Avery Bullard é um Chief Executive Officer marcante que transformou a Tredway Corp. numa empresa de mobiliário de topo. Com 56 anos, está no seu auge. Contudo, não conseguiu nomear um sucessor como braço direito. Horas antes de uma reunião com o comité executivo, faleceu com uma hemorragia cerebral.
E agora põe-se a questão: qual dos seus tenentes assumirá o seu cargo?
A resposta é: quase todos eles, e é esse o problema. Actualmente, o planeamento da sucessão é uma das grandes questões que o novo coronavírus tornou urgente nos níveis mais altos do negócio. Um dia, talvez, haverá uma aplicação para tal. Entretanto, há um livro – um conto agradável e injustamente esquecido de intriga empresarial e esforço humano. Devia ser revisto por todos os líderes de negócios.
O “Executive Suite”, de Cameron Hawley, tornou-se um best-seller quando foi publicado, em 1952, e mostra o que acontece após a morte súbita de Avery Bullard. Um filme baseado no livro foi lançado dois anos mais tarde, com um elenco de luxo que incluía William Holden e Barbara Stanwyck. Mas é uma caricatura melodramática e simplificada do original. O que é uma pena, porque há poucos livros sobre negócios melhores do que “Executive Suite”. Tal como um primatólogo que passou anos a analisar a sociedade dos bonobo, Cameron Hawley aproveitou uma acumulação rica de trabalho no terreno para criar executivos credíveis e seus respectivos conjugues em situações da vida real. Entrou para a Armstrong Cork Company em 1927, e nos 24 anos seguintes passou por cargos executivos em áreas como merchandising, análise financeira, vendas e investigação científica. Por fim, e (imaginamos) adequadamente, acabou na área da publicidade e promoção. Quem o colocou no cargo sabia certamente que escrevia para a revista “Life” e para o “Saturday Evening Post” há anos.
Cameron Hawley via a sua escrita com modéstia, insistindo (dissimuladamente, creio) que não se preocupava muito com a técnica. Um obituário num jornal em 1969 (tinha apenas 63 anos quando faleceu) citava-o como tendo Theodore Dreiser e o prolífero francês Émile Zola como influências. «Tudo o que fiz», explicou Cameron Hawley. «Foi regressar ao romance convencional com um conceito que foi interrompido. Zola começou a escrever sobre negócios – minas de carvão, sindicatos, entre outros.»
Independentemente da modéstia do autor, “Executive Suite” tem uma execução magistral. Para criar tensão, Cameron Hawley resume toda a história a um único fim-de-semana agitado usando a estrutura cronológica a que os jornalistas gostam de chamar “tiquetaque”, com indicadores de tempo na parte superior dos segmentos do livro. O ponto de vista alterna com o relógio, permitindo-nos, no final, viver dentro das mentes de um conjunto de executivos, secretárias, investidores e conjugues interessantes e variados.
Nos seus cargos na Tredway, cada um dos vice-presidentes a competir por proeminência representa um importante aspecto do negócio. Jesse Grimm é vice-presidente de produção, J. Walter Dudly, vendas. Don Walling, o mais recente a chegar à empresa, lidera o design e desenvolvimento. Frederic W. Alderson, tesoureiro, é o mais antigo e conhecido pela sua “lealdade sacrificial”. E Loren P. Shaw, o auditor, é um génio das finanças.
Todos precisam de lidar com a cultura empresarial formal dos tempos e com a concorrência brutal pelo estatuto, vantagens e respeito inerentes. «Uma máscara era essencial para o lugar de vice-presidente», observa Erica Martin, a desolada assistente de Avery Bullard e perita em disfarces. «Todos eles tinham as suas máscaras.»
O negócio pode significar fazer dinheiro. Mas também implica estatuto, e o antecessor de Avery Bullard foi derrubado pela vaidade que facilmente corrompe um líder empresarial. Orrin Tredway, o último e menos capaz membro da família a gerir a antiga Tredway Furniture Company, erigiu uma sede enorme e extravagante como um grandioso monumento a si mesmo. Reservou o 24.º andar, mesmo no topo, para servir como o seu próprio santuário, instalando três divisões forradas a madeira retirada de uma mansão britânica do séc. XVI.
“Executive Suite” sugere que um “edifício complexo” como este pode exigir um preço terrível. Neste caso, a empresa fica à beira do ruína graças ao custo astronómico do edifício. Pouco depois de estar terminado, o falido Orrin Tredway suicida-se com um tiro. É assim que a sua filha adulta, Julia Tredway Prince, que acabará por surpreender todos com a sua astúcia e força, se torna a principal accionista da empresa.
As suas acções desvalorizadas transformam- se em ouro graças a um jovem Avery Bullard. Rapidamente elevado ao 24.º andar durante a Grande Depressão, ele dá a volta ao negócio, consolidando diversas fábricas numa nova Tredway Corp. e contratando centenas de colaboradores para reviver Millburgh, a cidade costeira ficcional da Pensilvânia, baseada em Lancaster, onde o autor passou a maior parte da sua carreira.
O livro é um produto do seu tempo e lugar. A Tredway é um negócio de produção com uma força-de-trabalho sindicalizada, e os seus executivos seniores são um grupo de brancos que sempre viveram no mesmo bairro, frequentaram os mesmos clubes e viveram casamentos tradicionais. Gravatas e títulos honoríficos com fartura. A administração, constituída maioritariamente pelos vice-presidentes, é o “carimbo” de Avery Bullard. Contudo, a era, tal como o autor, reserva as suas surpresas.
Ao contrário do filme, que oculta o papel das mulheres e que apresenta coisas vulgares que Cameron Hawley lida com sensibilidade, o livro afasta-se do grupo executivo para lidar directamente, embora rapidamente, com questões como a raça e até o aborto. Talvez a maior surpresa, menos para os leitores modernos, é a visão expansiva do autor do que é preciso para gerir uma grande empresa privada e, de uma forma mais abrangente, o propósito de uma vida passada nos negócios.
Loren P. Shaw, o mais ambicioso dos vice-presidentes, vê o lucro como a única medida do sucesso. Entre os stakeholders, os únicos que importam são os accionistas. Ele argumenta que numa empresa “moderna” (em 1950), os maiores problemas que ocupam o CEO são financeiros, tornando-o o sucessor mais adequado de Avery Bullard.
Cameron Hawley sabe que os lucros são fundamentais. Contudo, no seu mundo, Loren P. Shaw exemplifica os malefícios do excesso de enfoque nas finanças. Todo o livro, na verdade, é um aviso contra a noção de se ver uma empresa apenas como uma máquina que gera retornos aos accionistas. Cameron Hawley desafia implicitamente os seus leitores: será que um líder com uma perspectiva tão limitada motiva realmente alguém? Será que consegue apoiar a criatividade, e correr o tipo de risco, que cria crescimento a longo prazo?
E será que um líder desses consegue manter a simbiose entre um negócio saudável e uma comunidade saudável? Na verdade, o homem destinado a suceder a Avery Bullard compreende profundamente quantas vidas dependem do líder da empresa. Ao olhar para a cidade, «a imaginação arrancou os telhados das casas e expôs a colmeia vibrante de actividade… o enxame trabalhador e vivo. E a centelha da vida no centro das células de todos os enxames era um cheque da Tredway… um pedaço azul de papel que se transforma em notas numa carteira… e as notas transformam-se na entrada interminável de alimentos para milhares de estômagos vorazes.»
A base de um chief executive, para Cameron Hawley, não são as competências analíticas ou sequer a visão. É um tipo de intuição, uma capacidade de se expor aos factos sem se sentir sufocado por eles. É, acima de tudo, um talento criativo, tal como a liderança é uma função executiva, e exige um acto de imaginação contínuo. Temos de imaginar as vidas dos outros e outras versões da realidade, e descobrir como ambos se podem conjugar. Temos de saber que as pessoas não se limitam a ir buscar um cheque, mas que ganham auto-respeito.
«Temos uma obrigação para com os nossos accionistas», reconhece o eventual vencedor numa comovente cena climática. «Mas é uma obrigação maior do que simplesmente pagar dividendos. Temos de manter esta empresa viva. Isso é que é importante – e uma empresa é como um homem. Nenhum homem trabalha apenas só por dinheiro. Isso não chega. A sua alma definha quando o tenta fazer – e é possível definhar uma empresa até à morte da mesma forma.»
O novo líder da Tredway merece o cargo porque compreende a importância dos números, mas não se verga àquilo a que o historiador Jerry Muller chamou de «a tirania das métricas» no seu livro com o mesmo título – um despotismo que Robert McNamara, antigo presidente da Ford Motor Company, aprenderia a lamentar ao gerir a Guerra do Vietname como ministro da Defesa dos EUA. Cameron Hawley quer que compreendamos que a condição dominante da gestão de um negócio, como na vida, é a incerteza. E isso não se resolve com uma folha de cálculo.









