Vale a pena ter uma tarifa bi-horária?

Basta uma proposta nova na fatura da luz, com a palavra “bi-horária”, para a dúvida regressar: vale a pena mudar ou mais vale ficar como está?

Executive Digest com ComparaJá.pt

Basta uma proposta nova na fatura da luz, com a palavra “bi-horária”, para a dúvida regressar: vale a pena mudar ou mais vale ficar como está? Parece uma decisão menor, mas, ao fim de um ano, pesa na conta. E a resposta honesta é também a mais incómoda: depende. Depende, na prática, de uma só variável, que se percebe em dois minutos de leitura.

O que é, afinal, uma tarifa bi-horária?

Na eletricidade há três opções principais: a tarifa simples, a bi-horária e a tri-horária. Na simples, o preço de cada kWh é igual a qualquer hora do dia. Na bi-horária, o dia divide-se em dois períodos com preços diferentes: as horas de vazio, mais reduzidas, e as horas de fora de vazio, mais elevadas.

Quem opta pela bi-horária escolhe também um de dois ciclos. No ciclo diário, os horários são iguais todos os dias e as horas de vazio concentram-se, hoje, no período noturno (tipicamente das 22h às 8h). No ciclo semanal, os horários variam entre dias úteis e fim de semana, com mais horas de vazio ao sábado e ao domingo. Em números redondos, o ciclo diário oferece cerca de 70 horas de vazio por semana e o semanal cerca de 76 horas, mais concentradas no fim de semana.

Uma nota útil: a ERSE tem em curso uma revisão dos períodos horários, que vai ajustar o início e o fim do vazio. As alterações ainda não estão em vigor, pelo que convém confirmar os horários do contrato antes de decidir.

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Os argumentos a favor

• Poupança para quem consome à noite ou ao fim de semana. Quem consegue deslocar a máquina de lavar a roupa, a loiça, o termoacumulador ou o carregamento do carro elétrico para as horas de vazio paga menos por essa energia.
• Um consumo mais consciente. Olhar para o relógio antes de ligar os equipamentos de maior consumo ajuda a evitar desperdício e a perceber melhor para onde vai a fatura.
• Mais margem em casas “elétricas”. Quem tem veículo elétrico, aquecimento elétrico ou águas quentes elétricas costuma ter mais a ganhar, porque são consumos fáceis de programar para a noite.

Os argumentos contra

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• Exige disciplina. A bi-horária só compensa quando há uma mudança real de hábitos. Ligar o forno ou a máquina nas horas de fora de vazio acaba por sair mais caro do que na tarifa simples.
• O fora de vazio é mais caro. Nas horas de maior procura, o preço é mais elevado do que numa tarifa simples. Quem não consegue fugir a esses períodos sai a perder.
• Dá mais trabalho a gerir. No ciclo semanal, os horários mudam ao longo da semana e entre verão e inverno, o que obriga a uma atenção constante.

Os perfis para quem costuma compensar

A ERSE sugere uma regra prática que resolve quase tudo: a bi-horária tende a compensar quando mais de cerca de um terço do consumo acontece nas horas de vazio. Abaixo desse limiar, a tarifa simples costuma sair mais em conta. Na prática, costuma fazer sentido para:

• Quem trabalha fora e só usa a casa de forma intensa ao fim do dia e à noite.
• Famílias que concentram máquinas, banhos e cozinha no período noturno.
• Donos de veículos elétricos que carregam o carro de madrugada.
• Casas com termoacumulador ou aquecimento elétrico que dá para programar.
• Quem faz a maioria das tarefas ao fim de semana, caso em que o ciclo semanal leva vantagem.

Os casos em que pode não valer a pena

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Do outro lado, há perfis em que a bi-horária tende a desiludir:

• Quem está em casa durante o dia e consome sobretudo a essas horas, como quem trabalha a partir de casa, está reformado ou tem crianças pequenas em casa.
• Horários imprevisíveis ou por turnos, em que não é possível planear quando se gasta mais.
• Consumo muito espalhado ao longo do dia, sem um pico claro que possa ser deslocado.
• Quem não quer, ou não pode, alterar rotinas para acompanhar o relógio.

Nestes casos, a tarifa simples dá previsibilidade e evita o risco de pagar o fora de vazio mais caro sem ter como o compensar.

E o que dizem os dados de junho de 2026?

Os dados mais recentes do estudo mensal sobre energia do ComparaJá ajudam a perceber como isto funciona na prática, e revelam dois sinais claros.

Primeiro, a maioria dos portugueses escolhe mesmo a simples. Entre quem mudou de contrato de energia em maio de 2026 através do ComparaJá, 93% optou por uma tarifa simples e apenas 7% por uma bi-horária. Por outras palavras, para a generalidade das famílias, adaptar consumos a horários específicos não compensa. A bi-horária é uma escolha de nicho, para perfis muito concretos.

Segundo, seja qual for a tarifa escolhida, comparar comercializadoras costuma pesar mais na fatura do que o próprio regime horário. Alguns exemplos das simulações do ComparaJá no início de junho de 2026, em tarifa simples:

• Um casal sem filhos (160 kWh por mês, 3,45 kVA) encontra a proposta mais económica em cerca de 33,59 euros por mês, até 13,43 euros abaixo da opção mais cara do mercado.

• Uma família típica com dois filhos (400 kWh por mês, 6,9 kVA) desce para cerca de 71,81 euros por mês, até 25,40 euros de poupança mensal face à opção mais cara. São mais de 300 euros por ano, sem qualquer alteração no consumo.

• Uma família numerosa (908 kWh por mês, 13,8 kVA) consegue a tarifa mais económica em 186,17 euros por mês, até 49,05 euros por mês abaixo da opção mais cara.

Valores resultantes de simulações do ComparaJá realizadas no primeiro dia útil de junho de 2026, para os perfis de consumo indicados. São exemplos: o custo real depende do consumo, da potência contratada e das campanhas em vigor. A estes preços base podem ainda somar-se descontos por débito direto, fatura eletrónica ou campanhas, que nalguns casos ultrapassam 20%.

A forma mais simples de saber qual a opção que compensa, simples ou bi-horária, e qual a comercializadora mais vantajosa, é comparar com os próprios dados de consumo. A comparação pode ser feita, sem custos, com comparadores gratuitos. Para quem ainda não sabe que potência tem ou de quanta precisa, um simulador de potência e consumo ajuda a chegar lá.

Então, vale a pena?

Vale, com uma condição: quando é possível deslocar uma fatia relevante do consumo, mais de um terço, para as horas de vazio, e há disponibilidade para manter essa rotina. Nesse caso, a bi-horária paga-se e ainda sobra. Para quem tem um dia imprevisível ou consome sobretudo de dia, a recomendação é a inversa: ficar na simples, com mais previsibilidade e, muito provavelmente, uma fatura menor.

A decisão não tem de ser tomada às escuras. Analisar a fatura, perceber quanto se consome e a que horas, e comparar as ofertas das comercializadoras antes de mudar é o passo que separa poupar de pagar a mais.

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