José Sócrates acusou esta segunda-feira o Ministério Público (MP) de agir de forma diferente conforme o partido no poder: num artigo de opinião publicado no ‘Diário de Notícias’, o ex-primeiro-ministro recordou como, em novembro de 2023, a Justiça avançou para um processo-crime contra António Costa “com fundamentos que ainda hoje não se conhecem exatamente”. “O Governo caiu, a maioria absoluta esfumou-se e cinco meses depois a direita regressava ao poder. Um golpe perfeito”, apontou.
No entanto, assegurou, a atuação foi diferente no caso de Luís Montenegro. “O país ficou a saber que o atual primeiro-ministro recebeu avenças de grupos privados durante todo o tempo em que exerceu funções — e o Ministério Público não abriu nenhuma investigação”, indicou.
“As avenças provocarão uma crise política, isso é certo”, apontou José Sócrates. “Não são apenas as avenças, mas a motivação política por detrás das investigações criminais: contra os Governos socialistas, toda a violência; contra os Governos do PSD, toda a compreensão.”
José Sócrates recordou ainda Pedro Passos Coelho, insinuando que o Ministério Público do Brasil transmitiu às autoridades portuguesas “a suspeita” de que o antigo primeiro-ministro “tinha uma campanha política capitaneada por André Gustavo Vieira da Silva”, numa referência a um “‘saldo’ de pagamentos pendentes na obra da barragem portuguesa do Baixo-Sabor”, que podem “ter sido pagos ‘por fora’ a André Gustavo Vieira da Silva como remuneração dos serviços de marketing eleitoral e publicidade prestado ao PSD na eleição para o cargo de primeiro-ministro de Portugal”.
O ex-primeiro-ministro socialista lamenta que “esta suspeita, concreta e definida, nunca foi investigada”. “Passaram dez anos, mas o comportamento é o mesmo: as avenças não merecem investigação”, referiu, concluindo: esta é “também a crise da dupla moral das instituições penais: de um lado investiga-se tudo, do outro encobre-se tudo. O critério para distinguir uma da outra é a política”.














