5.000 kms de ditadura blocalizada

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A África é um continente fantástico, com 59 países e 20% da área habitável do planeta. 1,43 biliões de pessoas habitam neste continente (cerca de 17% da população mundial). Mas são apenas responsáveis por 2,9% da economia mundial. Ou seja, apresentam um baixo índice de desenvolvimento humano mas um potencial de crescimento fantástico para melhor acomodar as necessidades dos seus habitantes e contribuir para a riqueza mundial. África apresenta um manancial de recursos naturais único que devidamente gerido, tonaria o continente numa super potência blocal: cerca de 8% das reservas mundiais de petróleo e gás, 25% das reservas mundiais de urânio mas também tem fosfato, cobre, ouro, bauxita, cobalto, prata, zinco, ferro e diamantes. Só que a forma de exploração dos recursos, em alguns países, não beneficia os seus habitantes. É feita por ditadores autocratas que vendem estes recursos a empresas multinacionais de outros continentes que os rentabilizam. Por isso está a ser criado um bloco de ditaduras num corredor ininterrupto que se estende ao longo de mais de 5000 quilómetros de uma ponta a outra de África. São Estados autoritários e regimes militares opressivos como o do Mali, Chade, Sudão, Burkina Faso e recentemente o Níger, entre outros. Este era o último bastião da democracia e o mais importante aliado do Ocidente na conturbada região do Sahel. São 31 países africanos que viram as suas democracias deteriorar-se de há cinco anos para cá, de acordo com a Freedom House. Trata-se de uma divisão do continente em 2 blocos. Uma Blocalização política de uma parte considerável do continente que apenas terá como aliados as outras ditaduras, assim como o apoio e mesmo interferência russa e chinesa. Os russos vão da simples desinformação ao apoio a reivindicações inconstitucionais que possibilitam que os ditadores se perpetuem no poder, passando pela interferência directa nos golpes de estado e nos processos eleitorais. Os mercenários do Wagner são o instrumento fundamental da estratégia russa para África. Tendo mesmo o seu líder exilado, estado presente na cimeira Rússia-África que foi organizada há pouco tempo por Moscovo. Os russos têm o atrativo de nunca terem sido “formalmente” colonialistas (esquecendo a URSS e a Federação Russa) e não fazem exigências sobre democracia e direitos humanos como os blocos ocidentais. 



Só que este cenário de Blocalização partida do continente africano prejudica o bloco Europeu não apenas nos interesses económicos em jogo, como o petróleo e o gás do Norte de África ou o urânio do Níger. Mas muito por força também do controlo da localização estratégica no atlântico, Mediterrâneo e mar vermelho deste bloco, fundamental para o comércio internacional. Finalmente porque este bloco apresenta ainda 2 grandes ameaças (e provavelmente as mais importantes) para a Europa: o terrorismo jihadista e as migrações maciças.

A Blocalização do mundo em 5 grandes blocos, acabando com a globalização, está a formar-se. O bloco Europeu e Norte de África; o Norte Americano (Canadá incluído) e Reino Unido; o Asiático democrático (inclui Japão, Austrália, Coreia do Sul e Nova Zelândia); o Chinês com a esfera de influência na Ásia e África; finalmente o Russo com influência em alguns países vizinhos no médio oriente, América Latina  e agora no Sahel africano. Falta a Índia, que nunca sabemos como se irá comportar devido ao declínio das liberdades civis liderado pelo seu presidente utranacionalista.

Este impulso de desglobalização está ligado ao conceito de deterioração da democracia, pois apenas 5,7% da população mundial vive numa democracia plena (Economist Intelligence Unit 2019). A Blocalização expirou a globalização. Trouxe consigo um novo conceito de trocas significativas de mão de obra, serviços, capitais e fluxo de mercadorias dentro destes blocos regionais, protegendo-os da concorrência global e da falta de princípios comuns entre blocos. Podem ser zonas de livre comércio, uniões aduaneiras ou mesmo mercados comuns. Já existem muitos acordos regionais como o NAFTA, ASEAN, Mercosul, APEC e UE. No entanto, julgo que a pandemia; a proeminência do comércio near-shore; a guerra na Ucrânia (que nos demonstrou que a economia pode ser uma arma de chantagem) assim como a fragilidade dos acordos internacionais; a inflação e a crise consequente,  irão reformar estes blocos. Porque não existe autonomia nos agentes económicos e um mercado independente em relação ao estado, nos regimes autoritários. Pelo que não pode existir livre concorrência global pois a democracia não é global entre blocos. São regras diferentes para processos de trocas idênticos, o que se torna impossível. Portanto os países irão relacionar-se com aqueles com os quais partilham os mesmos  princípios, valores, regras e respeito pelos acordos e direito internacional. Está é a Blocalização. 

Julgo que o bloco Europeu e Americano ainda vão a tempo de “influenciar” países Africanos a tornarem-se democracias  e em melhorar o seu índice de desenvolvimento humano. A bem dos seus habitantes mas também dos riscos para a segurança do mundo e a estabilidade da economia mundial! 

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