Um fungo descoberto no Brasil está a alastrar (e já preocupa os cientistas)

Em comparação com outros fungos do mesmo género, o ‘Sporothrix brasiliensis’ é mais virulento (ou seja, espalha-se com maior facilidade) e pode causar quadros infecciosos mais severos

Francisco Laranjeira
Fevereiro 14, 2023
7:30

O fungo ‘Sporothrix brasiliensis’ era desconhecido até meados dos anos 1990: no entanto, tornou-se de inofensivo a um problema de saúde pública.

Os primeiros casos de infeção desse patógeno começaram a chamar à atenção no Rio de Janeiro, no Brasil, onde os investigadores observaram que a transmissão acontecia principalmente a partir de gatos de rua. Foi num instante que as infeções começaram a espalhar-se pelos restantes estados brasileiros. Anos mais tarde, foi detetado na Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia e Panamá, tendo sido registados casos pontuais no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Como se explica esta transmissão? Atrás de uma epidemia pouco conhecida está um exemplo de como o desequilíbrio no meio ambiente pode levar a consequências surpreendentes e inesperadas.

Os fungos do género ‘Sporothrix’ são conhecidos desde 1898 – surgem principalmente no solo e em algumas plantas. Como alguns dos seus ‘irmãos’, são fundamentais para decompor a matéria orgânica na natureza. Mas em casos raros, este micro-organismos podem causar doenças nos seres humanos, conhecidas como esporotricose.

Chegamos então ao ‘Sporothrix brasiliensis’, que se consegue infiltrar nas camadas superficiais da pele e provocar feridas. Pode também invadir o sistema linfático e afetar os olhos, nariz e os pulmões. Entre 1998 e 2001, investigadores da Fundação Oswaldo Cruz diagnosticaram 178 casos de esporotricose. “Dos 178 pacientes, 156 tinham algum contacto em casa ou no trabalho com gatos que também estavam com essa enfermidade, e 97 foram mordidos ou arranhados por esses animais”, revelou um estudo. Foi isso que chamou a atenção aos especialistas: por algum motivo, os números da doença estavam a crescer.

“Segundo as últimas estatísticas, já são mais de 12 mil casos em seres humanos desde então”, relatou o médico Flavio Telles, da Sociedade Brasileira de Infectologia. “E isto sem contar os incontáveis registos em gatos e cães”, acrescentou.

“Por algum motivo, o fungo adaptou-se aos gatos. Neles, o patógeno causa uma doença disseminada, que provoca ferimentos no rosto e nas patas”, descreveu Telles. “E um gato infetado transmite a outros, além de passar para cães e seres humanos.” “Isso porque faz parte da biologia dos felinos as disputas físicas na procura por territórios, alimentos e acasalamentos, em que um animal morde e arranha outro”, referiu.

Mas por que essa situação se tornou um problema nos últimos anos?

O microbiologista Marcio Lourenço Rodrigues, da FioCruz Paraná, esclareceu que a ascensão do ‘Sporothrix brasiliensis’ ainda é objeto de estudos e especulações. “Por que ele estava no solo e de repente tornou-se uma emergência de saúde pública?”, questionou. “Há uma associação direta entre esse facto e a ocupação do solo, o desmatamento e a construção de moradias. Ou seja, passou-se a ter uma desorganização de ecossistemas que antes estavam em equilíbrio e isso expõe animais e seres humanos a novos patógenos”, completou.

Depois de o fungo ter chegado aos gatos, o salto para os humanos foi relativamente fácil.

Na Argentina, por exemplo, foram detetados 0,16 novos casos por mês de esporotricose felina em 2011. Já em 2019, essa taxa estava em 0,75 casos — um crescimento de mais de quatro vezes em menos de uma década.

O que fazer?

Em comparação com outros fungos do mesmo género, o ‘Sporothrix brasiliensis’ é mais virulento (ou seja, espalha-se com maior facilidade) e pode causar quadros infecciosos mais severos. O tratamento também não é dos mais fáceis: nem sempre os remédios antifúngicos disponíveis funcionam de imediato. A terapia costuma durar, em média, 187 dias, segundo um estudo recente da Universidade Federal do Rio Grande.

Para Rodrigues, casos como os do ‘Sporothrix brasiliensis’ revelam como os desequilíbrios no meio ambiente causados pela ação humana têm consequências imprevisíveis. “Há 15 anos, a esporotricose não era um problema. A alteração de ecossistemas propiciou possíveis exposições a patógenos que, antes, não aconteciam”, denunciou. “E isso cria crises de saúde pública cada vez mais difíceis de enfrentar.”

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.