A Bulgária vive há mais de uma semana sob o impacto de um caso descrito pelas autoridades como sem precedentes. O que começou com a descoberta de três corpos num refúgio de montanha incendiado evoluiu para um cenário ainda mais perturbador, envolvendo uma ONG ambientalista e um alegado encadeamento de homicídios e suicídios.
Segundo o jornal espanhol ‘El País’, no passado domingo foram encontrados mortos a tiro três suspeitos de um triplo homicídio cometido dias antes numa cabana de montanha. Os corpos — dois homens de 51 e 22 anos e um adolescente de 15 — estavam dentro de uma carrinha nos Montes Balcãs Ocidentais, no noroeste do país.
A descoberta ocorreu apenas seis dias depois de terem sido encontrados os cadáveres de outros três homens, de 45, 49 e 51 anos, no pátio incendiado de um refúgio privado na montanha, localizado a cerca de 80 quilómetros do local onde foi encontrada a carrinha.
Autoridades falam em crime “sem precedentes”
“Estamos perante a investigação de um crime sem precedentes, pelo menos para a Bulgária”, declarou Zahari Vaskov, chefe da polícia, em conferência de imprensa junto ao Monte Okolchitsa.
O procurador-geral interino Borislav Sarafov foi ainda mais longe na descrição do caso. “A vida aqui proporcionou-nos detalhes mais chocantes do que ‘Twin Peaks’”, afirmou, numa referência à série americana, centrada na investigação de um homicídio numa pequena cidade. A comparação levou os media a apelidar o caso de “Twin Peaks búlgaro”.
Indícios apontam para suicídios encadeados
De acordo com o ‘El País’, o Ministério Público revelou que todos os indícios recolhidos apontam para suicídio em quatro das seis mortes, enquanto duas pessoas, incluindo o jovem de 15 anos, terão sido assassinadas.
Segundo os resultados preliminares das autópsias aos três corpos encontrados na carrinha, terão ocorrido dois homicídios consecutivos seguidos de suicídio. Os disparos terão sido efetuados a partir do interior do veículo.
No caso das três vítimas encontradas no refúgio incendiado, não foram detetados sinais de luta ou trauma além dos ferimentos de bala. A procuradora-adjunta Natalia Nikolova indicou que os homens apresentavam lesões compatíveis com disparos à queima-roupa na cabeça, reforçando a hipótese de suicídio.
ONG ambiental no centro da investigação
Quatro dos seis mortos — os três encontrados na cabana e um dos que estavam na carrinha — pertenciam à ONG Agência Nacional de Controlo de Áreas Protegidas. A organização colaborava com o Ministério do Ambiente desde a sua fundação, em 2022, até ao verão passado.
As atividades da ONG centravam-se no combate à extração ilegal de madeira em florestas virgens e na organização de campos de férias para jovens com foco na conservação da natureza.
Segundo o ‘El País’, um familiar de uma das vítimas afirmou que, nas últimas semanas, havia sinais de “grave instabilidade mental dentro da ONG”, alegadamente devido a dificuldades nas relações com o Estado e com patrocinadores. Terá mesmo sido mencionada a morte como solução para os problemas enfrentados.
Incêndio, cães abatidos e especulações nas redes sociais
As imagens das câmaras de segurança do refúgio mostram os seis indivíduos juntos até à manhã de 1 de fevereiro. Três deles saíram então numa carrinha, enquanto os restantes permaneceram na cabana antes de a incendiarem.
Fontes do Ministério do Interior indicam que as gravações mostram três homens a disparar sobre os cães, a espalhar líquido inflamável e a atear o fogo antes de abandonarem o campo de visão da câmara.
O caso desencadeou uma onda de especulação nas redes sociais, incluindo suspeitas infundadas de ligação a um culto. O chefe interino da Agência Estatal de Segurança Nacional revelou que a ONG chegou a ser acusada de abuso sexual de menores e suspeita de funcionar como “estrutura paramilitar”, devido às armas encontradas. No entanto, a denúncia foi posteriormente retirada e as munições eram legais, informação avançada pela agência ‘Novinite’.
Num país pouco habituado a crimes desta natureza, o chamado “Twin Peaks búlgaro” continua a gerar perplexidade e a levantar questões sobre o que realmente aconteceu nos Montes Balcãs Ocidentais.




