Tempestade Kristin obriga barragens a libertar água equivalente ao que é consumido em 3 anos em Lisboa

A passagem da tempestade Kristin obrigou à libertação controlada de cerca de 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras em apenas dois dias, numa operação de gestão de risco destinada a provocar cheias controladas em zonas agrícolas e a evitar inundações descontroladas.

Revista de Imprensa
Fevereiro 2, 2026
9:57

A passagem da tempestade Kristin obrigou à libertação controlada de cerca de 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras em apenas dois dias, numa operação de gestão de risco destinada a provocar cheias controladas em zonas agrícolas e a evitar inundações descontroladas. “Foi preciso libertar água para os campos agrícolas, para evitar cheias descontroladas”, explicou José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), sublinhando que o volume descarregado equivale a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa. “Estamos quase em guerra”, afirmou, descrevendo a complexidade do momento.

Em declarações ao Público, o responsável da APA explicou que a prioridade tem sido aumentar a capacidade de encaixe das albufeiras para acomodar nova precipitação já prevista a partir deste domingo e ao longo da semana, num contexto particularmente delicado após anos de seca que deram lugar a níveis de armazenamento muito elevados. As descargas preventivas, frisou, não começaram apenas com a tempestade Kristin, estando em curso “pelo menos há duas semanas”, após a sucessão de várias depressões, como Ingrid, Josef e Kristin, que reduziram a margem de manobra na gestão das bacias hidrográficas.

A situação é agravada por um conjunto de fatores acumulados, incluindo solos saturados, episódios de queda e degelo de neve na Serra da Estrela e os efeitos dos incêndios florestais do último Verão, sobretudo na região Centro. “O solo queimado é mais vulnerável. Não tem vegetação e escorre mais rapidamente para os rios”, explicou Pimenta Machado, apontando a Serra do Açor como exemplo de pressão adicional sobre o rio Alva e, por consequência, sobre o Mondego. “É um cocktail de circunstâncias”, resumiu.

O rio Mondego é uma das maiores preocupações, com descargas em curso nas barragens da Aguieira e das Fronhas para evitar que o caudal ultrapasse o limite de segurança de 2000 metros cúbicos por segundo a sul de Coimbra. Também no Douro e seus afluentes — como o Vouga, Águeda, Varosa, Távora e Tua — estão a ser feitas descargas preventivas, enquanto em Gaia a gestão do caudal do rio Douro tem em conta a conjugação com o pico das marés, sobretudo devido à Lua Nova, procurando aproveitar os períodos de vazante.

No Tâmega, os municípios de Amarante e Chaves exigem atenção redobrada, com a gestão coordenada das barragens do Torrão, Daivões e da Cascata do Tâmega em articulação com Espanha. Situações semelhantes verificam-se no Cávado, onde se baixou a albufeira da Caniçada, e nas bacias do Lima e Minho, com especial vigilância em Ponte da Barca e Monção. No Tejo, as descargas nas barragens do Zêzere, Castelo de Bode e Cabril visam evitar cheias a jusante, mantendo o caudal próximo dos 3000 m³ por segundo, enquanto no Sado se registou em Alcácer do Sal a primeira cheia em mais de 30 anos.

No Algarve, um cenário considerado excecional, as barragens estão cheias e o rio Arade provocou uma cheia em Silves, entretanto já regressado ao leito normal. Também no Alqueva foram realizadas descargas preventivas, entretanto suspensas. Apesar da preparação das autoridades, José Pimenta Machado alerta que “vai ser uma semana muito complexa”, com Proteção Civil, municípios e Exército no terreno e uma articulação permanente com Espanha, num esforço contínuo para minimizar riscos e proteger populações e infraestruturas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.