Todos os países que Trump atacou ou ameaçou no seu tumultuoso segundo mandato

Regresso de Trump ao poder tem sido marcado por uma política externa musculada, com operações militares em vários continentes, apreensão de navios petroleiros e a captura de Nicolás Maduro

Francisco Laranjeira
Janeiro 19, 2026
17:31

Quando Donald Trump iniciou o seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, voltou a prometer que colocaria “a América em primeiro lugar”, uma mensagem que muitos apoiantes do movimento MAGA interpretaram como um afastamento do intervencionismo militar prolongado no estrangeiro.

A própria Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no ano passado, defendia que os assuntos de outros países só deveriam preocupar Washington quando ameaçassem diretamente os interesses americanos.

Na prática, porém, o regresso de Trump ao poder tem sido marcado por uma política externa musculada, com operações militares em vários continentes, apreensão de navios petroleiros e a captura de Nicolás Maduro, que levou à queda do regime venezuelano. De acordo com o ‘The Independent’, esta escalada tem provocado inquietação crescente entre aliados e adversários, sobretudo na Europa.

Da promessa isolacionista à ação militar global

À semelhança de vários presidentes americanos ao longo das últimas décadas, Trump autorizou ataques em África e no Médio Oriente, juntando-se a uma longa lista que inclui Biden, Obama, Clinton, os dois Bush e Ronald Reagan. O que distingue o atual mandato é a amplitude geográfica e a retórica associada, com novos focos de tensão fora dos teatros tradicionais.

Entre os alvos mais frequentes estão o Iraque, a Somália, o Iémen, a Síria e o Irão, em operações justificadas pela Casa Branca como parte da luta contra o terrorismo ou como resposta a ameaças diretas aos interesses dos Estados Unidos. Paralelamente, a administração americana intensificou a pressão sobre a América Latina, culminando na operação que levou à detenção de Maduro.

Gronelândia alarma aliados europeus

É, no entanto, a insistência de Trump em assumir o controlo da Gronelândia que está a gerar maior preocupação entre os aliados europeus. O território semiautónomo pertence ao Reino da Dinamarca, membro da NATO, e as ameaças do presidente americano — que não exclui o uso da força — são vistas como uma rutura grave com a ordem transatlântica.

Segundo Aurélien Colson, diretor académico do Instituto de Geopolítica e Negócios da ESSEC Business School, ouvido pelo ‘The Independent’, a política externa de Trump assenta numa lógica de “perturbação transacional” em vez de liderança estratégica. O académico sublinha que a Estratégia de Segurança Nacional expõe a intenção de minar a União Europeia enquanto ator político e estratégico, evocando uma visão de esferas de influência reminiscentes da Doutrina Monroe, agora ironicamente rebatizada pelo próprio Trump como “Doutrina Donroe”.

Bravata, poder personalizado e erosão das alianças

Apesar das declarações e de algumas ações sem precedentes, Colson considera que parte significativa do comportamento de Trump pode ser interpretada como bravata política. Na sua análise, as decisões são menos orientadas por uma estratégia geopolítica coerente e mais por uma combinação de narcisismo político, sinalização para consumo interno e interesses financeiros pessoais.

Este modelo, acrescenta, não procura uma ordem internacional estável, mas antes um sistema em que o poder é personalizado, os acordos são opacos e a lealdade se sobrepõe às regras. As consequências, alerta, são negativas tanto para países diretamente afetados, como a Ucrânia, como para os próprios Estados Unidos, cujas alianças se fragilizam e cuja credibilidade internacional se deteriora.

África e Médio Oriente no centro das operações

Na Somália, Trump intensificou drasticamente os ataques contra o Estado Islâmico e o grupo Al-Shabab. Segundo dados do think tank ‘New America’, já foram lançados mais de 130 ataques desde o início do segundo mandato, superando o total combinado das administrações Bush, Obama e Biden. As operações coexistem com uma retórica dura contra os imigrantes somalis, que gerou forte controvérsia interna.

No Iraque e na Síria, os Estados Unidos mantêm campanhas aéreas direcionadas contra figuras de topo do Estado Islâmico, enquanto no Iémen bombardearam posições dos rebeldes houthis após ataques a navios no Mar Vermelho. No Irão, Washington chegou a intervir diretamente contra instalações nucleares, antes de aceitar um cessar-fogo frágil que não eliminou as tensões de fundo.

Venezuela como ponto de viragem

A operação que levou à captura de Nicolás Maduro representa um dos episódios mais marcantes deste mandato. As ações militares, oficialmente justificadas como combate ao narcotráfico, foram criticadas por organismos internacionais como execuções extrajudiciais. Após a queda do regime, Trump anunciou que os Estados Unidos passariam a controlar a venda de petróleo venezuelano, num movimento com claras implicações económicas e geopolíticas.

Apesar de Washington afirmar que não está em guerra com a Venezuela, o próprio presidente admitiu não excluir o envio de tropas terrestres, alimentando receios de novas escaladas na região.

Novos alvos no horizonte

O México, Cuba e a Colômbia surgem como potenciais próximos focos de tensão. Trump tem criticado duramente o Governo mexicano por falhas no combate aos cartéis e na gestão da migração, enquanto altos responsáveis da sua administração sugerem que Havana enfrenta um momento particularmente delicado após a queda de Maduro. A Colômbia, governada por Gustavo Petro, também foi alvo de ameaças diretas por parte do presidente americano.

Canadá e a ideia do “51º estado”

As declarações de Trump sobre a eventual anexação do Canadá, ainda que enquadradas como pressão económica e não militar, provocaram forte reação no país. O presidente americano voltou a ameaçar tarifas e insistiu que o Canadá deveria tornar-se o “51º estado” dos EUA, comentários que alimentaram boicotes a produtos americanos e um agravamento do clima político bilateral.

“América isolada” em vez de “América primeiro”

Para os críticos, o saldo desta política externa é claro. Longe de reforçar a posição global dos Estados Unidos, o segundo mandato de Trump parece estar a conduzir o país para um isolamento progressivo, com aliados desconfiados e rivais estratégicos fortalecidos. Como resume Aurélien Colson, o resultado final aproxima-se cada vez mais de uma “América isolada”, menos capaz de moldar as regras do sistema internacional que durante décadas liderou em seu próprio benefício.

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