XLVI BARÓMETRO: Nelson Pires, Jaba Recordati

A análise de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest
Março 9, 2026
11:22

A análise de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Os resultados do mais recente Barómetro mensal da Executive Digest, realizado junto de centenas de gestores de topo em Portugal, são claros e desconfortáveis. Vou-me focar apenas numa das questões, provavelmente a mais estruturante do Barómetro. Quando questionados sobre as três prioridades mais determinantes para acelerar o desenvolvimento do País na próxima década, a resposta dominante não aponta para grandes visões futuristas nem para agendas simbólicas. Aponta, de forma inequívoca, para o básico: Estado, educação e capacidade de execução. A prioridade mais votada – Estado e Confiança Pública (74%) – não deixa margem para interpretações optimistas. O tecido empresarial português identifica o Estado como o principal factor crítico de sucesso ou falhanço do desenvolvimento nacional. Não por falta de boas intenções, mas por excesso de burocracia, lentidão administrativa, instabilidade regulatória e défice de previsibilidade. Este resultado traduz uma fadiga institucional profunda. Os gestores não pedem menos Estado, pedem um Estado que funcione. Um Estado que decida em tempo útil, que cumpra prazos, que seja transparente e que não transforme cada investimento num teste de resistência. Sem esta base, qualquer estratégia económica – por mais bem desenhada – acaba por se perder na execução. Logo a seguir surge educação e competências (64%), um dado que confirma um consenso antigo, mas ainda longe de ser resolvido. O sistema educativo português continua desalinhado com as necessidades da economia real. Falta ligação efectiva entre universidades, empresas e Estado. Falta requalificação séria de adultos. Falta foco em competências críticas para a próxima década: tecnologia, engenharia, dados, gestão e pensamento crítico. Os gestores sabem que não há crescimento sustentável sem produtividade e que não há produtividade sem capital humano qualificado. O País pode continuar a atrair investimento, mas se não formar talento suficiente – ou se continuar a perdê-lo – esse investimento será sempre limitado, de baixo valor acrescentado e facilmente deslocável. A economia do futuro (48%), que inclui áreas como biotecnologia, energias limpas, economia do mar e startups, surge apenas em terceiro lugar. Não por falta de ambição, mas por realismo. A mensagem implícita é simples: antes de apostar no futuro, é preciso arrumar a casa. Inovação sem talento não escala. Startups sem enquadramento regulatório previsível não crescem. Transição energética sem capacidade administrativa pára. Ainda mais revelador é o que fica para trás. Sustentabilidade e crescimento verde (16%), identidade e cultura (12%) e território e coesão (26%) são vistos como importantes, mas não determinantes. Não porque sejam irrelevantes, mas porque são entendidos como consequências de uma economia funcional – não como o seu motor principal. A excepção parcial é saúde e bem-estar (46%), que reflecte preocupações reais com o envelhecimento da população, a eficiência do SNS e a inovação em saúde digital, mas que ainda assim não é percepcionada como a alavanca central do desenvolvimento económico. O retrato que emerge deste Barómetro é o de um País que já não se ilude com discursos fáceis. O tecido empresarial português não está à procura de slogans, está à procura de reformas. Reformas institucionais, reformas educativas, reformas administrativas. Não necessariamente mais despesa pública, mas melhor utilização dos recursos existentes. Não mais planos estratégicos, mas capacidade de execução consistente ao longo do tempo. Há também um sinal político importante: o problema de Portugal não é a falta de ideias nem a ausência de sectores promissores. É a dificuldade crónica em transformar boas intenções em resultados. Enquanto esta fragilidade estrutural persistir, qualquer narrativa de “salto para o futuro” será, no máximo, retórica. Este Barómetro não é pessimista. É exigente. Mostra que quem lidera empresas em Portugal entende bem onde estão os bloqueios reais ao crescimento. Ignorar esta mensagem seria um erro. Levá-la a sério pode ser o primeiro passo para, finalmente, alinhar ambição com capacidade. Portugal não precisa de reinventar o País. Precisa, antes de mais, de fazer bem o essencial. E isso, como os gestores deixam claro, começa no Estado, passa pela educação e só depois chega ao futuro.



Testemunho publicado na edição de Fevereiro (nº. 239) da Executive Digest, no âmbito da XLVI edição do seu Barómetro.

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