Há um fosso de gerações nos negócios?

Ouvimos muitos CEO e executivos de recursos humanos a lamentar que o talento é difícil de gerir.

Executive Digest

Os líderes mais velhos parecem não compreender o que os mais jovens querem. Inúmeros artigos examinaram o fosso entre as actuais gerações. Como membros de duas gerações diferentes, quisemos explorar este problema mais a fundo.

Expectativas das gerações mais velhas



A maioria dos estudos divide as gerações nos EUA da seguinte forma: a silenciosa (nascida entre 1920 e 1945); baby boomers (1946-1964), geração X (1965-1980); millennials (1981-1996) e geração Z (a partir de 1997). Os boomers são caracterizados pela sua lealdade, disponibilidade para trabalhar e forte sentido de responsabilidade. Muitos começaram as carreiras com a ideia de trabalharem toda a vida numa empresa. Se fizessem um bom trabalho, esperavam que a empresa os recompensasse.

Nos anos 80 e 90, essas expectativas não foram satisfeitas por muitas empresas globais. Invocando a pressão competitiva, a globalização e a necessidade de mais eficiência, as empresas norte-americanas reformularam-se, passaram empregos para o estrangeiro ou encerram as suas áreas menos lucrativas. As vagas de desempregados e de pessoas a precisar de emprego novo com cerca de 50 anos era um fenómeno novo.

Os boomers foram também a geração que deu ao mundo um conjunto de protestos políticos sobre a Guerra do Vietname e outras questões. Os movimentos sociais dos anos 60 e 70 levou a expectativas de mudanças sociais e resultou no movimento dos direitos civis e dos direitos das mulheres. Contudo, mais uma vez nos anos 80 e 90, o progresso estagnou, e vimos um rápido aumento na desigualdade entre classes económicas. As expectativas dos boomers ficaram, na sua maioria, por concretizar.

Expectativas das gerações mais jovens

Graças aos avanços tecnológicos as gerações mais jovens cresceram ligadas ao mundo de novas formas. Antigamente, as únicas formas de comunicar era através de cartas ou telefone. Agora é possível falar, mandar mensagens ou e-mails para outras pessoas do mundo a partir do telemóvel no bolso e até dos seus relógios.

Para muitos destes nativos digitais ligados, o conceito de América Primeiro não tem o mesmo fascínio como tinha quando os EUA eram a única realidade a que as pessoas estavam expostas. Os mais jovens aprenderam a ajudar os mais necessitados e os menos afortunados – e esperam que os negócios aos quais entregam o seu dinheiro tenham a mesma consciência social.

Mesmo que as empresas não consigam salvar todo o mundo, os millennials sentem-se atraídos por organizações que tentam ter um impacto directo numa pequena parte dele. Entre elas estão a empresa de óculos Warby Parker e a de meias Bombas, que têm programas “compre um par, doe um par” para doar produtos a pessoas que não têm meios para comprar produtos de primeira necessidade como óculos ou meias, e a Toms Shoes, que se gaba de “por cada 2,7 euros que fazemos, doamos 90 cêntimos”. Os millennials celebram a ajuda às comunidades mais desfavorecidas.

É frequentemente dito que os millennials não são tão leais às empresas como os boomers. Contudo, imaginem verem os vossos pais ou avós serem despedidos enquanto cresciam. Imaginem crescer com um número constante de notícias sobre milhares de pessoas a serem despedidas e fábricas a fechar. Também vocês poderiam ficar cépticos em relação à lealdade a uma empresa.

Baby boomers e millennials podem estar alinhados

Existem diferenças entre gerações. Mas, acreditamos que existem muito mais diferenças dentro das gerações do que entre gerações. E há muito mais semelhanças entre pessoas quando comparamos aquilo que lhes interessa nas mesmas etapas da vida. Por exemplo, quando somos mais novos, podemos ser mais idealistas sobre a natureza e o significado do trabalho. Mais velhos, muitas vezes aceitamos que as nossas visões idealistas do trabalho não se materializaram.

Uma descoberta recente que não recebeu muita atenção foi que a equidade do sistema económico não varia muito entre gerações. O Pew Research Center revela que 60% dos boomers e 66% dos millennials afirmam que o nosso sistema económico privilegia injustamente os interesses dos poderosos. Números ainda mais altos – 84% de boomers e millennials – revelam que a desigualdade económica é um grande problema. E a confiança nos políticos para lidar com o problema? Mais de dois terços de boomers e de millennials afirmam que confiam no governo federal para “fazer o que está correcto” apenas algumas vezes.

A verdade é que tanto boomers como millennials querem que os negócios melhorem e que sejam uma força positiva na sociedade. Ambas querem trabalhar para desenvolver comunidades mais sólidas, ambientes mais limpos e empregos mais relevantes. A maior diferença entre gerações é apenas o tipo de roupa que usam ou a música que ouvem. Mas isso não significa que não tenham valores e ideias semelhantes.

O que tem de ser feito no mundo dos negócios

Precisamos de criar uma narrativa mais adequada sobre os negócios que tenha em conta as questões sociais no seu modelo de negócios básico. Ver a sociedade como um “acrescento”, que é só tida em conta quando restam alguns lucros, não satisfará boomers ou millennials.

Os negócios devem avançar segundo o seu propósito ou redescobrir o seu propósito se, de alguma forma, fazer dinheiro para os accionistas se tornou a sua principal missão. Estreitamente ligada está a capacidade de compreender como os principais stakeholders são afectados.

Os líderes têm de compreender que estão incluídos na sociedade, não só em mercados competitivos. Isto significa que têm de lidar com questões sociais, principalmente com as que são importantes para os seus modelos de negócios.

O principal factor para uma melhor versão do capitalismo é compreender que os negócios são um empreendimento humano. Devemos ver as suas pessoas em toda a sua humanidade, não apenas como agentes económicos que procuram maximizar os seus interesses pessoais individuais. Ver o negócio como algo totalmente humano envolve juntar negócios e ética em modelos que criam valor para todos os stakeholders. Falar é fácil. Contudo, se usarmos as nossas imaginações criativas, podemos desenvolver negócios economicamente viáveis e que podem criar um mundo melhor.

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