Um surto do vírus Nipah no estado indiano de Bengala Ocidental está a gerar crescente preocupação na Ásia, devido ao potencial de disseminação silenciosa e rápida, num cenário que evoca os primeiros momentos da pandemia da Covid-19. As autoridades de vários países reforçaram controlos sanitários em aeroportos e fronteiras, receando que cadeias de transmissão não detetadas possam permitir a expansão internacional do vírus, segundo a publicação búlgara ‘Novinite’.
A Tailândia iniciou rastreios a passageiros provenientes de Bengala Ocidental nos aeroportos de Suvarnabhumi, Don Mueang e Phuket, enquanto o Nepal adotou medidas semelhantes no aeroporto de Catmandu e nas fronteiras terrestres. Taiwan está a ponderar classificar o Nipah como doença de notificação obrigatória de Categoria 5, o nível mais elevado, o que implicaria comunicação imediata de casos e aplicação de medidas rigorosas de contenção.
Disseminação silenciosa e elevada letalidade
O atual surto foi detetado no início do mês, após cinco profissionais de saúde terem sido infetados em Bengala Ocidental, um dos quais permanece em estado crítico. Cerca de 110 contactos próximos foram colocados em quarentena, numa tentativa de travar a propagação do vírus, que pode transmitir-se entre humanos através de contacto próximo ou alimentos contaminados.
O vírus Nipah tem um período de incubação entre quatro e 21 dias, permitindo que pessoas infetadas circulem sem sintomas durante semanas. Esta característica, associada à transmissão interpessoal, é apontada por especialistas como um dos fatores que mais aproxima o Nipah do perfil de risco observado na Covid-19, sobretudo em contextos de elevada mobilidade e densidade populacional.
As taxas de mortalidade são particularmente elevadas, variando entre 40% e 75%, e não existe qualquer vacina ou tratamento aprovado. Estão a ser adquiridos anticorpos monoclonais, mas os stocks são limitados, o que expõe fragilidades significativas nos sistemas de saúde em caso de expansão do surto.
Doença grave e impacto prolongado
A infeção pode começar de forma pouco específica, com febre, dores de cabeça, dores musculares, vómitos e dor de garganta. Nos casos mais graves, evolui para pneumonia, insuficiência respiratória e encefalite, uma inflamação cerebral potencialmente fatal que pode causar convulsões, coma ou morte.
Mesmo entre os sobreviventes, são frequentes sequelas neurológicas de longo prazo, incluindo alterações de personalidade e crises epiléticas. Foram ainda registadas recaídas meses ou anos após a infeção inicial, reforçando a perceção de risco associada ao vírus.
Histórico de surtos e risco persistente
Identificado pela primeira vez na Malásia em 1998, o vírus Nipah causou então mais de uma centena de mortes e levou ao abate de cerca de um milhão de porcos, com impacto económico e social profundo. Desde 2001, o Bangladesh enfrenta surtos quase anuais, enquanto a Índia registou episódios graves em Bengala Ocidental e no estado de Kerala, incluindo surtos fatais em 2018 e 2023.
Apesar de os casos humanos continuarem concentrados no Sul e Sudeste Asiático, a Organização Mundial da Saúde classifica o Nipah como um patógeno prioritário, devido ao seu potencial epidémico e à elevada letalidade. Especialistas alertam que, num mundo altamente interligado, bastam poucos casos não identificados para desencadear uma propagação em larga escala.
Medidas que recordam a pandemia
O surto atual levou vários países asiáticos a adotar estratégias que lembram os tempos da Covid-19, incluindo rastreios rigorosos a viajantes, declarações obrigatórias de saúde e quarentenas preventivas. As autoridades recomendam evitar o consumo de frutas cruas ou mal lavadas, o contacto com morcegos frugívoros ou porcos e a proximidade com pessoas infetadas.
Na Índia, continuam os esforços para conter o surto, com profissionais de saúde hospitalizados em unidades de cuidados intensivos e investigações em curso para identificar centenas de potenciais contactos. Especialistas sublinham que a situação está, para já, sob controlo, mas alertam que qualquer falha pode permitir uma rápida disseminação do vírus, numa corrida contra o tempo que recorda os primeiros alertas ignorados no início da pandemia de Covid-19.

















