A União Europeia poderá vir a criar uma força militar de reação rápida com capacidade entre 80 mil e 100 mil militares para substituir, no futuro, a presença de tropas norte-americanas no continente. A proposta foi apresentada pelo comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, numa entrevista ao POLITICO, concedida à margem da Munich Security Conference, em Munique.
Kubilius defendeu que a Europa precisa de ganhar capacidade própria de intervenção militar e clarificou o conceito em discussão: “O que estamos a falar é de uma força de reação rápida com capacidade para 80 mil ou 100 mil militares, que deverá substituir as forças americanas”, caso os Estados Unidos venham a reduzir o seu destacamento permanente na Europa.
Expressão “exército europeu” continua a gerar divisões
O responsável afastou, contudo, a designação de “exército europeu”, reconhecendo que o termo é rejeitado em vários países e provoca divergências políticas dentro das próprias instituições europeias. “Precisamos de clareza sobre aquilo de que estamos a falar, porque o título ‘exército europeu’ tem um peso histórico e, por vezes, é enganador”, explicou.
Recordando as origens do conceito nos anos 1950, quando se equacionava uma força supranacional que substituísse os exércitos nacionais no pós-Segunda Guerra Mundial, Kubilius mostrou-se cético quanto a esse modelo. “Se me perguntassem se quero criar um exército europeu como o dos anos 1950, abandonando os exércitos nacionais, diria que seria bastante cético, pelo menos neste momento”, afirmou.
Mais investimento e menos dependência das garantias americanas
Antigo primeiro-ministro da Lituânia, o comissário tem insistido na necessidade de a Europa reforçar a sua preparação face à ameaça russa e à dependência das garantias de segurança dos Estados Unidos. Nesse sentido, já defendera recentemente uma mudança na estratégia de investimento: “Precisamos de começar a investir o nosso dinheiro de forma a conseguirmos combater como Europa, e não apenas como um conjunto de 27 ‘exércitos bonsai’ nacionais.”
A proposta não é consensual. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, manifestou reservas, classificando a ideia como “extremamente perigosa”, por poder enfraquecer a NATO. Esse contexto levou Kubilius a optar pela designação de “força de reação rápida”, evitando associações a uma estrutura militar única e permanente.
Desafios de comando e proposta de conselho de segurança europeu
Mesmo reconhecendo a necessidade estratégica, o próprio comissário admitiu dificuldades operacionais. Uma força controlada pelos Estados-membros poderá enfrentar entraves na coordenação, tornando mais difícil uma resposta “rápida e coerente”. Kubilius não esclareceu se este contingente integraria formalmente a NATO, mas sublinhou que a Europa deverá continuar a contar com a aliança atlântica.
Para ultrapassar problemas de liderança política e militar, sugeriu ainda a criação de um Conselho Europeu de Segurança, composto por cinco ou seis grandes países da União, possivelmente com a participação do Reino Unido, além de Estados de menor dimensão em regime rotativo, bem como representantes do Conselho e da Comissão. Na sua perspetiva, esse órgão “pode ser a resposta” para garantir direção estratégica e decisões mais céleres.
O debate abre assim um novo capítulo na discussão sobre a autonomia estratégica europeia, num momento em que Bruxelas procura preparar-se para um cenário em que a proteção militar dos Estados Unidos deixe de ser garantida nos moldes atuais.




