Segundo período do ano letivo arranca hoje. Escolas reabrem com menos 310 professores do que em dezembro

O segundo período do ano letivo 2025/2026 arranca esta segunda-feira com uma redução significativa no número de docentes disponíveis: 310 professores a menos em relação ao final do primeiro período, devido a aposentação.

Pedro Gonçalves
Janeiro 5, 2026
6:30

O segundo período do ano letivo 2025/2026 arranca esta segunda-feira com uma redução significativa no número de docentes disponíveis: 310 professores a menos em relação ao final do primeiro período, devido a aposentação.

Este valor refere-se apenas aos docentes subscritores da Caixa Geral de Aposentações (CGA), podendo ser ainda mais elevado, uma vez que os dados da Segurança Social não são públicos. O fenómeno das reformas continua a ser um dos principais fatores da falta de professores, gerando preocupação crescente entre a comunidade educativa.

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), os próximos meses podem agravar a situação: “O ano continuará a ser ensombrado pelo agravamento da escassez de professores”, disse ao Diário de Notícias (DN).

O responsável alerta que a carência de docentes não se limitará às regiões mais afetadas atualmente — Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve —, podendo expandir-se a outras zonas. Filinto Lima defende que cabe ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) “criar estratégias para valorizar e dignificar a carreira docente, de modo a atrair jovens para a profissão”.

Além dos professores, o dirigente destaca a necessidade de reforço de terapeutas, mediadores linguístico-culturais, técnicos especializados e assistentes operacionais, elementos essenciais para melhorar a qualidade das aprendizagens e da Escola Pública.

Para Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública (MEP), o cenário para 2026 não é animador: “Ano novo, problemas velhos”, resumiu. A responsável aponta que, mesmo após dois anos de legislatura, não se registaram mudanças significativas nas escolas, criticando o que considera um “discurso público propagandista” em contraste com a realidade diária.

Mota acusa o MECI de implementar “medidas avulsas”, inicialmente temporárias, mas que acabam por se instalar, contribuindo para o desgaste da profissão, a perda de atratividade da carreira e o agravamento do declínio da escola pública. A MEP alerta ainda que a redução das exigências para o acesso à docência, já iniciada em 2023, poderá aprofundar-se, com a admissão de docentes não profissionalizados, sobretudo no 1.º ciclo, e diminuição dos requisitos de habilitação.

No ensino privado, os desafios são similares. João Trigo, diretor do Colégio Efanor, em Matosinhos, considera que 2026 será marcado por mudanças constantes num contexto de “complexidade, desigualdades e perda da cultura escolar”.

Segundo Trigo, a falta de professores é a principal preocupação, partilhada por escolas públicas e privadas. Ele critica ainda os concursos lançados pelo MECI após o início do ano letivo, que geram instabilidade ao retirar docentes de turmas já em funcionamento para suprir carências noutras escolas: “É difícil de compreender num sistema tutelado pelo mesmo ministério”.

O especialista em Psicologia Organizacional e da Educação, Alfredo Leite, fundador da Mundo Brilhante, alerta que a escassez de docentes acarreta impactos significativos na saúde mental de professores e alunos.

Sem mudanças estruturais, Leite prevê que 2026 traga “mais instabilidade de horários e mais desigualdade silenciosa”. “A falta de professores não é apenas um problema logístico, é um problema emocional”, explica, acrescentando que a ausência de adultos estáveis aumenta ansiedade, indisciplina e conflitos, gerando mais burnout entre quem permanece no sistema. O especialista alerta ainda para o aumento da atenção dada aos smartphones em sala, que prejudica a atenção sustentada e o autocontrolo, essenciais ao processo educativo.

Segundo o Estudo de diagnóstico de necessidades docentes 2025-2034, da Nova School of Business and Economics, dos cerca de 122 mil professores em funções em 2024/2025, apenas 76 mil deverão permanecer ativos em 2034/2035, representando a perda de mais de um terço do corpo docente em dez anos.

O estudo estima que até 2029/2030 serão necessários 20 mil novos professores e, até 2034/2035, cerca de 38 mil, exigindo um recrutamento anual de aproximadamente 3.800 docentes.

O 3.º ciclo e o Ensino Secundário serão os mais afetados, com carências críticas em Português, Matemática e Física e Química. Em termos regionais, o Norte e Centro enfrentarão maiores dificuldades, com 43% dos docentes do Centro e 39% do Norte a reformarem-se até 2035, superando Lisboa, Alentejo e Algarve.

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