Já ninguém vai às janelas à noite aplaudir os heróis que ainda estão na linha da frente. Seis meses depois da Covid-19 se ter ter revelado uma ameaça de combate urgente, e apesar do colapso em alguns destinos, as manifestações pelo ‘Vai Ficar Tudo Bem’ desapareceram. E os governos, outrora merecedores de rasgados elogios, enfrentam agora duras críticas.
Mais de 200 dias desde que o coronavírus foi detetado pela primeira vez, as autoridades de saúde pública dizem que o número de infeções está em aceleração e o pico ainda vai surgir mais à frente. No início de agosto, o mundo está envolto num nevoeiro: ultrapassou o choque mas não vislumbra o fim da pandemia.
“Desde o início da pandemia que dizemos que se trata de uma maratona, não de uma corrida”, diz Alexandra Phelan, professora associada do Centro de Ciência e Segurança em Saúde Global da Universidade de Georgetown, Washington DC, ao ‘The Guardian’.
Mas agora, acrescenta a especialista, “está a tornar-se evidente que é mais uma ultramaratona. Este será um trabalho incrivelmente longo”.
Em março, foi estimado que metade da humanidade estava sob algum tipo de bloqueio. Meses depois, a experiência mundial cedeu e viver numa pandemia tornou-se normal – mas este normal varia drasticamente.
E um dos exemplos apontados é Portugal. As praias da linha de Lisboa, ficaram “absolutamente a abarrotar” este verão, diz Julia Georgallis, proprietária de um restaurante com música ao vivo nesta zona, à ‘CNBC’.
Julia Georgallis fala ainda do impacto que teve, os cinco municípios da periferia da capital portuguesa terem passado a maior parte do mês de julho em confinamento, com os residentes autorizados a deixar suas casas apenas para comprar alimentos, remédios ou para ir para o trabalho.
Receando cenários de hospitais sobrecarregados como em Itália e Espanha, países como Portugal travaram a fundo em março e as taxas de infeção caíram significativamente. Mas o que se seguiu ilustra bem o que pode acontecer quando se tenta regressar à vida normal.
“Após um mês de reabertura, já com grande parte das pessoas a festejar – havia tantas festas, pessoas a beber nas ruas – que houve outro aumento de casos, o que obrigou o governo a impor mais medidas”, detalha Georgallis, acrescentando que no nosso país as máscaras são obrigatórias, enquanto os empresários e os clientes navegam num labirinto de regras que mudam frequentemente. E agora tudo fecha às 23h00: “o que é estranho num país onde as pessoas comem às 21:00 e saem para a noite às 02:00”.
Mas até estes limites podem não ser suficientes. E a comprová-lo estão também as histórias de sucesso únicas como Hong Kong, Melbourne ou o estado indiano de Kerala que hoje atestam como as vitórias contra o coronavírus são frágeis. Os casos estão subindo novamente na Austrália, Oriente Médio e Europa.
Para os países que retardaram a propagação do vírus, este estágio da pandemia apresenta escolhas difíceis, diz Babak Javid, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em São Francisco.
“Com a supressão completa e o bloqueio das fronteiras, teremos sempre um aumento de casos à medida que se consegue uma acalmia”, reforçou, questionando: “a questão é… podemos viver com isto ou não?”.
Em seu entender, significa que tem de existir medidas fortes como fechar indústrias de risco, como os estabelecimentos nocturnos, exigir máscaras e testar amplamente a população. Mas aceitando que a disseminação limitada não será interrompida.
Em todo o mundo, o vírus desencadeou uma crise económica “sem precedentes”, segundo o Fundo Monetário Internacional, que reviu repetidamente a sua estimativa do impacto. O equivalente a quase 400 milhões de empregos em período integral já foram perdidos.
O golpe foi amortecido um pouco em países como França, Reino Unido e Austrália, que aprenderam com o crash de 2008 que era mais barato a longo prazo pagar pelas empresas aos trabalhadores, a fim de acelerar a recuperação quando a crise diminuir.
Os EUA estão entre os que pagaram aos cidadãos diretamente, a cerca de 30 milhões de pessoas – uma em cada cinco da força de trabalho.
O surto no estado do Arizona, por exemplo, tornou-se o maior ‘per capita’ do mundo, com o maior número de mortes por pessoa em qualquer estado dos EUA. O Arizona confirmou mais de 160 mil infecções e os casos estão a crescer mais de 1.000 por dia.
Enquanto a maior parte da Europa está a conseguir extinguir pequenos surtos, os EUA estão entre os vários grandes países, incluindo Brasil e Índia, que não conseguiram achatar as suas curvas.













