Regresso ao consumo: a vacina que a economia precisa

Este foi, é e continuará a ser, um processo de adaptação para todos. Teremos, no entanto, de conseguir fazê-lo e avançar, porque o mundo não pode parar.

Executive Digest

Comecemos pelo óbvio, mas que é também o retrato dos últimos meses:  O mundo mudou. Todo o mundo mudou. Uma pandemia impôs o distanciamento social e físico às nossas vidas, mudou hábitos e rotinas, fechou o comércio e obrigou-nos a mudar o comportamento em espaços comerciais. Este foi, é e continuará a ser, um processo de adaptação para todos. Teremos, no entanto, de conseguir fazê-lo e avançar, porque o mundo não pode parar.

Obviamente, os últimos meses influenciaram também as necessidades dos consumidores. Primeiro no Estado de Emergência, mais tarde no de Calamidade. E espaços comerciais que não tivessem bens de primeira necessidade foram encerrados. Por isso não é de estranhar que as lojas de proximidade e o pequeno comercio  tenham sido dos poucos setores com capacidade de crescimento nos últimos meses[Fonte: SIBS Analytics, a 31 de julho],  – tendo atingindo em  março e maio valores máximos no que respeita a pagamentos eletrónicos (3,1 e 3,2 milhões de euros, respetivamente).

Durante este período, como seria de esperar, muitos portugueses (29%) adiaram uma ou mais compras e apenas uma minoria (19%) adquiriu tudo o que tinha na lista, como concluiu o último inquérito do Observador Cetelem Consumo.

Só após mais de dois meses o comércio reabriu e no topo da lista dos consumidores surgiram compras que, durante cerca de dois meses, tiveram de ser muitas vezes feitas online. Calçado e roupa (19%), artigos para remodelação e decoração do lar (16%) e eletrodomésticos (14%) foram as prioridades listadas.  O primeiro insight que poderemos retirar desta transição é que, se é verdade que muitos portugueses se adaptaram rapidamente às compras online durante o confinamento, na reabertura mostraram-nos que a necessidade de ir a uma loja física, seja para ver, experimentar ou mesmo trocar um produto. A experiencia física é desejada por muitos e essencial para outros tantos. E se nos detivermos um pouco mais a olhar para o tipo de produtos, vemos também o papel importante que a casa adquiriu durante este período. Seja por vontade de mudar, melhorar ou de a adaptar face ao tempo que agora permanecemos nas nossas habitações.

Entretanto, e à medida que as semanas avançam, lentamente, os consumidores têm estado a reativar muitos outros projetos. Mas, mesmo após a reabertura da atividade, há quem continue reticente em retomar os níveis de consumo pré-pandemia. A grande maioria (58%) é mesmo da opinião que passará a comprar menos. E é ainda maior a percentagem daqueles que afirmam que o farão devido à incerteza económica.

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Estas mudanças parecem, de alguma forma, ter-nos também voltado para dentro, para o nacional. E isso verifica-se seja quando escolhemos Portugal enquanto principal destino de férias – e este ano são raros os portugueses que fazem férias fora do país; e quando aumenta a aposta do consumo nos produtos de origem nacional, com quase metade (49%) a afirmar que a compra destes produtos é uma prioridade e 45% a defender que é importante. Para salvar a economia e o emprego.

Mas se queremos cumprir estes objetivos teremos de o saber fazer cumprindo todos os cuidados de higiene e segurança. Porque saúde pública e economia não são opções incompatíveis, são aspetos fundamentais da vida em sociedade. Por isso, devemos saber substituir o modo sobrevivência que pautou as nossas ações nos últimos meses pelo regresso, com confiança, à vida e a todos os nossos hábitos. Agora, quando temos um período de descanso que devemos aproveitar para estar com a família e amigos; e a partir de setembro, com o regresso às aulas e aos locais de trabalho de muitos portugueses. Só assim o consumo regressará com mais força e isso poderá ser a vacina que a economia precisa.

* Pedro Camarinha, Diretor Distribuição e Novos Mercados do Cetelem 

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