O capitalismo precisa de se reformar se quer sobreviver

Porque os nossos sistemas sociais estão a falhar e as nossas economias já não estimulam um crescimento inclusivo, há novos desafios para as empresas que queiram manter-se no mercado

Executive Digest

As empresas enfrentam uma escolha existencial. Ou abraçam o “capitalismo do stakeholder” e concordam com as responsabilidades inerentes, ao tomarem medidas para satisfazer objectivos sociais e ambientais. Ou podem seguir a antiquada mentalidade de “capitalismo do accionista” que dá prioridade aos lucros a curto prazo acima de tudo.

Esta avaliação pode parecer severa mas não há alternativa. O impacto ecológico expandiu-se muito além daquilo que o nosso planeta consegue aguentar. Os nossos sistemas sociais estão a falhar. As nossas economias já não estimulam um crescimento inclusivo.



As gerações mais jovens simplesmente não aceitam que as empresas procurem lucros à custa de um bem-estar ambiental e social mais abrangente. Uma economia de mercados livres é essencial para se produzir um desenvolvimento a longo prazo e progresso social. Mas no seu formato actual, o capitalismo chegou ao limite. A não ser que se reforme de dentro para fora, não conseguirá sobreviver.

De accionistas a stakeholders

No ano passado, a Business Roundtable, organização que representa muitas das maiores empresas norte-americanas, anunciou que queria afastar-se da primazia dos accionistas e passar para um compromisso para com todos os stakeholders. Redefiniu o propósito de uma empresa para promover “uma economia que serve todos os norte- -americanos” e não só os que têm acções.

Os CEO que assinaram a declaração da Business Roundtable eram um verdadeiro “Quem é Quem” do capitalismo norte-americano. Como chairman da Business Roundtable, Jamie Dimon, CEO da JPMorgan Chase, foi o primeiro a apoiá-la. Entre os 181 signatários estavam também Alex Gorsky da Johnson & Johnson, Ginni Rometty da IBM, Mortimer J. Buckley da Vanguard, e Tricia Griffith da Progressive.

O anúncio foi acolhido com diferentes reacções. Alguns viram-no como simples manobra para diminuir a pressão de uma esquerda em ascensão. Outros descartaram- no como tendencioso. Como pode uma empresa revelar que implementou uma grande mudança, perguntaram os cépticos, se os seus relatórios trimestrais continuam a concentrar-se na maximização dos resultados financeiros? Mas esse cepticismo ignora a importância desta mudança. Desde 1997, cada conjunto anterior de princípios apoiados pela Business Roundtable colocou os accionistas em primeiro lugar. É revolucionário que o grupo tenha abandonado o princípio. É também verdade que a não ser que estas palavras sejam traduzidas em acções colectivas, a revolução será de pouca dura.

O que é uma empresa?

Portanto, o que pode ser feito para assegurar que a passagem para o capitalismo do stakeholder se torna real e duradoura? Para responder a essa questão, vale a pena olhar para trás, para o sistema económico global pós- -guerra e para o papel que empresas, governos, sociedade civil e organizações internacionais tiveram nele. Há quem pense que o capitalismo ocidental sempre colocou os accionistas em primeiro lugar. Não é verdade. O Fórum Económico Mundial foi fundado há cinco décadas em Davos para promover o “conceito multistakeholder” – modelo que ultrapassou as abordagens europeias e norte-americanas ao capitalismo. As empresas norte-americanas na era pós-guerra aperfeiçoaram a gestão empresarial e financeira, optimizando-se para o crescimento e os lucros. Tornou as empresas e os gestores norte-americanos invejáveis. Mas, os gestores europeus na altura também acertaram nalgumas coisas. Tinham reflexos sociais, evidentes num empenho profundo nos seus colaboradores, clientes e fornecedores.

As ideias do capitalismo dos stakeholders esclarecem o Manifesto Davos assinado no recém-criado Fórum Económico Mundial. A abertura do manifesto declarava que “o propósito da gestão profissional é servir clientes, accionistas, colaboradores, além de sociedades, e harmonizar os diferentes interesses dos stakeholders”.

O Manifesto Davos teve as suas raízes na recente experiência pós-guerra, mas foi também a recuperação de um arco histórico mais abrangente. As empresas sempre foram unidades sociais assim como unidades económicas. De facto, as empresas foram criadas pela primeira vez na Europa medieval como veículo independente para atingir progresso económico, mas também para criar prosperidade para a sociedade ou desenvolver instituições para o bem público, como hospitais e universidades.

Contudo, esta visão de empresa não foi abraçada universalmente. Por volta da mesma altura, o economista da Universidade de Chicago Milton Friedman revelou uma visão muito diferente. «Os negócios têm apenas uma responsabilidade social», escreveu, que é «usar os seus recursos e participar em actividades feitas para aumentar os seus lucros». O negócio dos negócios, em suma, é o negócio. Nasceu assim a ideia de primazia do accionista. Em pouco tempo, foi abraçada pela Business Roundtable e por outros líderes do sector.

Verdades inconvenientes

Nas décadas seguintes, o capitalismo dos accionistas aparentou estar acima do capitalismo dos stakeholders. As empresas norte-americanas aumentaram o seu domínio, e a primazia dos accionistas tornou-se a norma nos negócios internacionais. Possivelmente ninguém revelou melhor a atmosfera do que Gordon Gekko, a personagem de Michael Douglas no filme “Wall Street”. «A ganância, à falta de melhor termo, é boa», dizia. As suas palavras eram ficção, mas muitos no mundo empresarial e financeiro estavam de acordo com elas.

O elevado crescimento dos anos 80 e 90, e dos primeiros anos deste século, ocultaram verdades inconvenientes. Os salários nos EUA começaram a estagnar a partir do final dos anos 70, e o poder dos sindicatos diminuiu. O ambiente natural deteriorou-se à medida que a economia melhorou. E os governos começaram a ter cada vez mais dificuldade em taxar as multinacionais. Todos estes problemas deram origem à crise actual – e a única resposta viável é voltar ao capitalismo do stakeholder.

Nas quatro décadas desde 1980, a desigualdade económica em todas as suas formas aumentou. Nos EUA, particularmente, o crescimento dos rendimentos ajustado à inf lação nos últimos 90% foi quase nulo, enquanto os rendimentos dos 0,01% mais ricos aumentaram cinco vezes. A desigualdade patrimonial cresceu ainda mais. E as tendências são semelhantes, embora por vezes menos profundas, em quase todo o restante planeta. Nos anos 60, um CEO podia ganhar 20 vezes mais que os seus colaboradores. Actualmente, os CEO norte-americanos ganham em média 287 vezes mais do que o salário médio.

Ao mesmo tempo, as principais empresas mundiais tornaram-se cada vez maiores, levando a um aumento do poder do mercado e a uma mudança nas suas relações com comunidade e governos. Anteriormente, estavam profundamente envolvidas nas comunidades em que operavam, mas estas ligações foram diminuindo ao longo do tempo. E à medida que o sector financeiro cresceu cada vez mais afastado do crescimento económico real, procurou resultados a curto prazo em detrimento de sustentabilidade a longo prazo.

O resultado geral foi a deterioração da ligação entre negócios e sociedade. E os governos, perante novos desafios sociais e económicos, são frequentemente incapazes de fazer os investimentos necessários, já que não conseguem taxar as empresas.

Por fim, e talvez o mais importante, o ambiente continuou a sofrer como resultado da actividade económica estimulada só pelos lucros. Isto tem sido também uma preocupação que teve início nos anos 70. Em Davos, em 1973, Aurelio Peccei, da Club of Rome, falou dos iminentes “limites ao crescimento”. E o Manifesto Davos notou que a Festão “deve assumir o papel de administrador do universo material para as futuras gerações” e “usar os recursos imateriais e materiais à disposição de forma adequada”.

Sabemos agora que se a utilização dos recursos naturais do nosso planeta se tivesse mantido nos níveis dos anos 70, provavelmente não teríamos agora de enfrentar uma crise climática. Segundo a Global Footprint Network, 1969 foi o último ano em que o impacto ecológico da humanidade foi sustentável. Agora, em 2020, usamos o dobro dos recursos do que é sustentável.

Uma última oportunidade

Como os jovens de todo o Mundo nos têm lembrado, está na hora de rectificar o nosso erro histórico. A única forma de salvar o capitalismo é voltar ao modelo de stakeholder que descobrimos, e depois esquecemos, há décadas. Todavia, com a situação social, económica e ambiental agora várias vezes pior do que estava, precisamos de fazer mudanças que vão para lá das meras palavras. Como fazê-lo?

Para começar, as empresas e os seus accionistas devem concordar numa visão a longo prazo dos seus objectivos e desempenho, em vez de deixarem os resultados trimestrais ditar tudo. A partir daí, devem fazer compromissos mais concretos para pagarem preços, salários e impostos mais justos. E, por fim, temos de integrar métricas ambientais, sociais e estatais nos relatórios empresariais formais e nos sistemas de auditorias.

Estas medidas exigirão mudanças. Mas as alternativas serão ainda mais difíceis e potencialmente disruptivas. As empresas serão forçadas por novas gerações de colaboradores, consumidores e eleitores a mudar a forma como funcionam, quer queiram quer não. Muitas, rejeitadas por estes grupos, podem definhar lentamente. Ou os governos podem começar a ter uma mão mais pesada com novas normas, reafirmando-se como referências.

Se as empresas querem evitar estes cenários, 2020 será fundamental. No Fórum Económico Mundial, continuaremos a avançar e a defender o capitalismo dos stakeholders, com compromissos concretos para o tornar inclusivo e sustentável. Pode ser a última oportunidade para o reformar de dentro para fora.

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