Teremos mercado para a explosão de eléctricos?

Os veículos eléctricos tornar-se-ão tão baratos como os veículos a combustível em 2022, mesmo sem isenções ou incentivos fiscais. Mas será que os clientes farão a escolha racional?

Por Adele Peters, colaboradora da Fast Company

Os veículos eléctricos continuam a representar uma pequena fracção da venda total de veículos. Em 2018, as vendas mais que duplicaram. Em 2022, segundo o relatório recente da Deloitte, chegarão a um ponto crítico: ter um veículo eléctrico será tão barato como um a combustível, e as vendas aumentarão mais depressa. «Em 2022, acreditamos que atingirão a paridade dos custos com os veículos a gasolina ou gasóleo, independentemente dos incentivos», afirma Jamie Hamilton, director de Estratégia Automóvel no Reino Unido da Deloitte. Em certos mercados, graças aos incentivos, já atingiram esse ponto. Os números têm em conta o custo total de um veículo – ou seja, não apenas o seu preço, mas a diferença entre carregar um automóvel eléctrico todos os anos e encher o depósito de gasolina ou gasóleo.

Para quem vive no Reino Unido, Alemanha, França, Holanda ou Noruega, um eléctrico já é mais vantajoso, de acordo com outro relatório do Conselho Internacional para os Transportes Limpos. Comparou-se um Volkswagen Golf eléctrico com as versões híbridas, a gasolina e a gasóleo durante quatro anos, e descobriu-se que a versão eléctrica era mais barata nesses países graças a subsídios e incentivos fiscais, juntamente com a poupança em combustível. A diferença é maior na Noruega.

Ainda assim, mesmo com os custos a descerem em todo o lado, a Deloitte prevê que o preço de venda dos veículos eléctricos demore o seu tempo a descer. «Os clientes terão de ter em conta o custo de ter um veículo eléctrico, como os custos de manutenção, para considerarem a aquisição», afirma Hamilton. «Cabe aos retalhistas e fabricantes ajudarem a comunicar isto.» O relatório da Deloitte sugere que as vendas dos eléctricos irão começar a crescer rapidamente em 2022 e que, em 2024, representarão 10% das vendas totais de automóveis, enquanto a de automóveis a combustíveis fósseis irá descer. Em 2030, tendo em conta que o custo das baterias continua a baixar, o relatório calcula que as vendas poderão atingir os 21 milhões de veículos no ano. Mas são menos 14 milhões de veículos eléctricos do que o sector tenciona fabricar; os investigadores da Deloitte acreditam que as vendas não estarão alinhadas com os investimentos que as fabricantes estão a fazer nos eléctricos.

A Volkswagen, que está a reduzir gradualmente os automóveis convencionais, está a gastar cerca de 45 mil milhões de euros em automóveis eléctricos e autónomos nos próximos cinco anos, e anunciou planos para investir 713 milhões de euros numa fábrica no Tennessee para dar início à produção de veículos eléctricos nos EUA. A Porsche revelou que deseja tornar metade da sua produção totalmente eléctrica em 2023; a Volvo quer que metade das suas vendas seja de automóveis eléctricos em 2025. A GM tenciona produzir 20 automóveis totalmente eléctricos em 2023. A Audi quer chegar aos 12 em 2025. A Mercedes-Benz planeia oferecer versões eléctricas de todos os seus automóveis em 2022. A Ford irá oferecer 16 veículos totalmente eléctricos nesse ano.

À medida que as fabricantes automóveis aumentam a produção, muitos governos estão também a fazer pressão pelo fim dos automóveis convencionais. A Noruega quer banir a venda de novos automóveis a gasolina e gasóleo em 2025. Índia, Irlanda, Israel e Holanda querem o mesmo em 2030. A Dinamarca está a propor uma proibição semelhante em 2030, e a proibição da venda de veículos híbridos em 2035. Tanto França como o Reino Unido querem banir a venda de automóveis a gasolina e gasóleo em 2040. A China indicou que quer agir, mas não definiu uma data. E embora estas proibições ainda não se tenham transformado em leis, muitos governos já oferecem subsídios, isenção de impostos e outros incentivos para veículos eléctricos.

Apesar destas transições, se as previsões da Deloitte estiverem correctas, os consumidores não compraram veículos eléctricos tão depressa como seria de esperar. Para além do preço mais alto, os investigadores citam as infra-estruturas de carregamento como outro desafio. «Para acelerar a adopção de veículos eléctricos, terá de existir uma implementação mais rápida e abrangente dos pontos de carregamento e que os custos iniciais destes veículos se tornem acessíveis», diz Hamilton, que sugere que as fabricantes poderiam melhorar as vendas através de diferentes modelos de aquisição, como novas opções de financiamento ou a capacidade de mudar de um automóvel eléctrico para um convencional no caso de uma viagem longa.

Se a transição não ocorrer rapidamente, é um problema para o planeta. Segundo as últimas estimativas, com a actual taxa de emissões, temos pouco mais que uma década até atingirmos o orçamento de carbono para manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 graus Celsius sem depender de uma enorme tecnologia ainda por existir que retire o carbono da atmosfera.

Este artigo foi publicado na edição de Março de 2019 da Executive Digest.

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