Por Luís Pereira, Diretor Técnico-Científico da AlmaScience
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial e profecias de que tudo resolverá, a transformação industrial e económica não será apenas digital, mas terá forçosamente de abarcar a vertente material e de sustentabilidade. Para essa simbiose será muito relevante o papel dos laboratórios colaborativos que fazem a ponte entre ciência e indústria, onde a teoria dá lugar a protótipos que se transformam em produtos comerciais, e onde ciclos de inovação são mais longos que nas tecnologias puramente digitais.
Mas a prática é feita de desafios. O maior desafio? Certamente um deles é contribuir para ultrapassar o preconceito sobre os materiais naturais. Durante décadas, celulose, papel e cortiça foram vistos como “alternativos”: bons para a consciência ambiental, menos considerados em termos de funcionalidade. Essa narrativa está a mudar. O que antes era nicho vai tornar-se mainstream em 2026, não por idealismo, mas por necessidade económica.
É nos laboratórios que se validam estes materiais em condições industriais reais. E onde se demonstra que não são alternativas frágeis, mas materiais com elevado potencial para aplicações específicas. É nos laboratórios que se arrisca antes das empresas investirem capital, e muito antes do mercado decidir pela sua adoção. Porém, sem uma profunda sinergia entre laboratórios e empresas, o que pode ser uma excelente ideia dificilmente chegará a ser um produto no mercado.
Em 2026, outro conceito que ganhará força especial é a “Vida Útil Apropriada”. Ou seja, os produtos devem durar o tempo necessário à sua função, não mais. Um sensor numa embalagem não precisa funcionar cinco anos, mas sim apenas enquanto é útil.
Isto desafia o dogma da durabilidade eterna e mexe com ideais muito enraizados, mas a ciência tem vindo a comprovar que este conceito é válido. A prática passa por materiais que se degradam quando devem, componentes facilmente substituíveis ou sistemas modulares que prolongam a vida útil sem aumentar o desperdício. Soluções sustentáveis com viabilidade económica e que contribuem, simultaneamente, para a circularidade destas mesmas soluções.
Também a pressão regulatória europeia e a exigência dos consumidores estão a acelerar a procura por produtos “verdes”, incluindo o conceito de eletrónica responsável. Mas não basta ter uma ideia: é preciso validá-la à escala, testar a sua fiabilidade, otimizar processos. É este trabalho invisível que transforma conceitos em produtos. E quando tecnologias se tornam spin-offs, isso prova que o modelo funciona.
Portugal possui potencialidades ímpares para liderar esta revolução, com vantagens únicas: base florestal extraordinária, competência científica reconhecida e dimensão ideal para pilotos industriais. Mas é necessário mais financiamento para scale-up – essa fase crítica entre protótipo e produção, onde muita inovação morre. É urgente divulgar mais estes sucessos e incentivar investidores e empresas a assumir o risco de testar tecnologias disruptivas, muitas vezes negligenciadas devido às maiores necessidades de investimento inicial e ciclos mais longos de retorno financeiro.
2026 será o ano em que os laboratórios colaborativos ganham a credibilidade que já merecem. Isto não é um desejo, é uma inevitabilidade. As empresas já perguntam “quando?”, não “porquê?”.
2026 será também o ano em que os materiais naturais provam o seu valor comercial, em que a “Vida Útil Apropriada” se torna princípio de design e em que a eletrónica responsável abre mercados. E os laboratórios que fazem a ponte entre ciência e indústria deixarão de ser meramente interessantes para se tornarem absolutamente indispensáveis.




