Stellantis investe 13 mil milhões de dólares para recuperar clássicos americanos Jeep e Dodge nos EUA

A Stellantis decidiu redefinir a sua estratégia na América do Norte e avançar com um investimento de 13 mil milhões de dólares para recuperar as marcas Jeep e Dodge, pilares históricos do grupo no mercado norte-americano, após um ciclo prolongado de quebra nas vendas, agravado por aumentos de preços e excesso de produção.

Pedro Gonçalves
Janeiro 28, 2026
18:27

A Stellantis decidiu redefinir a sua estratégia na América do Norte e avançar com um investimento de 13 mil milhões de dólares para recuperar as marcas Jeep e Dodge, pilares históricos do grupo no mercado norte-americano, após um ciclo prolongado de quebra nas vendas, agravado por aumentos de preços e excesso de produção.

Segundo o Financial Times, a recuperação do mercado norte-americano tornou-se crucial para o grupo automóvel europeu, formado a partir da fusão entre a Fiat Chrysler e o grupo francês PSA, numa altura em que enfrenta uma desaceleração global das vendas, concorrência crescente de fabricantes chineses e custos elevados associados à transição para os veículos elétricos.

Sete anos de queda nas vendas nos EUA colocaram pressão sobre o grupo
Na fábrica de Jefferson, em Detroit, robôs industriais e trabalhadores produzem modelos como o Jeep Grand Cherokee e o Dodge Durango a um ritmo de um veículo a cada 54 segundos. Juntamente com as carrinhas Ram, estas marcas representam a espinha dorsal da operação da Stellantis na América do Norte, região que, em 2024, foi responsável por 45% das receitas globais do grupo — mais do que qualquer outro mercado, incluindo a Europa.

Apesar desse peso estratégico, a Stellantis atravessou um período de sete anos consecutivos de declínio nas vendas nos Estados Unidos. Analistas apontam que este desempenho negativo foi intensificado por uma estratégia que privilegiou o aumento dos preços e a expansão da produção, afastando consumidores e criando níveis elevados de stock nos concessionários.

Estratégia anterior perdeu competitividade e apelo emocional
Ed Kim, presidente da consultora AutoPacific, considera que, ao longo da última década, as marcas da Stellantis “perderam não só competitividade em preço, mas também a sua vantagem tecnológica, a reputação em termos de inovação e grande parte do apelo emocional junto dos consumidores”.

Segundo o analista, sob a liderança do anterior diretor executivo Carlos Tavares, o grupo tentou maximizar os lucros da operação norte-americana através de preços mais elevados e volumes de produção acrescidos. A estratégia acabou por falhar, deixando os concessionários com inventários excessivos de veículos considerados caros, numa fase em que os consumidores demonstraram resistência às propostas elétricas do grupo.

Nova liderança corta preços e ajusta produção
O atual diretor executivo, Antonio Filosa, avançou rapidamente para responder às preocupações dos concessionários, reduzindo preços e ajustando os níveis de produção para normalizar os inventários. Paralelamente, reorientou a oferta para responder às preferências do consumidor médio norte-americano.

Entre as decisões tomadas está o abandono da aposta nos híbridos plug-in e o regresso de modelos populares, como o Jeep Cherokee, cuja produção tinha sido interrompida durante a anterior gestão. Filosa, de 52 anos, natural de Nápoles, foi igualmente elogiado pela reintrodução do motor V8 “Hemi” de 5,7 litros na carrinha Ram 1500, uma motorização com forte aceitação no mercado norte-americano.

À margem do Salão Automóvel de Detroit, Filosa afirmou que a decisão da administração Trump de aliviar as normas de eficiência energética nos Estados Unidos abriu espaço para oferecer aos clientes uma maior “liberdade de escolha”, permitindo impulsionar o crescimento das vendas.

Tim Kuniskis, antigo responsável pelas marcas Dodge e Ram, regressado da reforma para liderar as marcas norte-americanas da Stellantis, reforçou essa abordagem, sublinhando que a empresa pretende “escolher aquilo que os clientes querem”.

“Se o cliente diz que não quer uma carrinha elétrica a bateria, ainda bem que temos uma alternativa”, afirmou.

Regresso aos modelos clássicos agrada, mas levanta riscos
Sean Tucker, editor executivo da Kelley Blue Book, considera que Filosa e Kuniskis “tomaram boas decisões ao regressar ao essencial”. Segundo o especialista, os modelos que atualmente estão a vender melhor são “o Durango, o Grand Cherokee e a Ram, nomes que os americanos já conheciam há 25 anos”.

Ainda assim, alerta para o risco de a Stellantis se tornar demasiado eficaz a produzir veículos que correspondiam às preferências de há uma década, mas que podem não responder às exigências do futuro. Tucker recorda que uma eventual mudança política após as eleições presidenciais de 2028 poderá alterar novamente o enquadramento regulatório, deixando o grupo vulnerável.

Primeiros sinais de recuperação nas vendas
Os números mais recentes apontam para um início de recuperação. No quarto trimestre de 2025, as vendas da Stellantis nos Estados Unidos cresceram 4% em termos homólogos. A Jeep conseguiu ainda inverter uma sequência de seis anos consecutivos de quedas anuais, encerrando 2025 com um aumento de 1% nas vendas, após uma série de reduções de preços.

Sean Hogan, presidente do Conselho Nacional de Concessionários da Stellantis nos EUA, afirmou que a nova liderança está a corrigir o “desalinhamento” entre a empresa e os consumidores norte-americanos. “O consumidor dos EUA não gosta que lhe digam o que comprar. Gostamos de ter opções, isso faz parte do nosso individualismo”, afirmou.

Plataforma flexível dá vantagem face a Ford e GM
Ed Kim sublinha que a atual estratégia de “liberdade de escolha” beneficia de uma decisão tomada pela anterior gestão: o desenvolvimento de uma arquitetura multi-energia, que permite produzir, na mesma plataforma, veículos com motor de combustão, híbridos e elétricos.

Essa flexibilidade coloca a Stellantis numa posição mais favorável para responder a mudanças rápidas no comportamento dos consumidores e nas políticas públicas, sobretudo quando comparada com rivais de Detroit como a Ford e a General Motors, que investiram milhares de milhões em plataformas exclusivamente elétricas e acabaram por registar imparidades próximas de 30 mil milhões de dólares.

Segundo Kim, esta abordagem também permitiu à Stellantis avançar mais cedo com carrinhas híbridas de autonomia alargada nos EUA e equilibrar o desenvolvimento de modelos a nível global, acompanhando o ritmo mais acelerado da eletrificação na Europa.

Preocupações na Europa com impacto do investimento nos EUA
Apesar dos sinais positivos na América do Norte, começam a surgir preocupações na Europa quanto ao impacto do investimento de 13 mil milhões de dólares nos Estados Unidos sobre a capacidade produtiva e o emprego no continente europeu.

Antonio Filosa, que mantém o cargo de diretor de operações na América do Norte e reside em Michigan, tem sido crítico das propostas da União Europeia para flexibilizar a proibição de veículos a gasolina a partir de 2035, considerando-as insuficientes para estimular o crescimento no mercado europeu.

Para os concessionários norte-americanos, no entanto, o regresso de motores V8 e de modelos a combustão e híbridos populares não representa um retrocesso, mas sim uma estratégia de sobrevivência comercial. “Se não for competitivo agora, perde estes clientes”, afirmou Sean Hogan. “Recuperá-los mais tarde, mesmo com melhor tecnologia, seria extremamente difícil.”

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