Se 2025 ficou marcado como o ano da consolidação dos drones no campo de batalha, 2026 começa sob o signo da exaustão. Após quase quatro anos de guerra, a invasão russa da Ucrânia entra numa fase crítica, caracterizada pelo desgaste humano, militar e político de ambos os lados, sem sinais claros de um desfecho negociado à vista. Kiev e Moscovo continuam a investir em armamento e tecnologia com orçamentos de guerra cada vez mais elevados, mas sem demonstrarem vontade de abdicar das suas exigências estratégicas.
Analistas e observadores apontam 2025 como possivelmente o ano mais complexo desde o início da invasão russa, um período que pode mesmo representar um ponto de não retorno no conflito mais longo vivido pela Europa em décadas.
O ano começou com o Kremlin a proclamar avanços “em todas as frentes, todos os dias”, uma estratégia mediática destinada a enfraquecer o apoio ocidental à Ucrânia. A mensagem implícita era clara: se a derrota de Kiev fosse inevitável, porque continuar a financiá-la. O regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos foi visto em Moscovo como uma oportunidade estratégica, uma leitura que encontrou eco também entre sectores da sociedade ucraniana, onde se instalara a perceção de que, com Joe Biden, o máximo alcançável seria um impasse, devido ao receio de uma escalada nuclear.
Cinco semanas após a tomada de posse de Trump, o cenário alterou-se drasticamente. Uma confrontação pública entre o presidente norte-americano e Volodímir Zelenski no Despacho Oval antecedeu a suspensão temporária do fornecimento de informação de inteligência e o corte da ajuda económica e militar dos EUA a Kiev. Seguiu-se uma retirada ucraniana de Kursk e uma sucessão de tréguas não cumpridas, culminando numa cimeira entre Putin e Trump no Alasca.
Para o Kremlin, este restabelecimento das relações internacionais sem interromper a guerra nem assumir custos políticos foi, provavelmente, a principal vitória de 2025. Ainda assim, ficou aquém das expectativas mais ambiciosas.
Rússia falha objectivos militares apesar de perdas massivas
No campo de batalha, os resultados ficaram longe de corresponder à retórica oficial. Com cerca de 400 mil baixas estimadas, o Exército russo conquistou, pelo segundo ano consecutivo, menos de 1% do território ucraniano. Não capturou qualquer cidade de relevo e nem sequer conseguiu controlar totalmente Pokrovsk, alvo de cerco desde o verão de 2024.
O ano terminou, aliás, com um revés significativo: a perda de Kupiansk, um eixo estratégico fundamental para a defesa da segunda maior cidade da Ucrânia e crucial para o abastecimento do Donbass. Ainda assim, a máquina de propaganda russa apresentou o episódio como uma vitória.
“Libertaram a cidade de Kupiansk e as tropas continuam a destruir as formações ucranianas cercadas na margem esquerda do rio Oskil”, afirmou o chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, numa reunião com Vladimir Putin a 20 de novembro. Três semanas depois, Volodímir Zelenski divulgou um vídeo gravado à entrada da cidade, desmentindo essa versão.
Propaganda intensifica-se sempre que Moscovo falha objectivos
O episódio de Kupiansk evidenciou dois pontos centrais: por um lado, Kiev continua capaz de organizar ofensivas localizadas, neste caso após meses de preparação e com unidades transferidas do norte do país; por outro, sempre que a Rússia falha os seus objectivos, intensifica a ofensiva propagandística.
Um exemplo recente foi a alegação falsa de um ataque com 91 drones à residência de Putin na região de Novgorod, rapidamente desmentida por residentes locais ao meio russo Sota. O boato surgiu pouco depois de uma reunião considerada produtiva entre Zelenski e Trump, na Florida, onde foram discutidas garantias de segurança e um eventual destacamento de tropas norte-americanas na Ucrânia.
Esta estratégia já tinha sido usada em alegados avanços russos em janeiro, nas tréguas da primavera, na suposta rutura da frente em agosto que faria cair todo o Donbass ou no anúncio prematuro do controlo de cidades da linha da frente. Desde o seu ponto mais favorável na primavera, a posição russa não melhorou.
Frente resiste, apoio europeu mantém-se e EUA mostram sinais de viragem
Apesar das dificuldades, a primeira linha de defesa ucraniana não colapsou. Internamente, mesmo com um apoio popular a Zelenski em declínio, a sociedade ucraniana tem fechado fileiras em torno do presidente perante críticas e desvalorização externas.
Na Europa, longe de um afastamento, foi anunciado no final do ano um novo empréstimo de 90 mil milhões de euros para apoiar a defesa ucraniana até ao final de 2027. Também nos Estados Unidos começaram a surgir sinais de inflexão, após meses de concessões ao sector trumpista alinhado com a narrativa russa. A aprovação no Senado de um pacote de 800 milhões de dólares para a Ucrânia, válido por dois anos, marcou um ponto de viragem, resultado de uma iniciativa conjunta de republicanos e democratas críticos da política presidencial.
A incapacidade russa de alcançar ganhos significativos no terreno teve uma consequência directa e letal: a intensificação massiva dos ataques aéreos. Em 2025, Moscovo praticamente triplicou este tipo de ofensiva, com uma média de 170 drones Shahed lançados por noite, além de mísseis, demonstrando que mantém capacidade para infligir danos severos. O ano foi particularmente duro para Kiev.
Ucrânia enfrenta escassez de efectivos e fragilidades estruturais
A resistência ucraniana tem um custo que vai além do financiamento externo. A escassez de efectivos tornou-se um problema estrutural, agravado por deserções e pelos riscos crescentes da guerra moderna. As homenagens frequentes a soldados que mantêm posições durante mais de 100 dias ilustram a pressão sobre as tropas.
A questão sobre se a Ucrânia dispõe efectivamente de um milhão de soldados ganhou relevo. Um relatório do grupo Frontelligence Insight identificou 50 mil desertores e 250 mil casos de ausências não justificadas, números que o próprio estudo relativiza devido a sobreposições e regressos ao serviço. Ainda assim, as estimativas apontam para cerca de 150 mil casos reais, o que, somado às baixas, reduziria o efectivo para entre 700 mil e 800 mil militares — precisamente o patamar a que Kiev estaria disposta a baixar as suas Forças Armadas, segundo o plano de paz de 20 pontos.
Esta falta de pessoal tem impacto directo na linha da frente. Se a Rússia aposta em vagas humanas, a Ucrânia precisa de efectivos para colmatar falhas numa frente extensa e porosa. Recuos iniciais em Dobropillya, Pokrovsk e Kupiansk foram sinais de alerta, mas foi a queda de Siversk, em dezembro, que confirmou a vulnerabilidade. Durante três anos, esta localidade de Donetsk travou o avanço russo.
Erros internos agravam recuos e dificultam recuperação territorial
Algumas retiradas não resultaram de grandes ofensivas inimigas, mas da acumulação de falhas: deslocação de tropas para tapar lacunas noutros sectores sem substituição, relatórios imprecisos e falta de transparência. Numa guerra marcada por infiltrações e pânico, estes factores provocam colapsos localizados e recuos desordenados, cuja recuperação pode demorar meses. Situações semelhantes ocorreram recentemente em Hulyapole e, no verão, em Dobropillya.
Embora estes reveses não coloquem em causa a sobrevivência do Estado ucraniano, têm efeitos significativos a médio prazo.
O terceiro grande desafio para Kiev passa pela reorganização da sua estrutura militar. A criação de corpos de exército para unificar brigadas sob um comando comum foi um avanço relevante no papel, mas os resultados no terreno ficaram aquém do esperado. À escassez de efectivos juntam-se a falta de formação de quadros intermédios, casos de corrupção e uma hierarquia que tende a silenciar vozes críticas.
Estes problemas ficaram evidentes quando Alexandr Shyrshyn, então comandante do batalhão Magura da 47.ª brigada, denunciou publicamente “ordens idiotas” que, segundo afirmou, levariam à morte dos seus homens, após não obter resposta pelos canais internos. Veterano da defesa de Mykolaiv, Soledar e Avdiivka, bem como das contraofensivas de Kharkiv, Zaporíjia e Kursk, acabou afastado para um cargo sem responsabilidades como forma de punição.
Com orçamentos de guerra crescentes, tecnologia em constante evolução e frentes estabilizadas, a guerra entra numa fase de desgaste profundo. Após meses de cimeiras de paz e intenso ruído mediático, nem Kiev nem Moscovo parecem dispostas a ceder. À entrada do quinto ano de conflito, acumulam-se tendências preocupantes, mas nada indica que um acordo esteja próximo.














