e enfermeiros do Luxemburgo e França para apoiarem hospitais in Publico 11/02/219)… algo de que deveríamos estar todos gratos; “Ministra da Saúde agradece a ajuda da equipa de profissionais de saúde alemã (…) Foi com grande apreço que registámos ofertas de disponibilidade de vários sistemas de saúde(…)” (in @saude_pt), Mas,não:  a parte corporativista dos nossos enfermeiros sentiu-se ameaçada. Por muitas razões que tenham, não é de todo esta a altura certa para este tipo de atitudes. O que vão pensar os europeus?  Já não se trata do conhecido “nem se governam nem se deixam governar” mas é, agora, o “Não se ajudam, nem se deixam ajudar”. Esta é, no mínimo, uma atitude insensata da Ordem dos profissionais que estão entre os que mais têm dado e mais se têm sacrificado para ajudar os portugueses neste último ano. Esses profissionais não merecem que a sua Ordem venha, com este tipo de atitudes, fazer com que os portugueses possam pôr em causa a sua abnegação e espírito de missão.

Há um tempo para tudo e esta, certamente, não é a melhor altura para se começar a defesa dos interesses de cada um por oposição ao interesse coletivo.

Outro lamentável exemplo é o incitamento que a FENPROF fez recentemente: “Falta de condições para o teletrabalho leva FENPROF a propor aos professores o envio de postal eletrónico ao Ministro e ao Primeiro-Ministro” (in fenprof.pt. 11/02/2021) algo que, em nada, tende a criar um ambiente de calma e serenidade que é tão necessário nesta altura para que os alunos possam ter o máximo aproveitamento escolar possível face a todas as circunstâncias que estamos a viver. Com certeza que há muita coisa errada, que não é correto que os professores tenham que comprar material informático para poderem lecionar mas, esta não é a altura para desviar a atenção dos mesmos para estas questões reivindicativas. Esta é a altura para deixar os profissionais do ensino trabalharem concentrados em fazer o que melhor sabem fazer, ou seja, lecionar.

Há um tempo para tudo e haverá tempo para apresentar aos responsáveis da saúde e aos da educação os direitos e as compensações que, certamente, serão devidas por este esforço extraordinário que se está a pedir a estes profissionais. E sem dúvida que o país, agradecido, a seu tempo saberá compensar devidamente esse esforço.

Há um tempo para tudo e há, igualmente, um tempo para sermos coerentes e acabar com as contradições e discrepâncias. Finalmente quem nos governa apercebeu-se que não é possível estar em teletrabalho e cuidar das crianças em simultâneo. Sendo que, claramente, quem inicialmente pensou o contrário – provavelmente com o intuito de evitar abusos e “espertezas saloias” por parte de alguns trabalhadores – nunca atendeu uma vídeo-chamada   com uma criança a berrar ao lado ou, se o fez, é surdo de um ouvido. Assim, é de louvar a notícia “Pais com filhos mais novos vão poder trocar teletrabalho por apoio” (in dn.pt, 17/02/2021) dando os mesmos direitos de apoio familiar aos pais em trabalho remoto que já era dado aos pais em trabalho presencial. Ainda bem que assim é porque esta discrepância nunca devia ter existido.

Há um tempo para tudo e agora é tempo para, em conjunto, unidos, pôr mãos à obra e salvar Portugal, os portugueses a e sociedade portuguesa em geral, desta horrível pandemia e das suas consequências sanitárias, mentais e económicas, ou nas palavras da minha amiga Olga, de acabar com: “Este bicho asqueroso”.

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