Em Janeiro de 2015, Paris era abalada por uma série de ataques que se estenderam por três dias de violência. A redacção da revista satírica Charlie Hebdo foi o ponto de partida para uma onda de insegurança que terminou com um ataque a um supermercado kosher. Na base de tudo estariam motivações religiosas associadas ao islamismo.
Ao todo, 17 pessoas morreram e o debate sobre a tensão entre França e os cidadãos muçulmanos voltou a aquecer. Volvidos cinco anos, essa mesma tensão volta a dar de si hoje, estando confirmados pelo menos três ataques em França ou associados ao país, coincidindo com as celebrações do nascimento do profeta Maomé. De acordo com a agência Reuters, uma mulher terá sido decapitada.
Mas como se justifica esta nova escalada de violência? Segundo a CNN, a retórica anti-imigração tem vindo também a crescer ao longo dos últimos anos, especialmente focada nas comunidades muçulmanas em França.
Uma das raizes do problema é o facto de França ser um estado laico, que coloca a identidade nacional à frente da religião – seja ela qual for. Este amor ao laicismo evoluiu, porém, junto de algumas facções da sociedade, para um movimento activista que acaba por se transformar em xenofobia.
O presidente Emamnuel Macron tem tentado suavizar este conflito, apostando no combate a organizações radicais e ao discurso de ódio, em vez de apontar às comunidades muçulmanas como o problema.
Mais de cinco milhões de muçulmanos vivem em França e, embora a maioria não seja radical, todos são afectados de alguma forma pela legislação laica do país. Há, por exemplo, leis que determinam como as mulheres se devem vestir, fazendo com que os trajes tradicionais não possam ser usados: em 2004, os hijabs foram banidos, bem como o solidéu judeu ou grandes cruzes cristãs em escolas públicas. Em 2011, foi a vez de as burcas serem proibidas.
Na altura, o então presidente Nicolas Sarkozy afirmava que estes trajes ameaçavam o laicismo francês e que eram degradantes para as mulheres. Hoje, o discurso de Emmanuel Macron é diferente: «Devemos manter-nos juntos sem qualquer distinção porque somos, acima de tudo, cidadãos unidos pelos mesmos valores, uma história, um destino», disse o actual presidente no passado dia 16 de Outubro, citado pela CNN.
As palavras de Emmanuel Macron foram proferidas numa cerimónia de tributo a Samuel Paty, que foi decapitado nesse mesmo dia num ataque nos subúrbios de Paris. O professor tinha mostrado os cartoons controversos do Charlie Hebdo aos seus estudantes.
«Foi morto porque estava a ensinar aos alunos liberdade de expressão, liberdade de acreditarem e de não acreditarem», afirmou o presidente. França continuará, disse ainda, «a adorar debates, discussões razoáveis, ciência e as suas controvérsias». «Não iremos abdicar das caricaturas, dos desenhos, mesmo que outros estejam a recuar.»














