Portugal está a consolidar-se na área da tecnologia como um centro nevrálgico em termos tecnológicos na Europa e mesmo no Mundo, abandonando a ideia, ou o “fado” de sermos meros executores para nos tornarmos num parceiro estratégico a desenvolver software.
Quem volta a ser protagonista é a empresa portuguesa Critical Software. Tanto esta empresa como OutSystems têm demonstrado ao longo dos anos a sua expertise em termos de software e cada uma se destacou nas suas áreas, a nível mundial.
As recentes parcerias da Critical Software, primeiro com a BMW, depois com a Mini e agora com a Airbus, vão permitir à nossa engenharia nacional assumir a responsabilidade pela criação de sistemas onde a segurança e a confiabilidade são vitais, como vão ser o controlo dos aviões a hidrogénio, com zero emissões a ser lançados em 2035 e no caso da gestão dinâmica dos veículos elétricos.
Com este novo ecossistema de inovação, Portugal pode ficar na vanguarda da mobilidade do futuro, tanto na indústria aeroespacial como automóvel. Dito de outro modo, passamos a ser um parceiro que define o futuro.
Comecemos pelo início desta parceria em 2018 com a BMW onde com a Critical Software criam a Critical Techworks. Este projeto surgiu nas notícias mais no final do ano, quando foi o lançamento do novo BMW iX3. Mais tarde tive o prazer de o acompanhar em Munique em 2025 numa apresentação mundial para jornalistas nos BMW Group Responsibility Days de 2025, onde a empresa mostrou que não é uma mera produtora de automóveis, mas também que está preocupada com os temas da sustentabilidade e da inovação.
Nesse evento surgiu o destaque para as fábricas sustentáveis do grupo – iFactory – que utilizam energia 100% verde, processos de desperdício zero e, num gesto inédito de transparência foi apresentado também o impacto do referendo que fizeram à população para a instalação da fábrica numa determinada zona.
Mostraram também a parceria com startups tecnológicas para acelerar a integração de materiais reciclados e software de economia circular mas também aplicações práticas como a instalação de bancos de recolha de garrafas de plástico ou a transformação de resíduos e interiores têxteis premium, ou a apresentação das novas baterias cilíndricas que irão também ser notícia brevemente, essenciais para a eficiência da próxima geração elétrica no grupo BMW.
E aqui foi também o palco da consagração da Critical Techworks, provando o valor estratégico do software português dentro do grupo e onde os jornalistas todo o mundo também testemunharam como é que a inteligência artificial está a transformar a experiência de condução.
Assim com a visão da Neue Klasse que vai surgir no novo BMW iX3 que une alta performance ambiental com inovação tecnológica de ponta e ao consolidar a Critical Techworks mostrou que esta empresa é hoje o maior centro de desenvolvimento de software do grupo BMW fora da Alemanha, com cerca de 3.300 engenheiros que estão distribuídos por Lisboa, Porto e Braga, contando com o ecossistema da Critical Software em Coimbra.
E, a partir de 2026 vamos começar a ver o resultado deste software nas estradas de Portugal, mas também em todo o mundo, onde o destaque é que cerca de 50% deste software foi desenvolvido em Portugal.
E os destaques são:
- BMW Panoramic iDrive
- onde a CTW criou uma interface revolucionária onde desaparece o painel de instrumentos e toda a informação é projetada a toda a largura da base do para-brisas, aquilo que a BMW denomina (BMW Panoramic Vision) onde o software que gere esta experiência imersiva ‘Eyes on the road’, permite ao condutor interagir com o carro de forma quase orgânica
- Digital Road Model
- onde o iX3 utiliza sistemas avançados de assistência à condução (ADAS) onde os algoritmos com assinatura portuguesa prevêm mudanças de faixa de rodagem e antecipam o trânsito.
- Gestão de Energia e de carregamento Inteligente
- baseado nas novas baterias pode atingir uma autonomia recorde de até 805 km com um arquitetura de carregamento de 800V, software de gestão térmica e de baterias extremamente preciso para o iX3, otimização das rotas de carregamento (Charging-Optimized Route Guidance), garantindo que o automóvel decide onde e quanto carregar para minimizar o tempo de viagem,
- Earth of Joy
- o novo cérebro central que unifica pela primeira vez num automóvel o controlo tração, travagem, direção e suspensão num único supercomputadores que se encontra a bordo.
- E é aqui que a CTW surgiu para criar uma infraestrutura de software que permite a estas funções comunicarem, e este é o detalhe mais importante com latência zero.
Depois como se isto não bastasse, foi o projeto Mini, onde também este passou a ser um dispositivo digital sobre rodas, mas com selo português e focou-se em três itens:
- Gestão do carregamento com otimização para poupar bateria e também a carteira do utilizador
- Personalização “Mood-based”, onde o software muda instantaneamente o ambiente interior do Mini (luzes, sons e interface do ecrã OLED circular da MINI)
- EVE (Emotional Vehicle Experience), a plataforma de visualização 3D e Realidade Virtual que vai ser utilizada pelos concessionários MINI em todo o mundo ao permitir que cliente configure e “entre” no seu carro de forma ultra-realista antes de ele ser fabricado.
• Digitalização da Produção onde a CTW desenvolveu também software de logística e digitalização industrial aplicado na fábrica da MINI em Oxford para análise de dados, prever falhas na produção e garantir que a personalização de qualquer MINI, executada sem erros na linha de montagem.
Com todas estas evidências percebe-se assim que a parceria com Airbus não foi descabida, tendo sido criada a Critical Flytech para demonstrar que o céu não é o limite.
Em janeiro de 2026 vemos assim arrancar esta nova empresa, a Critical Flytech, numa parceria, diria inédita, entre Airbus e Critical Software para desenvolver software com a certificação mais exigente que existe no mundo, que é a norma DO-178C, de nível A, ou seja, o nível máximo.
Significa que uma falha de software teria consequências catastróficas com a perda de controlo da aeronave. Esta é, pois, a cereja no topo do bolo em termos de visão estratégica, ao surgir como uma peça fundamental da engrenagem pois vai permitir à Airbus atingir a meta do projeto ZEROe – aviões movidos a hidrogénio.
Sendo que Critical Flytech trabalha transversalmente em vários modelos da Airbus, o seu papel é vital para este projeto em particular dos aviões a hidrogénio por uma razão técnica. O hidrogénio vai mudar tudo na arquitetura de software, em três aspetos:
- Uma gestão térmica e de combustível, que é complexa, onde o hidrogénio líquido tem de ser mantido a temperaturas criogénicas de -253º. Assim o software que controla o fluxo, a pressão e a temperatura deste combustível é infinitamente mais complexo do que o querosene tradicional.
- Novos sistemas de propulsão – tanto se usar combustão direta de hidrogénio ou células de combustível (Fuel Cells) para gerar eletricidade, o “cérebro” (avionics) precisa de ser redesenhado e a FlyTech tem de criar esta nova lógica do controlo de potência
- Certificação – Este é talvez o maior desafio – a certificação de segurança para um avião ser autorizado a voar com passageiros em 2035, vai submeter software a processos de certificação nunca antes vistos e a Critical Software é das poucas empresas no mundo que têm o know-how (como a norma DO-178C) para garantir que estas novas tecnologias são “certificáveis” perante as autoridades reguladoras (EASA/FAA).
Assim, o objetivo de colocar o primeiro avião comercial a hidrogénio nos céus até 2035 vai depender criticamente da capacidade de conseguirem digitalizar a aeronave. Estamos literalmente a falar de desenhar o código que vai permitir a descarbonização da aviação mundial.
Em jeito de conclusão, diria que Portugal entra assim para um clube muito exclusivo, com a criação da Critical Techworks e da Critical Flytech, onde o foco é o software embutido e onde o erro tem que ter tolerância zero.
Passamos assim a tornar-nos um parecer estratégico de engenharia de valor acrescentado e pela primeira vez o talento nacional está agora a trabalhar na vanguarda mundial sem precisar de emigrar e levando a fasquia da competitividade interna para níveis nunca antes vistos.


















