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Randstad Insight: Conforto e confiança

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

A ignorância do conforto e da confiança. Conforto de quem se esquece do que temos, que desvaloriza o que dá por adquirido e que deseja sempre mais. Uma fome que motiva mas que esquece por vezes o básico, o mais elementar. A confiança de quem acredita que a ciência resolve, que vai passar, que são notícias de jornais e que a China fica muito longe da minha porta de casa.

Hoje tudo mudou. E mudou tão rapidamente e de tal forma que não posso arriscar a descrever o que hoje vivemos porque quando estiver a ler este artigo provavelmente uma parte não será verdade. Mas há verdades que vão ficar e que sobrevivem ao tempo:

1. Entramos na era do “re”
Vamos ter de reagir, que repensar, que reinventar o que tínhamos por garantido. Vamos re-equilibrar as nossas vidas e compreender como responder ao tempo não deixando que este vírus nos mate e nos tire a vida. E nada será como dantes, não poderá ser, tudo vai ser “re”.

2. A tecnologia humaniza
A tecnologia permitiu-nos fechar as portas e janelas e deixar entrar a nossa família e amigos. A sala transformou-se em escritórios onde os colegas de trabalho comunicam na mesma largura de banda que o professor. A voz ganhou imagem e a comunicação tenta fazer esquecer as saudades do toque e da presença. Por vezes agudiza, falta aquele abraço mas a tecnologia consola e disfarça a solidão, garante que não nos mata, garante que as empresas não morrem e que podem continuar para responder a este inimigo que é invisível.

3. A vida é mais do que respirar
Viver é ter um propósito, é trabalhar, é amar, é sentir. Esta pandemia está a querer acabar com tudo e a reduzir a vida à sobrevivência. Mas não vamos deixar, somos muito mais fortes do que este vírus. Vamos garantir que não acaba com os empregos, que protege os mais frágeis, que a política e os desentendimentos fiquem quando nos podermos dar ao luxo de nos zangar. Agora temos de lutar, lutar pelo trabalho, pelos que trabalham, pelas medidas que não olhem ao tipo de contratos, pela dinâmica das empresas e do consumo. Não podemos deixar que o vírus e o pós sejam histórias de miséria e de fome, pois já bastam as mortes que não conseguimos impedir. Temos já hoje de reagir e essa é uma reacção conjunta.

4. Somos um
Sempre fomos, é verdade. Um planeta, um único que ao dividir territórios se distinguiu mas que não se pode separar, que tem de em conjunto combater o problema. Não podemos esperar que os números piorem no nosso território para em conjunto enfrentarmos este inimigo. Todos somos mais fortes, mais fortes a derrotar o inimigo, a ultrapassar os desafios da privação de liberdade, da economia e da saúde. Juntos somos imbatíveis.

Em Dezembro falava da nova era como os novos anos 20. Sempre assumi que seriam loucos mas nunca com este nível de loucura… Mas já chega de estarmos incrédulos, é tempo de aceitar, de ir buscar o armamento e de ir para esta guerra. Enfrentar olhos nos olhos, com o potencial e a capacidade que só nós seres humanos temos. Vamos mostrar à História que esta é mais uma pandemia que vencemos, que este é mais um momento de aprendizagem e que neste “re” vamos ser muito mais do que fomos até agora. Vamos ser melhores, vamos deixar que o conforto não seja o dar por garantido mas sim a sensação de felicidade e que a confiança não seja em excesso mas que seja a confiança uns nos outros. Acredito que hoje temos de ir para a guerra. Acredito que amanhã vamos ser felizes.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 169 de Abril de 2020

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