Medo do «apocalipse climático» impede casais de ter filhos, aponta estudo

O número de pessoas que consideram a mudança climática nos seus planos de natalidade tende a crescer, segundo Schneider-Mayerson, à medida que os impactos do aquecimento global se tornam mais óbvios.

Simone Silva

Aqueles que se preocupam com a crise climática estão a optar por não ter filhos com medo de que os seus descendentes tenham que lutar contra um «apocalipse climático», revela o primeiro estudo académico sobre o assunto, citado pelo ‘The Guardian’.

Para o trabalho, os investigadores contaram com a participação de 600 pessoas com idades compreendidas entre os 27 e  os 45 anos, que já tinham em conta as preocupações climáticas na escolha de ter ou não filhos e descobriram que 96% se mostrou muito ou extremamente preocupado com o bem-estar dos descentes devido às alterações climáticas.

Uma mulher de 27 anos disse: «Sinto que não posso, em sã consciência, trazer uma criança a este mundo e obrigá-la a tentar sobreviver em condições que podem ser apocalípticas», revelou ao jornal britânico.

Estas opiniões tiveram por base avaliações muito pessimistas do impacto do aquecimento global no mundo, segundo os especialistas. Um dos participantes disse que este acontecimento pode ser comparado à «Primeira Guerra Mundial no seu terror absoluto».

Ter um filho também significa que essa pessoa produzirá uma vida inteira de emissões de carbono que contribuem para a emergência climática, com cerca de 60% dos entrevistados a mostrar-se muito preocupados com essa pegada de carbono.

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«Os receios sobre a pegada de carbono que implica ao ter filhos tendiam a ser abstratos», disse Matthew Schneider-Mayerson, do Yale-NUS College em Singapura, líder do estudo. «Mas os medos sobre as vidas das crianças existentes ou futuras eram realmente profundos e emocionais. Muitas vezes era doloroso analisar as respostas, muitas pessoas realmente abriram o coração», acrescentou.

O número de pessoas que consideram a mudança climática nos seus planos de natalidade tende a crescer, segundo Schneider-Mayerson, à medida que os impactos do aquecimento global se tornam mais óbvios. «Para resolver a questão, precisamos mesmo de agir imediatamente, a fim de resolver a causa principal que é a própria alteração climática», afirmou.

O estudo, publicado na revista Climatic Chang, não descobriu nenhuma diferença estatisticamente significativa entre as opiniões de mulheres e homens, embora as mulheres representassem três quartos dos entrevistados. «A mudança climática é o único fator para eu decidir não ter filhos biológicos. Não quero dar à luz filhos num mundo agonizante [embora] realmente queira ser mãe», disse uma das participantes.

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A pesquisa também descobriu que alguns daqueles que já eram pais estavam arrependidos por isso, com 6% dos pais a manifestar esse arrependimento. Uma mãe de 40 anos disse: «Lamento ter tido os meus filhos porque tenho pavor de que eles enfrentem o fim do mundo devido à mudança climática».

«Fiquei surpreso – para os pais, esta é uma declaração extremamente difícil de fazer», referiu ao ‘The Guardian’ o principal autor. Este é o primeiro estudo académico revisto por pares sobre o assunto e analisou um grande grupo de pessoas interessadas. A pesquisa foi feita de forma anónima para que as pessoas pudessem expressar-se livremente.

«É uma janela sem precedentes para a forma como [algumas pessoas] estão a pensar e a sentir sobre o que muitos consideram ser a decisão mais importante das suas vidas», disse Schneider-Mayerson.

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