A subida contínua dos preços das casas e das rendas na União Europeia está a pressionar os orçamentos familiares, a agravar a sobrelotação e a condicionar escolhas de vida e de carreira, numa crise habitacional que se intensificou ao longo da última década.
Desde 2010, os preços médios de venda das habitações na UE aumentaram 55,4% e as rendas subiram 26,7%, valores que superaram largamente o crescimento dos rendimentos de grande parte da população. De acordo com o ‘Euronews’, esta evolução tem vindo a aprofundar desigualdades no acesso à habitação em vários Estados-membros.
Portugal surge entre os mercados mais pressionados. No final de 2025, a Comissão Europeia estimou que os preços da habitação em território nacional estão sobrevalorizados em cerca de 25% face ao seu valor justo, um nível que ultrapassa o de outros mercados imobiliários do bloco.
Jovens mais expostos à pressão dos custos
O impacto da crise é particularmente sentido pelos jovens entre os 18 e os 29 anos, que enfrentam maiores dificuldades em cumprir pagamentos de habitação e serviços públicos. Um relatório recente da Eurofound, citado pelo ‘Euronews’, sublinha que muitos jovens são forçados a viver com pais ou familiares numa fase crucial da vida, em condições que não escolheriam em circunstâncias normais.
A concentração das oportunidades de emprego nas zonas urbanas agrava o problema, uma vez que é também nesses centros que a diferença entre procura e oferta de habitação é mais acentuada. A elevada concorrência por casas a preços acessíveis conduz frequentemente a situações de sobrelotação.
Em 2024, as taxas mais elevadas de habitação sobrelotada registaram-se na Roménia, Letónia e Bulgária, enquanto Chipre, Malta e os Países Baixos apresentaram os valores mais baixos. Ainda assim, mesmo os jovens que conseguem viver de forma independente acabam por gastar uma fatia muito superior do rendimento em habitação, ficando mais expostos ao risco de sobrecarga financeira do que outros grupos etários.
Arrendar consome grande parte do salário em vários países
Em países como Bulgária, Irlanda, Polónia, Portugal e Espanha, bem como em regiões da Áustria e de Itália, o grau de inacessibilidade do mercado de arrendamento é tal que, em muitas zonas, seria necessário mais de 80% do salário mediano para arrendar um apartamento T2.
Apesar deste cenário, alguns Estados-membros têm aumentado o investimento público em habitação. Dados do Eurostat indicam que, em 2024, 5,3% do PIB da União Europeia foi destinado a este setor. Chipre liderou o investimento, com 8% do PIB, seguido de Itália e Alemanha. Em sentido oposto, Polónia, Letónia e Grécia figuram entre os países que menos investem.
Plano europeu tenta responder à crise
No ano passado, a Comissão Europeia apresentou o primeiro Plano de Habitação Acessível, com o objetivo de travar a crise em todo o bloco. A iniciativa prevê medidas para identificar comportamentos especulativos e promover maior equidade no mercado imobiliário.
A UE comprometeu-se a mobilizar pelo menos 11,5 mil milhões de euros do seu orçamento plurianual, que se somam aos 43 mil milhões já destinados à habitação social, acessível e sustentável. Está ainda previsto que bancos e instituições de fomento nacionais e regionais invistam cerca de 375 mil milhões de euros até 2029.
Segundo o ‘Euronews’, as preferências habitacionais não satisfeitas estão associadas a consequências negativas duradouras, incluindo dificuldades em alcançar uma vida independente, limitações nas escolhas profissionais, impactos na saúde mental e o adiamento da decisão de ter filhos.














