Explicador. Como a Google deu um salto extraordinário na prevenção de doenças raras com IA que lê o… “ADN lixo”

A ferramenta chama-se AlphaGenome e foi descrita numa investigação publicada na revista científica ‘Nature’. Trata-se de um modelo de inteligência artificial capaz de analisar variações genéticas que, até agora, eram praticamente indecifráveis para a ciência

Francisco Laranjeira

Durante décadas, os cientistas sabiam que apenas uma pequena parte do ADN humano era realmente compreendida. Agora, uma nova inteligência artificial desenvolvida pela Google DeepMind promete mudar esse cenário e ajudar a explicar a origem de doenças raras, cancro e outras patologias complexas.

A ferramenta chama-se AlphaGenome e foi descrita numa investigação publicada na revista científica ‘Nature’. Trata-se de um modelo de inteligência artificial capaz de analisar variações genéticas que, até agora, eram praticamente indecifráveis para a ciência.

O que é o chamado “ADN lixo”?

O genoma humano é composto por cerca de três mil milhões de letras (A, C, G e T). Apenas cerca de 2% dessas letras correspondem a genes que produzem proteínas essenciais para o funcionamento do corpo. Os restantes 98% eram, durante muito tempo, designados como “ADN lixo” — não por serem inúteis, mas porque a ciência não tinha ferramentas para compreender a sua função.

Hoje, esse conjunto é conhecido como “genoma obscuro” e sabe-se que desempenha um papel crucial na forma como os genes são ativados ou desativados. É também aí que se encontram muitas mutações associadas a doenças como cancro, demência, obesidade, diabetes ou hipertensão.

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O que faz exatamente o AlphaGenome?

O AlphaGenome consegue analisar até um milhão de letras de ADN de uma só vez, algo que estava fora do alcance dos modelos anteriores. A partir dessa análise, a IA consegue prever, em simultâneo:

– Onde estão localizados os genes

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– Como o “genoma obscuro” influencia a expressão génica (se um gene está ativo ou silencioso)

– Como ocorre o splicing génico, o processo que permite a um único gene originar diferentes proteínas

– O impacto da alteração de uma única letra no código genético

Esta capacidade é especialmente relevante porque pequenas alterações — aparentemente insignificantes — podem desencadear doenças graves.

Um exemplo prático: do cancro às doenças raras

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Um dos exemplos citados pelos investigadores envolve a leucemia linfoblástica de células T. Neste tipo de cancro, não existe uma mutação clássica num gene específico. Em vez disso, um gene é ativado de forma anómala devido a alterações noutra região do ADN.

Com o AlphaGenome, foi possível prever como uma única letra alterada numa zona não codificante do ADN podia ativar um gene tumoral. Este tipo de previsão ajuda os cientistas a distinguir entre mutações que causam doença e mutações que são apenas “ruído” genético.

A ferramenta está também a ser usada para investigar doenças genéticas raras, onde encontrar a causa exata pode demorar anos.

Um avanço… com limites

Apesar do entusiasmo, os próprios investigadores sublinham que o AlphaGenome não foi concebido para uso clínico direto nem para prever o genoma pessoal de um indivíduo. O modelo ainda apresenta limitações, nomeadamente na previsão de interações genéticas a longas distâncias ou na análise específica de diferentes tipos de tecidos.

Ainda assim, especialistas independentes descrevem o avanço como um “marco importante” e uma “façanha técnica incrível”.

Porque é que este modelo é diferente?

Ao contrário de modelos como o ChatGPT, que preveem a próxima palavra numa frase, o AlphaGenome é um modelo de sequência para função: analisa como alterações no “texto” do DNA mudam o seu significado biológico.

Foi treinado com grandes bases de dados públicos de experiências em células humanas e de ratinho e já está disponível para uso não comercial. Desde o seu lançamento, mais de 3.000 cientistas em todo o mundo já utilizaram a ferramenta.

O que pode mudar no futuro?

Os investigadores acreditam que o AlphaGenome pode acelerar:

– A identificação das causas de doenças genéticas raras

– A descoberta de novos alvos terapêuticos

– O desenvolvimento de medicamentos personalizados

– A investigação em cancro

– Avanços em biologia sintética e terapias génicas

Depois do sucesso do AlphaFold, que valeu à DeepMind o Prémio Nobel da Química em 2024, o AlphaGenome é visto como mais um passo rumo a uma nova era da biologia assistida por inteligência artificial.

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