Vamos apostar no calor solar para a indústria?

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Já aqui abordei a questão do calor solar para a indústria algumas vezes (por exemplo, https://executivedigest.sapo.pt/aquecimento-e-arrefecimento-solar-porque-nao/ de 29 julho 2024) mas dada a necessidade da aceleração da descarbonização da economia, nomeadamente a nível industrial, evidenciada e exponenciada pela mais recente guerra no Médio Oriente, este é um tema que se impõe revisitar.



Os sistemas solares térmicos de média temperatura para aquecimento industrial estão a consolidar-se cada vez mais. As empresas dos setores alimentar e farmacêutico, em particular, têm vindo a recorrer cada vez mais à energia solar térmica para descarbonizar os seus processos de fabrico. Muito recentemente são de referir desde enormes instalações, como uma de 5,7 MW na Grécia, a outras de menor dimensão, que entraram em funcionamento em 2025, e que fornecem calor industrial na gama de 100 a 180 °C. O que torna estas novas instalações particularmente notáveis é a sua distribuição global. Os projetos recentemente concluídos estão localizados na Austrália, França, Índia, Marrocos, Espanha, Turquia e Estados Unidos. Portugal apresenta muitas potencialidades a este nível, mas precisa de fazer algo mais para “apanhar este comboio”.

Para se ter uma ideia do que se está a passar a nível mundial mais recentemente, aqui fica uma resenha efetuada pela solarthermalworld.org:

  • Produção de lubrificantes (Shell) em Marrocos (Casablanca), com uma instalação solar de 1 MW, equipada com coletores planos de alto vácuo (1750 m²), que iniciou as operações em outubro de 2025; a central solar reduz o consumo de propano da fábrica em cerca de 30%;
  • Secagem de lamas de esgoto para uma entidade municipal no Arizona (Estados Unidos), usando um campo de caleiras parabólicas de 1700 m² que é utilizado para secar lamas; o sistema entrou em funcionamento no início de 2025; a instalação, sem subsídios, é economicamente viável com base apenas na redução dos custos de deposição (o aterro sanitário das lamas de esgoto já não é necessário), sendo a lama pasteurizada transformada em fertilizante de Classe A e vendido a empresas agrícolas, criando uma fonte de rendimento adicional e reduzindo o impacto ambiental;
  • Produção de produtos farmacêuticos (Ethypharmem) França, com um sistema solar térmico de 0,84 MW com coletores parabólicos (1123 m²), em funcionamento desde julho de 2025; a instalação fornece água pressurizada a temperaturas entre os 90 e os 180 °C, que é direcionada para a rede de vapor da empresa, sendo o calor solar utilizado para auxiliar na climatização dos pavilhões de produção (aquecimento/arrefecimento) que é essencial para manter as rigorosas condições de temperatura exigidas pelos processos farmacêuticos; a Ethypharm financiou o projeto sem subsídios, motivada pelas suas metas internas de redução de emissões;
  • Também no domínio farmacêutico, na Turquia (Novartis, em Istambul), foi inaugurado em novembro de 2025 um campo de coletores parabólicos (1600 m²) numa unidade de produção farmacêutica; o sistema de 0,5 MW fornece água pressurizada a 180 °C e existe uma unidade de armazenamento térmico de 5 m³ que garante o fornecimento contínuo de calor solar, mesmo após o pôr-do-sol;
  • Tratamento de águas residuais de campos petrolíferos no Novo México (EUA); foi construída uma central de demonstração com coletores lineares de Fresnel (capacidade de 100 kW (200 m²)) que se destina ao tratamento de águas residuais na empresa NGL Water Solutions Permian, que lida com águas residuais de campos petrolíferos; a nova tecnologia hibridiza a combinação de dois processos térmicos (um processo de destilação por membrana no fundo e um processo de evaporação no topo) possibilitando a integração destes processos uma eficiência térmica e uma taxa de recuperação líderes para a água hipersalina dos campos petrolíferos;
  • Instalação de demonstração de Fresnel linear em Espanha; o fabricante espanhol Solatom (coletores Fresnel lineares) forneceu coletores uma pequena central de demonstração com 70 kW, tendo o sistema sido instalado no Centro Tecnológico Agroalimentar CTAEX; é utilizado para produzir vapor de processo e injetá-lo no coletor de vapor da instalação piloto do CTAEX, sob condições operacionais representativas do processamento industrial de tomate;
  • Outra instalação de demonstração da Solatom foi instalada na empresa australiana Sparc Hydrogen, para apoio da produção de hidrogénio renovável utilizando um reator solar num processo de divisão fotocatalítica da água (water splitting);
  • Um outro sistema de pequena escala, mas puramente comercial, foi criado na Índia pelo fabricante de concentradores parabólicos Quadsun; tem um campo de coletores de 77 kW (110 m²) e fornece temperaturas até 100 °C para o fabricante de automóveis Hero Motor em Tirupati, na Índia.

Todos estes exemplos nos deixam a meditar porque é que esta tecnologia não é mais aproveitada no nosso país, dado o recurso solar existente e a nossa dependência energética. Se existe a tecnologia e o recurso, se existem competências tecnológicas nacionais na área e face ao benchmarking disponível o que faltará?

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