Quem será o novo Papa? Conclave para escolher sucessor de Francisco arranca hoje: eis o que precisa de saber

Capela Sistina fecha-se sobre os 133 cardeais eleitores, que votarão sob estrito secretismo até escolherem o novo Papa

Pedro Gonçalves
Maio 7, 2025
6:15

Doze anos após a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa Francisco, o Vaticano volta a entrar em conclave. A Capela Sistina encerra-se esta quarta-feira com 133 cardeais eleitores reunidos para escolher o novo líder da Igreja Católica, após a morte de Francisco no passado dia 21 de abril. O processo começa com um juramento solene de segredo e uma primeira votação simbólica. A eleição decorre sob um rigoroso regime de clausura, com fortes medidas de segurança e total isolamento do mundo exterior.

O que é o conclave e como se processa
O conclave — do latim cum clavis, “com chave” — é o processo pelo qual os cardeais da Igreja Católica elegem o novo Papa. A eleição realiza-se à porta fechada na Capela Sistina, e só podem participar os cardeais com menos de 80 anos à data da morte do Papa ou da declaração de vacância da Sé Apostólica. Estão reunidos agora 133 cardeais eleitores, um número recorde, depois de dois terem sido dispensados por razões de saúde.

Antes de entrarem na Capela Sistina, os cardeais reúnem-se na capela Paulina e, pelas 16h15 (15h15 em Lisboa), dirigem-se em procissão entoando a litania dos santos. Vestem trajes vermelhos, símbolo do sangue de Cristo e dos mártires — exceto os cardeais das Igrejas Orientais, que usam os seus trajes próprios. Segue-se o cântico Veni Creator Spiritus e a leitura do juramento de sigilo. A missa Pro Eligendo Pontifice será celebrada esta manhã, na Basílica de São Pedro, presidida pelo cardeal decano Giovanni Battista Re.

A Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis regula o processo ao detalhe: os cardeais estão proibidos de comunicar com o exterior, seja por carta, telefone ou internet. Apenas “motivos gravíssimos e urgentes”, aprovados pela congregação particular do colégio cardinalício, podem justificar exceções. A violação do segredo implica a excomunhão automática.

As votações: fumo preto e fumo branco
A primeira votação acontece ao final da tarde desta quarta-feira e, segundo a tradição, serve essencialmente para testar o terreno, sendo pouco provável que um candidato obtenha desde logo os dois terços necessários — neste caso, 89 votos. Sempre que não houver consenso, sai fumo preto pela chaminé da Capela Sistina. O fumo branco, sinal da eleição, surge apenas quando um nome recolher o apoio necessário.

Se não houver eleição ao fim de três dias — o que, a confirmar-se, acontecerá no domingo — os cardeais farão uma pausa para oração e reflexão. As votações são retomadas depois, em blocos de duas de manhã e duas à tarde. Caso o impasse se prolongue por 34 votações sem sucesso, apenas os dois candidatos mais votados passam a figurar nas cédulas, continuando obrigados a atingir os dois terços exigidos.

Uma eleição imprevisível
Este conclave é considerado um dos mais imprevisíveis de sempre. A diversidade do colégio cardinalício — resultado direto das nomeações promovidas por Francisco, que designou cerca de 80% dos atuais eleitores — dá grande peso a regiões tradicionalmente menos representadas, como a Ásia e a África.

Entre os nomes apontados como possíveis sucessores, destaca-se o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, que irá presidir ao conclave. Mas a variedade de perfis e sensibilidades torna a decisão altamente incerta. O Papa Francisco foi eleito em 2013 ao fim de cinco votações, em apenas dois dias — o mesmo tempo que levou, em 2005, a eleição de Bento XVI. No entanto, conclaves anteriores duraram muito mais: o mais longo, em 1271, estendeu-se por quase três anos.

Onde vivem e como se alimentam os cardeais
Durante o conclave, os cardeais estão hospedados na Casa de Santa Marta, a residência papal onde Francisco viveu desde a sua eleição. O Vaticano preparou os aposentos com antecedência, para garantir “condições de comodidade, ordem e máxima reserva”. As refeições, simples e tradicionais da região do Lácio, como pratos de massa, legumes cozidos e espetadas de cordeiro (arrosticini), são confeccionadas por freiras e servidas sob rígida vigilância. A comida não é apenas nutrição: é também um momento de convivência, onde os cardeais trocam impressões e afinam consensos.

O acesso à Capela Sistina é vedado a todos, exceto aos eleitores e um grupo restrito de assistentes — como pessoal de limpeza e cozinha. Por motivos de saúde, alguns cardeais poderão estar acompanhados por um enfermeiro, que também fica sujeito ao juramento de segredo.

O ritual da votação
Cada votação começa com uma breve meditação conduzida por um sacerdote sobre “a gravíssima responsabilidade” do ato. Depois, os cardeais escrevem, em cédulas retangulares, a frase latina Eligo in Summum Pontificem (“Escolho como Sumo Pontífice”) seguida do nome do seu eleito. Os boletins devem ser escritos com caligrafia não identificável, mas legível.

Os votos são colocados dobrados numa urna de prata, após serem transportados num prato por cada cardeal até ao altar. Três escrutinadores, escolhidos por sorteio, contam os votos e garantem que não há discrepâncias com o número de eleitores. Se houver boletins a mais ou a menos, toda a votação é anulada e repetida.

Os votos são lidos em voz alta e o resultado anunciado apenas aos presentes. A votação repete-se até que um cardeal atinja a maioria de dois terços.

Quando há Papa
Assim que um cardeal atinge os 89 votos necessários, entra em cena o protocolo final. O secretário do colégio cardinalício e o mestre das celebrações litúrgicas pontifícias são chamados, e um dos cardeais pergunta ao eleito: “Aceitas a tua eleição canónica para Sumo Pontífice?”. Se a resposta for afirmativa, pergunta-se: “Com que nome queres ser chamado?”.

O novo Papa é então conduzido à chamada Sala das Lágrimas, onde se encontra com as suas vestes papais — disponíveis em três tamanhos. É um momento de recolhimento antes de se apresentar ao mundo.

A aceitação da eleição marca oficialmente o fim do conclave. Logo a seguir, sobe pela chaminé da Capela Sistina o aguardado fumo branco. Os sinos da Basílica de São Pedro tocam em uníssono. Minutos depois, o protodiácono aparece na varanda da basílica para proclamar o famoso Habemus Papam. Cerca de 45 minutos após a eleição, o novo Papa apresenta-se aos fiéis e ao mundo.

Apesar da escolha estar feita, o segredo mantém-se. Todos os presentes, cardeais ou leigos, estão proibidos de revelar qualquer detalhe sobre o processo — incluindo os votos dados ou recebidos — sob pena de excomunhão.

O conclave começa agora. Resta saber se a Igreja Católica procura continuidade com o legado de Francisco ou uma mudança de rumo. O mundo aguarda, olhos postos na chaminé da Capela Sistina.

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