Portugal não tem tradição de segundas voltas nas eleições presidenciais, mas tudo indica que este domingo poderá abrir um novo capítulo no calendário político nacional. As sondagens apontam para um desfecho sem maioria absoluta à primeira volta, obrigando candidatos e partidos a reposicionarem-se num quadro inédito de alianças, apoios tácitos e silêncios estratégicos.
Com base nos cenários traçados por Bruno Ferreira Costa, Paula do Espírito Santo e João Pacheco, politólogos ouvidos pela ‘CNN Portugal’, é possível antecipar como poderá evoluir o xadrez político em função das combinações mais prováveis entre os candidatos mais bem colocados.
Ventura frente a Gouveia e Melo: o sistema fecha fileiras
Num cenário que opõe André Ventura a Henrique Gouveia e Melo, os politólogos são unânimes: todos os restantes candidatos tenderiam a convergir, de forma direta ou indireta, no apoio ao almirante. Segundo a CNN Portugal, Ventura é encarado transversalmente como um candidato antissistema, com posições vistas como antidemocráticas e incompatíveis com a atual Constituição.
Gouveia e Melo surgiria, assim, como um “mal menor”, incluindo para partidos à esquerda, beneficiando de uma imagem institucional e de compromisso com o regime democrático. No PSD, Luís Marques Mendes enfrentaria um dilema pessoal e político, mas a pressão interna e mediática poderia empurrar o partido para uma aproximação ao almirante.
Seguro contra Ventura: convergência ampla, mas com resistências liberais
Se António José Seguro enfrentar André Ventura numa segunda volta, o apoio da esquerda seria imediato e inequívoco. Ao centro e à direita, as dúvidas seriam maiores, mas os politólogos consideram que o sentido de Estado acabaria por prevalecer.
A Iniciativa Liberal surgiria como o caso mais delicado, dado o discurso de campanha contra um Presidente socialista. Ainda assim, segundo os analistas citados pela CNN Portugal, validar Ventura em Belém seria politicamente mais custoso do que apoiar Seguro, mesmo que isso implique uma fratura entre candidato e partido.
Ventura frente a Marques Mendes: esquerda chamada a escolher
Num confronto entre Ventura e Marques Mendes, a lógica repete-se: ninguém quererá associar-se ao líder do Chega. Neste cenário, caberia sobretudo à esquerda mais à esquerda do PS assumir o custo político de apoiar um candidato de centro-direita para travar Ventura.
Os politólogos admitem que Gouveia e Melo optasse por uma posição de distanciamento, evitando apoiar qualquer dos candidatos, sobretudo após os ataques mútuos durante a campanha.
Cotrim de Figueiredo contra Ventura: o “cenário pesadelo” para a esquerda
Uma segunda volta entre os dois candidatos mais à direita seria, segundo os analistas, o pior cenário possível para a esquerda. Ainda assim, a lógica do “tudo menos Ventura” tenderia a impor-se, levando sectores do PS a assumir uma posição institucional a favor de Cotrim de Figueiredo.
Neste contexto, Gouveia e Melo e Marques Mendes surgiriam naturalmente inclinados para o liberal, enquanto a esquerda mais radical poderia optar pelo silêncio estratégico.
Gouveia e Melo frente a Seguro: divisões no PSD e cálculos à direita
Num duelo entre Gouveia e Melo e António José Seguro, o PSD poderia dividir-se, com Marques Mendes a encontrar maior facilidade em justificar um apoio a Seguro do que ao almirante, que o atacou pessoalmente durante a campanha.
À direita, Ventura e Cotrim de Figueiredo poderiam inclinar-se para Gouveia e Melo, embora com reservas. Ventura, em particular, poderia explorar a narrativa do almirante como candidato “fora do sistema”, caso visse nisso uma oportunidade política.
Marques Mendes contra Gouveia e Melo: partido e eleitorado em sentidos opostos
Este cenário coloca em evidência a tensão entre partidos e bases eleitorais. Enquanto o PSD tenderia a alinhar com Marques Mendes, parte do eleitorado socialista poderia ver em Gouveia e Melo uma figura de oposição ao Governo.
Ventura, segundo os politólogos, apoiaria o almirante para evitar reforçar o PSD, enquanto Cotrim de Figueiredo se posicionaria ao lado de Marques Mendes, por afinidade política e estratégica.
Gouveia e Melo frente a Cotrim: o centro em disputa
Aqui, o PS enfrentaria um dilema estratégico: apoiar um liberal ou um militar sem partido. A pressão interna tenderia a favorecer Gouveia e Melo, visto como barreira a uma agenda liberal em Belém.
Ventura, por sua vez, cairia claramente para o lado do almirante, procurando reforçar a imagem de ambos como outsiders face ao sistema político tradicional.
Marques Mendes contra Seguro: o regresso da moderação
Este é descrito como o cenário mais clássico, com a esquerda a apoiar Seguro e a direita a alinhar com Marques Mendes. Gouveia e Melo poderia optar pelo silêncio, mas os analistas admitem uma inclinação pessoal para Seguro, após uma campanha mais crítica em relação ao candidato do PSD.
Ventura aproveitaria o contexto para reforçar o discurso antissistema, embora pudesse usar um eventual apoio a Marques Mendes como instrumento negocial.
Seguro frente a Cotrim: alinhamentos previsíveis, com nuances
Neste confronto, a esquerda fecharia fileiras com Seguro e a direita com Cotrim. Ainda assim, Marques Mendes poderia optar por apoiar o liberal, por coerência com o eleitorado de centro-direita.
Gouveia e Melo surgiria mais próximo de Seguro, enquanto Ventura escolheria Cotrim como “mal menor”, apesar das resistências do eleitorado do Chega à Iniciativa Liberal.
Cotrim contra Marques Mendes: Ventura regressa à oposição pura
Num duelo entre Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes, Seguro apoiaria o candidato do PSD, pela sua moderação. Gouveia e Melo tenderia a dar liberdade de voto.
Ventura enfrentaria um dilema, mas tudo indica que preferiria regressar a uma oposição dura no Parlamento, evitando compromissos claros. À esquerda, Livre, Bloco e PCP poderiam alinhar tacitamente com Marques Mendes para travar um Presidente liberal, concluem os politólogos citados pela CNN Portugal.













