“Sou um mero bode expiatório, fui demitida pela televisão por dois ministros num processo ilegal e continuo em funções sem guidelines”, acusou esta terça-feira Christine Ourmières-Widener, CEO da TAP, que está a ser ouvida no âmbito da comissão parlamentar de inquérito à companhia aérea, após ter contestado a exoneração anunciada pelo Governo, que foi informada formalmente da demissão “durante a conferência de imprensa”.
“Tive uma reunião na véspera com Fernando Medina, que me disse que ‘a situação era complicada’, mas sem indicar que seria despedida no dia seguinte”, revelou, avançando que recebeu o pré-aviso “mais de uma semana depois”.
A polémica saída de Alexandra Reis da TAP, assim como a indemnização de meio milhão de euros, levou a uma remodelação no Governo, à exoneração dos presidentes da companhia e à criação de uma comissão parlamentar de inquérito à tutela política da gestão da TAP. Uma saída que, indicou a CEO, foi decidida porque havia um “desalinhamento” com a estratégia da comissão executiva.
“Não havia nada de pessoal nesta decisão. Foi uma coisa muito profissional, mas que gerou tensão”, indicou, garantindo que o tema foi alvo de discussão com o conselho de administração.
A CEO sublinhou que Alexandra Reis “era uma boa profissional, tivemos discussões construtivas, mas precisávamos de tomar decisões, não podíamos ficar para trás e propus uma mudança na organização após seis meses para melhorar a performance da empresa”.
CEO apresentou ‘timeline’ da polémica saída de Alexandra Reis
A decisão foi tomada a 4 de janeiro – a 18 de janeiro foi enviado para o Ministério das Infraestruturas e Habitação uma proposta de reorganização da administração, sendo que no dia seguinte a CEO terá informado o presidente do conselho de administração e o CFO, Gonçalo Pires, sobre a reorganização. “A 25 de janeiro falei com Alexandra Reis para ver se estaria disponível para sair e em que condições”, explicou.
“No dia 2 de fevereiro de 2022, recebi uma mensagem de Hugo Mendes [então secretário de Estado] a informar que o ministro [Pedro Nuno Santos] autorizou”, e onde pediu que “fechasse o acordo”, afirmou a CEO. “Não sabia que não havia coordenação entre o Ministério das Infraestruturas e Habitação e o Ministério das Finanças, tão-pouco sabia que o Ministério das Infraestruturas não tinha poder para aprovar este acordo, bem como não sabia que havia um risco legal, naquela altura”, acrescentou a responsável.
Christine Ourmières-Widener referiu ainda que na última reunião, na presença da chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, foram discutidos todos os detalhes do acordo de saída de Alexandra Reis: desde o valor inicial, às propostas e contra-propostas, bem como o valor que Pedro Nuno Santos terá considerado não ser aceitável. O secretário de Estado Hugo Mendes terá indicado o valor máximo que podia ser pago a Alexandra Reis: 500 mil euros.
“A ideia que recebi foi que Alexandra Reis teria direito à sua remuneração até ao final do mandato, uma quantia muito elevada – 1,5 milhões de euros, sem as férias”, elucidou a responsável, sobre o processo de saída. “A ideia era chegar a acordo com Alexandra Reis e essa opção nem sequer foi estudada. Essa solução teve luz verde dos serviços jurídicos mas não seguimos em frente. Ela assinou um acordo e depois renunciou. O que fizemos foi de boa-fé porque, muito sinceramente, naquele contexto, nem sequer era um assunto.”
Envolvimento do CFO, Gonçalo Pires, na saída da ex-governante foi alvo das questões dos deputados
Recorde-se que a investigação da Inspeção-Geral de Finanças (IGF) apontou que a decisão de afastar Alexandra Reis não passou pela comissão executiva nem pelo conselho de administração, sendo que o chairman da TAP, Manuel Beja, só soube dos termos da saída de Alexandra Reis no dia em que o acordo foi assinado com a então administradora.
Christine Ourmières-Widener pediu autorização do Ministério das Infraestruturas e Habitação, em janeiro do ano passado, para substituir Alexandra Reis. A CEO da TAP alegou “divergências profissionais irreconciliáveis”, que podiam pôr em causa o plano de reestruturação da companhia.
Aliás, várias pessoas sabiam: a partir de fevereiro, o conselho de administração, assim como o departamento jurídico da TAP, todos sabiam “Ninguém pensou que este processo seria hoje visto como um processo potencialmente ilegal”.
O envolvimento de Gonçalo Pires, CFO da TAP, e que já foi ouvido em comissão parlamentar, também mereceu a atenção dos deputados. “Estava a par da reorganização da comissão executiva. Sabia que havia discussões para a saída de Alexandra Reis quando fechámos o processo”, revelou Christine Ourmières-Widener, mas sem “confirmar que soubesse do valor” da indemnização.
Pressão política do Governo tornava desempenho da TAP “muito difícil”
A Iniciativa Liberal inquiriu a responsável sobre um email no qual era pedido que a TAP alterasse um voo onde vinha o Presidente da República. A CEO pediu instruções ao secretário de Estado Hugo Mendes, que mostrou-se aberto à possibilidade. “Não podemos correr o risco de perder o apoio político do Presidente da República”, escreveu o governante. “Mas se o seu humor muda tudo está perdido. Uma frase sua contra a TAP/ o Governo e o resto do país fica contra nós. Não estou a exagerar. É o nosso maior aliado mas pode tornar-se no nosso maior pesadelo”, ilustrou.
A TAP acabou por não mudar qualquer voo. “O Presidente encontrou uma solução. Ele nunca pediria para mudar um voo porque teria impacto noutras pessoas. Fiquei muito contente com o resultado”, afirmou a responsável, que sublinhou que a pressão política do Governo na TAP era um obstáculo.
“Não esperava uma pressão política tão grande quando entrei em junho de 2021. Era muito difícil gerir a empresa, ainda é. Toda a gente quer criticar. Com a pressão política e dos media tem sido difícil para mim e para a minha equipa focarmo-nos no trabalho do dia a dia”, finalizou.
TAP: Comissão de inquérito arranca hoje centrada na indemnização a Alexandra Reis














