Quase 34 mil casos: Dependência do jogo online leva a recorde de suspensões voluntárias em 2025

O número de jogadores que decidem afastar-se voluntariamente do jogo online atingiu um valor recorde em Portugal. Só entre janeiro e junho deste ano, mais de 33,9 mil contas foram suspensas por iniciativa dos próprios utilizadores, elevando o total acumulado de autoexclusões para mais de 326 mil.

Revista de Imprensa
Setembro 24, 2025
8:55

O número de jogadores que decidem afastar-se voluntariamente do jogo online atingiu um valor recorde em Portugal. Só entre janeiro e junho deste ano, mais de 33,9 mil contas foram suspensas por iniciativa dos próprios utilizadores, elevando o total acumulado de autoexclusões para mais de 326 mil. O mecanismo, que impede o acesso a apostas desportivas e jogos de fortuna ou azar, tem registado quase 200 novos pedidos por dia, a maioria de forma definitiva e com cancelamento de registo. O fenómeno coincide com o debate parlamentar sobre a regulação do setor, numa altura em que se assinala uma década desde a legalização do jogo online e em que os portugueses gastam, em média, 3,1 milhões de euros diários nestas plataformas.

De acordo com dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) citados pelo Jornal de Notícias, a esmagadora maioria dos pedidos — 293,5 mil — corresponde a exclusões por tempo indeterminado, enquanto 32,9 mil jogadores optaram por suspensões temporárias, nunca inferiores a três meses. Apesar destes números, o registo não traduz necessariamente o total de pessoas afastadas, já que um mesmo jogador pode ter contas em várias entidades exploradoras. No total, existem atualmente 4,8 milhões de registos ativos em plataformas de jogo online.

O psicólogo Pedro Hubert, do Instituto de Apoio ao Jogador, considera que a tendência reflete o aumento geral do número de jogadores, mas alerta para o impacto do crescimento. “É um número muito grande e preocupante, mas ainda bem que o mecanismo existe porque assim não jogam”, afirmou. Sublinhou ainda que a autoexclusão é apenas uma parte da solução: “Quem quer jogar consegue sempre, ou pede um cartão de cidadão emprestado, ou recorre a sites ilegais, ou aposta nos quiosques.” Hubert frisou ainda que o verdadeiro problema reside no mercado clandestino, onde “não existem regras e impera a lei da selva”.

A Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO) partilha da preocupação com o aumento do número de exclusões, mas lembra que este mecanismo não é exclusivo de jogadores com problemas de dependência. O presidente da associação, Ricardo Domingues, defende que é necessário reforçar os instrumentos existentes. “Podemos dizer, perentoriamente, que a autoexclusão não é suficiente. Em abril apresentámos uma proposta ao regulador para que, se uma pessoa se exclui de um operador, fique automaticamente afastada de todos os outros”, explicou.

Apesar do crescente recurso a mecanismos de contenção, os números do setor não param de subir. Só no primeiro semestre de 2025, a receita bruta do jogo online atingiu 571,7 milhões de euros, com os jogos de fortuna ou azar a liderarem as preferências dos apostadores. O Estado arrecadou, no mesmo período, 163,9 milhões de euros através do Imposto Especial de Jogo Online (IEJO), reforçando a tendência de crescimento das receitas públicas associadas ao setor.

Para Pedro Hubert, estes valores devem ter um destino claro: “Estamos a falar de milhões e milhões que devem ser encaminhados para se fazer prevenção, para tratamentos e investigação. Portugal tem muito pouca investigação”, alertou, defendendo que a prioridade deve ser proteger sobretudo os mais jovens, que constituem uma das faixas mais vulneráveis ao vício do jogo.

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